Estudos sugerem que as canetas emagrecedoras poderiam ajudar no tratamento de alguns tipos de câncer
Pesquisas recentes indicam que os agonistas de GLP-1, utilizados no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, podem desacelerar a metástase em certos tipos de câncer, como pulmão, mama, colorretal e fígado. Os resultados foram apresentados neste ano na ASCO 2026, o maior congresso de oncologia do mundo, que ocorre anualmente no final de maio, em Chicago, nos EUA.
As investigações sobre o impacto das canetas emagrecedoras no câncer tiveram início há aproximadamente cinco anos, e mais informações são necessárias para validar os benefícios. No entanto, os análogos de GLP-1 surgem como uma alternativa inovadora na busca por novos tratamentos contra a doença. De acordo com o oncologista clínico brasileiro Paulo Henrique Costa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e que também atua nos hospitais da Rede Mater Dei, os estudos realizados são retrospectivos, o que significa que não são tão representativos em termos estatísticos. “Não se trata de um ensaio clínico randomizado. Nesse tipo de pesquisa, os participantes são divididos em grupos: um recebe o tratamento e o outro, não, permitindo uma evidência muito mais robusta, quase irrefutável”.
Ele enfatiza a importância de novas pesquisas para confirmar a eficácia das moléculas em determinados tipos de câncer. Essa cautela, segundo ele, é ainda mais relevante considerando a existência de um mercado paralelo de canetas emagrecedoras, que são adquiridas sem receita ou orientação médica. O oncologista ressalta que controlar os fatores de risco continua sendo a melhor forma de prevenir o câncer e outras doenças. Isso inclui manter uma alimentação equilibrada e gerenciar a obesidade, “sem utilizar esse medicamento de maneira indiscriminada”, adverte o especialista, que participou do congresso. “Conforme se reduz a obesidade, que é um fator de risco para o câncer, há benefícios na diminuição da incidência da doença e em seu controle”, detalha o especialista. O uso das canetas emagrecedoras, segundo ele, tornou esse benefício “ainda mais evidente”. A taxa de incidência de câncer também parece ser inferior entre os pacientes que fazem uso da medicação.
“No caso de pacientes que já possuem câncer e utilizam o tratamento, os resultados oncológicos parecem ser mais favoráveis: a doença avança menos e o risco de surgimento de metástases é reduzido. Isso sugere que, ao controlar o fator de risco obesidade, que é central, há um progresso no controle oncológico. A doença evolui menos e há menos metástases.” O estudo apresentado no evento analisou dados de mais de 12 mil pacientes de diversas regiões do mundo. Eles apresentavam diferentes tipos de câncer, que variavam de estágios iniciais a intermediários. A pesquisa comparou pacientes tratados com análogos de GLP-1 (liraglutida, pramlintida, dulaglutida, tirzepatida, lixisenatida ou semaglutida) a outros que receberam diferentes tipos de medicação antidiabética, como os inibidores de DPP-4. Os resultados demonstraram uma redução significativa na progressão de metástases, especialmente em quatro tipos de câncer: pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado. Em outros tipos de tumores, como próstata, pâncreas e rim, observou-se uma tendência de benefício, mas sem significância estatística.
Os estudos preliminares apresentados durante o congresso da ASCO também sugerem que, além de regular a glicose e o peso, os agonistas de GLP-1 podem auxiliar na modulação do sistema imunológico e da inflamação, além de melhorar a taxa de sobrevida global. “Existem novas evidências de que pode haver um efeito direto”, afirma o oncologista. “Nas células tumorais, há diversos receptores e proteínas na membrana celular, e parece que essas classes de medicamentos também exercem alguma ação direta sobre elas. Esse efeito ainda está sendo investigado. É importante lembrar que não se trata de uma evidência definitiva, mas pode contribuir para esse controle”. O câncer se desenvolve em um ambiente inflamatório, que leva a erros na replicação celular. A ação dos análogos de GLP-1 poderia ajudar a mitigar esse risco. “O paciente com câncer, ou que apresenta maior risco para a doença, desenvolve o tumor em um ambiente de inflamação. Essas moléculas também parecem atuar na diminuição desse nível de inflamação propício ao câncer”, reitera.
O especialista ressalta que a ASCO é uma oportunidade para acompanhar a evolução dos tratamentos e grandes descobertas. Mais de sete mil estudos foram apresentados nesta edição, com destaque para o daraxonrasib, o primeiro medicamento a atuar de forma eficaz contra o câncer de pâncreas, um dos mais letais. O remédio inibe a proteína KRAS, que está ligada à proliferação das células cancerígenas. “A oncologia se constrói assim: ela vai acumulando conhecimento ao longo do tempo. Com certeza, tudo o que chega até nós com dados tão relevantes como esses amplia nossa compreensão da doença e contribui para o controle de uma condição que ainda é tão desafiadora para o mundo”, conclui.
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