Cine Marabá: a arquitetura art déco em um dos cinemas mais antigos de São Paulo
Localizado no coração da cidade, o Cine Marabá foi um dos cinemas mais frequentados no passado e passou por uma restauração nos anos 2000 que preservou suas características originais.
Ao caminhar pela Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, é quase impossível não se deparar com a impressionante fachada do Cine Marabá. Em meio a prédios históricos e ao agito da avenida, o cinema continua a se destacar com sua grandiosidade. Inaugurado entre 1944 e 1945, o projeto surgiu em um período em que os cinemas eram fundamentais na vida urbana, servindo como locais de encontro e entretenimento. O Marabá fazia parte da Cinelândia Paulistana, um conjunto de salas de diferentes tamanhos que transformou o centro em um dos principais centros culturais entre as décadas de 1930 e 1960. “O Cine Marabá era mais do que um espaço para ver filmes. Foi projetado como um local de convivência e expressão social, ligado à modernidade e à vida cultural de São Paulo”, afirma o arquiteto Guilherme Michelin, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Com um pé-direito elevado e materiais de alta qualidade, o Cine Marabá, inaugurado em 1944, possuía uma sala imponente, capaz de acomodar mais de 1.500 espectadores.
O projeto também tinha como objetivo competir com outras salas renomadas da época. Pertencente à Empreza Paulista Cinematográfica, do empresário Paulo Sá Pinto (1912–2020), o Marabá foi construído logo em frente ao Cine Ipiranga — que era o principal espaço de exibição da cidade e parte de um grupo concorrente liderado pelo empresário espanhol Francisco Serrador (1872–1941).
O contexto da Cinelândia
A partir de 1911, com a inauguração do Theatro Municipal, a cena cultural no centro de São Paulo se consolidou em meio ao processo de modernização da cidade. O Vale do Anhangabaú é considerado um dos principais espaços públicos da cidade, tanto pela sua multifuncionalidade quanto pela localização privilegiada. A região abrigava uma grande quantidade de cinemas de rua — desde os maiores até os menores — que desempenharam um papel crucial na cultura paulistana do início do século 20. “A área do Vale do Anhangabaú se desenvolvia economicamente, em grande parte graças aos cinemas, que estavam associados ao funcionamento de lojas, cafés, boutiques e centros comerciais”, explica Thais Valvano, historiadora pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora sobre cinemas.
Entre as décadas de 1930 e 1940, a região do Largo do Paissandu e das avenidas São João e Ipiranga formou um circuito cultural vibrante, que incluía o Cine Paissandu (1957), projetado pelo escritório Severo e Villares S.A., o Cine Ipiranga (1941) e o Cine Art Palácio (1936), ambos projetados pelo arquiteto Rino Levi (1901–1965). Um dos destaques da região foi o Cine Paissandu, especialmente em 1967, quando ainda estava em pleno funcionamento.
A arquitetura do Cine Marabá
O Cine Marabá foi projetado em 1944 pelos arquitetos Domício de Almeida e Raul Rosa Duarte, da Sociedade Construtora Duarte Ltda. A escolha de uma construtora para o projeto, em vez de um escritório individual, reflete um modelo de produção comum na época, onde o processo arquitetônico era colaborativo entre equipes técnicas e empresas de construção. A arquitetura exibia referências do art déco, caracterizada pela verticalidade e pelo uso de formas geométricas. No interior, o amplo hall de entrada com pé-direito elevado, os elementos decorativos, os lustres e a grande sala de exibição com um balcão superior intensificavam a sensação de sofisticação e espetáculo. O conjunto tornou-se tão icônico que foi destaque nas páginas da Revista Acrópole, em julho de 1945, com fotografias de Leon Liberman.
O Cine Marabá possuía bancos estofados e um balcão superior na sala de exibição, reforçando seu caráter monumental e elegante. Ao mesmo tempo, o projeto refletia a transição arquitetônica dos anos 1940, incorporando soluções mais sóbrias e funcionais. “Sua concepção dialoga ainda com os chamados movie palaces, grandes cinemas projetados para transformar a experiência de assistir a um filme em um evento cultural e social”, destaca Guilherme. A fachada é contínua e organizada por uma repetição de cheios e vazios, conferindo ritmo e unidade ao conjunto. Sobre essa estrutura, surgem ornamentos em relevo, com desenhos inspirados na flora e fauna brasileiras. “Essa era uma escolha comum no art déco da época e expressava a busca por referências locais em uma linguagem arquitetônica moderna”, ressalta Licia de Oliveira, arquiteta e urbanista, membro do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura Municipal de São Paulo.
