A pesca colaborativa com botos é uma prática que une humanos e animais de maneira única no litoral do Rio Grande do Sul. Essa interação, que foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reflete uma tradição que perdura por gerações.
Localizada na Barra do Rio Tramandaí, essa prática envolve a colaboração entre pescadores e botos-de-Lahille, uma espécie ameaçada de extinção. Estima-se que existam apenas cerca de 330 indivíduos dessa espécie no mundo, a maioria deles nas águas do sul do Brasil.
Pesca Colaborativa com Botos: Uma Tradição Centenária
A pesca com botos é uma tradição que se estende por mais de um século. Embora não se saiba exatamente quando começou, muitos pescadores afirmam que seus pais e avós já praticavam essa atividade. A relação entre os pescadores e os botos é tão intensa que os animais são conhecidos por seus nomes, como Geraldona, que é uma fêmea de boto-de-Lahille com mais de 40 anos.
Geraldona é uma figura central nesse cenário. Ela e outros botos se tornam guias para os pescadores, sinalizando onde os cardumes estão localizados. Essa interação é um exemplo notável de como duas espécies podem trabalhar juntas para alcançar um objetivo comum.
O Reconhecimento do Iphan
O reconhecimento da pesca colaborativa com botos pelo Iphan é um marco importante. Essa decisão foi tomada durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. A inclusão no Livro dos Saberes destaca a importância do conhecimento tradicional que os pescadores possuem sobre seu ambiente.
José Roberto Prestes Madruga, dirigente do Sindicato de Pescadores de Tramandaí, expressou sua satisfação com essa decisão. Ele acredita que esse reconhecimento protegerá a prática e as comunidades envolvidas, evitando que empreendimentos que possam ameaçar a pesca cooperativa sejam instalados na região.
A Relação entre Pescadores e Botos
A relação entre pescadores e botos é marcada por uma conexão profunda. Durante as pescarias, os botos aparecem para ajudar os pescadores a localizar os cardumes. Quando há uma boa concentração de tainhas, até 15 botos podem ser vistos trabalhando em conjunto com os pescadores.
Essa colaboração é uma dança natural entre espécies. Os botos sinalizam a presença de peixes, e os pescadores lançam suas redes no local indicado. Essa interação não é apenas uma questão de sobrevivência, mas também uma celebração da vida e da convivência harmoniosa entre humanos e a natureza.
Impacto na Comunidade e na Conservação
A pesca colaborativa com botos não apenas garante a subsistência dos pescadores, mas também desempenha um papel crucial na conservação da espécie. Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou os botos-de-Lahille de vulneráveis para em perigo de extinção. Portanto, a proteção dessa prática se torna ainda mais vital.
O pescador Maurino Ramos Francisco, que vive em Imbé, compartilha sua experiência com os botos. Ele descreve a amizade que desenvolveu com esses animais, ressaltando que eles se tornaram parte de sua família. Essa relação de troca é fundamental, pois os botos ajudam a capturar peixes que escapam das redes, beneficiando ambas as partes.
Um Legado para o Futuro
A pesca colaborativa com botos é mais do que uma prática de pesca; é um legado cultural que deve ser preservado. A tradição, que já se estende por gerações, é uma herança que os pescadores desejam passar para seus filhos. A proteção dessa prática é essencial para garantir que futuras gerações possam continuar a desfrutar dessa relação única.
O reconhecimento da pesca colaborativa com botos é um passo importante para a valorização dessa tradição. Com isso, espera-se que essa prática continue a florescer e a inspirar outras comunidades a buscar formas de interação sustentável com a natureza.
Em suma, a pesca colaborativa com botos é uma prática rica em história e significado. Essa relação especial entre humanos e botos é um exemplo de como a natureza pode unir diferentes espécies em harmonia. A preservação dessa tradição é vital não apenas para a cultura local, mas também para a proteção da biodiversidade.
Para mais informações sobre práticas sustentáveis e conservação, visite Em Foco Hoje. Para entender melhor sobre a conservação de espécies marinhas, acesse o site da IUCN.



