A relação entre Marketing e saúde mental é um tema que vem ganhando destaque nas discussões sobre a dinâmica corporativa. O Brasil, por exemplo, avançou em rankings de felicidade, mas, ao mesmo tempo, enfrenta um aumento significativo nos afastamentos por problemas relacionados à saúde mental. Essa dualidade apresenta um desafio para as lideranças, especialmente em áreas como o Marketing, que é constantemente pressionada por resultados e inovação.
Marketing e saúde mental: um paradoxo
O país ocupa a 32ª posição entre 147 nações no Relatório Mundial da Felicidade, com uma pontuação média de 6,634. Contudo, em 2025, mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais foram registrados, conforme dados do Ministério da Previdência Social. Essa contradição se torna ainda mais evidente no Marketing, onde a pressão por desempenho e a necessidade de adaptação rápida criam um ambiente que pode ser prejudicial ao bem-estar dos colaboradores.
As empresas, ao tentarem construir narrativas de marca que promovem propósito e conexão, muitas vezes falham em aplicar esses mesmos valores internamente. A pesquisadora Vanda Lohn, especialista em Felicidade Corporativa, descreve essa situação como um paradoxo estrutural. Segundo ela, embora a cultura e os laços afetivos possam promover bem-estar, os ambientes de trabalho frequentemente operam em sentido oposto, não conseguindo manter essa percepção ao longo do tempo.
Desafios do Marketing sob pressão
No setor de Marketing, essa pressão é intensificada por rotinas que envolvem múltiplos canais e ciclos de entrega curtos. A pesquisadora Jennifer D. Wallace, durante o SXSW, mencionou um conceito chamado “anti-mattering”, que se refere à perda de percepção de impacto individual no trabalho. Para Wallace, o sentimento de relevância está ligado a quatro dimensões: o valor da presença, o reconhecimento, o investimento no desenvolvimento e a compreensão do impacto da contribuição. A ausência desses fatores pode levar a sintomas de desengajamento e burnout.
Equilíbrio entre resultados e gestão emocional
A discussão sobre Marketing e saúde mental se torna ainda mais relevante quando conectada ao estudo de Harvard sobre desenvolvimento adulto. O psiquiatra Robert Waldinger, que dirige essa pesquisa, afirma que a qualidade das relações interpessoais é o principal preditor de uma vida saudável e satisfatória. Dentro do ambiente corporativo, isso altera o papel dos líderes, especialmente no Marketing, que depende da criatividade e da colaboração.
Gestores precisam encontrar um equilíbrio entre a pressão por resultados e a gestão emocional de suas equipes. Dados da McKinsey & Company indicam que equipes lideradas por gestores com alta inteligência emocional têm até 23% mais engajamento e menor rotatividade. Patrícia Suzuki, CHRO da Redarbor Brasil, enfatiza que o líder do futuro deve ser capaz de lidar com as emoções de sua equipe, especialmente em contextos de pressão constante.
A busca por pertencimento nas novas gerações
Com a chegada de novas gerações ao mercado de trabalho, a pressão por mudanças nas empresas se intensifica. O Relatório Mundial da Felicidade aponta que o sentimento de pertencimento é um dos principais fatores de bem-estar entre os jovens. Vanda Lohn alerta que, se o pertencimento é crucial para a felicidade da juventude, as organizações devem evoluir de meros locais de trabalho para comunidades que promovem suporte.
O Marketing enfrenta um desafio adicional: precisa resolver suas contradições internas antes de traduzir comportamentos em narrativas. A ascensão da inteligência artificial e da automação pode aumentar a eficiência, mas não substitui a necessidade de reconhecimento e conexão humana. O diferencial competitivo não será apenas tecnológico, mas também a capacidade de fazer as pessoas se sentirem relevantes.
Pressão e criatividade: o ciclo vicioso
A pressão sobre as equipes de Marketing não ocorre isoladamente, mas é reflexo de um ecossistema saturado, onde a produção se tornou uma obrigação. Durante o CMO Summit, Guilherme de Bortolli destacou que, embora seja mais barato produzir Marketing, a quantidade de conteúdo competindo pela atenção do público nunca foi tão alta. Isso resulta em marcas que se repetem, lutando por espaço com variações do mesmo discurso.
Esse cenário gera um ciclo difícil de sustentar: quanto mais se produz sem impacto, maior a pressão por volume, e quanto maior a pressão, menor a capacidade de criar algo que realmente se destaque. A criatividade, portanto, deve ser vista como um critério estratégico, essencial para a diferenciação em um ambiente saturado.
Assim, a intersecção entre Marketing e saúde mental revela um desafio significativo para as empresas. A verdadeira questão não é apenas ser mais feliz, mas aprender a evitar o adoecimento no trabalho. Para mais informações sobre saúde mental no ambiente corporativo, visite Organização Mundial da Saúde. Para mais conteúdos sobre o tema, acesse Em Foco Hoje.