A linguagem arquitetônica do Cine Marabá combina referências do art déco com elementos locais que evocam a brasilidade — como os vazados da fachada, que permitem a entrada de luz natural nas escadas internas. As imagens antigas mostram o registro da sala de espera e da plateia do balcão superior do cinema.
De fato, as referências locais estão presentes até mesmo no nome do cinema. “Marabá, além de se referir à cidade paraense homônima e simbolizar uma recuperação da cultura marajoara, traz a dimensão da miscigenação e um olhar para referências brasileiras”, observa Licia. As marquises, que se estendem sobre a calçada, ajudam a demarcar a entrada do Marabá e criam uma transição direta entre o interior e a Avenida Ipiranga. Além disso, a forma escalonada do edifício, com os andares superiores recuando em relação à rua, cria uma composição arquitetônica em ‘degraus’, reforçando sua monumentalidade. “Isso contribui para a sensação de altura e confere ao prédio uma presença marcante na paisagem”, diz a arquiteta.
A experiência do público
Com capacidade para 1.655 espectadores, o Cine Marabá foi um dos maiores e mais queridos da cidade. Em dias de estreia, as filas se estendiam pelas calçadas, enquanto os exibidores lutavam pelo privilégio de apresentar os filmes mais esperados. Licia observa que a arquitetura do cinema era essencial para a experiência do público, funcionando como uma sequência espacial: “Ajudava a afastar as pessoas do cotidiano e as preparava para o que veriam na tela”. O uso de mármore, iluminação indireta e revestimentos estofados contribuía para a transição da vida real para o mundo da sétima arte. Ali, as pessoas também “acompanhavam lançamentos internacionais, moda, comportamento e a vida das celebridades nas revistas especializadas. Ao chegarem à Cinelândia, era como se estivessem mais próximas daquele universo mágico”, comenta a historiadora Thais. Além da exibição de filmes, os cinemas serviam como locais de encontro, especialmente para a elite paulistana.
Transformações do cinema de rua
A partir da segunda metade do século 20, o circuito de cinemas de rua em São Paulo passou por um processo de desestruturação. A chegada da televisão alterou o padrão de consumo cultural e, posteriormente, a consolidação das salas em shoppings reestruturou o mercado exibidor. Nesse cenário, muitas salas foram fechadas ou adaptadas para outros fins. A fachada atual do Cine Marabá mantém as vigas, os elementos vazados, os acessos e a conexão com a rua, todos presentes desde o projeto original dos anos 1940.
No final dos anos 1980, o público do Cine Marabá começou a diminuir, mas o espaço não encerrou suas atividades. Na década de 1990, o edifício foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), em meio aos debates sobre a preservação de bens na região do Vale do Anhangabaú. Logo depois, em 1996, cinco anos após a morte de Paulo Sá Pinto, a sala passou a ser administrada pela PlayArte, que rapidamente percebeu a necessidade de reformas para assegurar sua continuidade. Após três anos de negociações com o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), a restauração do prédio foi confirmada, levando à suspensão temporária das atividades em 2007. A sala de exibição buscou preservar elementos originais em seus interiores, mantendo suportes e detalhes decorativos ao lado da tela, alinhando-se ao projeto histórico.
O restauro do Cine Marabá foi realizado pelos arquitetos Samuel Kruchin, responsável pelo projeto da fachada e do foyer, e Ruy Ohtake (1938–2021), encarregado da intervenção nos interiores.
A principal mudança ocorreu na sala de exibição. Antes única e com mais de mil lugares, foi dividida em cinco — três no térreo, com formato circular, e duas no andar superior. Espaços de acesso e circulação, além de parte dos acabamentos originais, como o piso de parquet e as referências cromáticas do projeto histórico, foram mantidos. A transformação mais significativa foi a modernização do espaço, marcada pela divisão da sala original em ambientes menores, com formatos circulares.
O Cine Marabá foi reaberto em maio de 2009. Desde então, continua em funcionamento. “Sua presença demonstra que o centro permanece ativo e que valorizar a história da Cinelândia significa resgatar e preservar a cultura da cidade, que é extremamente rica”, analisa Thais. Para Guilherme, assegurar a permanência e a integração de bens tombados e históricos, como o Cine Marabá, é uma maneira de fortalecer a memória urbana. “Isso também é preservar a capacidade da sociedade de compreender sua própria trajetória e projetar de forma mais consciente o seu futuro”, complementa o arquiteto.
Para mais notícias acesse emfocohoje.com.br. Confira também outros conteúdos em centralnerdverse.com.br.



