É possível descobrir uma arma nuclear escondida no espaço? Estudo propõe método com pequeno satélite
Modelo publicado na revista “Nature” usa a própria radiação que cerca a Terra para procurar sinais de material nuclear no espaço. Pelos cálculos, um satélite a 4 km do alvo poderia confirmar a presença de um artefato termonuclear em cerca de uma semana.
Satélites CS1 e CS2, da missão Cesium Mission 1, utilizados para testar sistemas de comunicação no espaço. Uma arma nuclear oculta dentro de um satélite deixaria um rastro inconfundível: nêutrons. Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista científica “Nature” nesta quarta-feira, que apresenta, pela primeira vez em uma publicação científica revisada por pares, um método concreto para verificar se um país está violando o Tratado do Espaço Exterior, um acordo internacional de 1967 que proíbe a colocação de armas nucleares em órbita. De acordo com as simulações, um pequeno satélite de inspeção poderia confirmar a presença de uma arma termonuclear a cerca de 4 quilômetros de distância após aproximadamente uma semana de observação. “Ao detectar esses nêutrons, é possível diferenciar de forma verificável satélites pacíficos daqueles que transportam uma arma”, explica Areg Danagoulian, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, que desenvolveu o método.
A pesquisa teve como ponto de partida o Kosmos 2553, um satélite russo lançado em fevereiro de 2022 e colocado em órbita a cerca de 2 mil quilômetros da Terra. A Rússia afirma que o equipamento faz parte de um sistema de radar destinado à vigilância e sensoriamento remoto. No entanto, autoridades americanas já expressaram publicamente a suspeita de que o satélite seja, na verdade, uma plataforma de testes para um componente nuclear de uma futura arma antissatélite — o que configuraria uma grave violação do tratado. O problema é que, até o momento, não existe um método prático e comprovado para confirmar isso à distância.
A proposta de Danagoulian se baseia em um fenômeno que já ocorre naturalmente ao redor do nosso planeta: os cinturões de Van Allen, áreas onde o campo magnético da Terra aprisiona partículas de altíssima energia que vêm do espaço, como prótons e elétrons. Quando um próton dessa região colide com um material pesado, como o urânio utilizado em armas nucleares, o impacto libera nêutrons como subproduto — um sinal que pode ser detectado à distância. Para isso, o estudo sugere o uso de um segundo satélite, denominado “inspetor”, posicionado a poucos quilômetros do satélite sob suspeita. Esse inspetor seria equipado com um detector de tamanho semelhante ao de um pequeno satélite em forma de cubo. O equipamento teria sensores capazes de identificar a origem dos nêutrons e diferenciar o sinal emitido por uma arma nuclear de outras fontes de radiação no espaço, principal desafio técnico mencionado pelo estudo.
Conforme os cálculos, um satélite suspeito contendo cerca de 95 quilos de urânio — próximo do que se estima em uma ogiva termonuclear — geraria um sinal detectável com mais de 99% de confiança em aproximadamente uma semana de observação, a 4 km de distância. Com uma frota de dez satélites inspetores atuando em conjunto, esse prazo poderia ser reduzido para cerca de 15 horas. Aproximações desse tipo entre satélites de diferentes países já ocorreram na prática nos últimos anos sem provocar crises diplomáticas, o que, segundo o autor, sugere que essas distâncias de observação seriam politicamente viáveis. “Se um país decidir observar o satélite de outra nação, isso certamente poderá aumentar as tensões”, ressalta o pesquisador. “No entanto, o país responsável pela inspeção poderá declarar abertamente suas intenções, compartilhar seus planos com a outra parte e até convidá-la a examinar o satélite inspetor antes do lançamento, para confirmar que ele não possui nenhuma capacidade ofensiva”.
O estudo recupera um episódio histórico para justificar a preocupação: o teste nuclear americano Starfish Prime, de 1962, realizado a cerca de 400 km de altitude sobre o Oceano Pacífico. Foi a primeira vez que o mundo presenciou, na prática, o que uma explosão nuclear no espaço pode causar. A bomba, com 1,4 megatoneladas, injetou uma quantidade enorme de elétrons de alta energia no cinturão de Van Allen interno, aumentando consideravelmente a população de partículas aprisionadas ali. O resultado foi rápido: em poucos meses, cerca de um terço dos satélites que estavam em órbita baixa na época foram danificados ou destruídos, principalmente devido a essa radiação extra, que comprometeu eletrônicos e painéis solares. O teste também gerou um pulso eletromagnético que chegou até a superfície da Terra e se propagou por fios e cabos de energia, causando apagões em postes de iluminação no Havaí — a milhares de quilômetros do local da explosão.
Mais de sessenta anos depois, o cenário mudou bastante, mas o risco, segundo o estudo, é ainda maior. Na época de Starfish Prime, a órbita baixa da Terra abrigava um pequeno número de satélites experimentais. Atualmente, a mesma região concentra uma quantidade muito maior de equipamentos — de comunicação militar, internet, previsão do tempo e imageamento —, muitos dos quais não foram projetados para resistir a picos de radiação como os causados por uma explosão nuclear. Uma detonação de 10 a 20 quilotoneladas entre 120 km e 400 km de altitude, por exemplo, poderia inutilizar, ao longo de semanas ou meses, um número significativo desses satélites “não blindados”. E é exatamente esse contexto que torna urgente a proposta do novo estudo: identificar uma arma nuclear oculta antes que ela seja detonada é preferível a lidar com as consequências posteriormente. O próprio autor do estudo, no entanto, enfatiza que isso se trata de uma ideia conceitual, não de um sistema pronto para uso. Ainda são necessários testes, por exemplo, sobre o comportamento do detector em condições reais do espaço e sobre como lidar com um satélite que tente evitar a observação. “Ainda há uma necessidade considerável de desenvolvimento de engenharia, já que o artigo apenas demonstra a viabilidade do método com base em princípios básicos da física e em tecnologias já existentes”, alerta Danagoulian. Mesmo assim, o trabalho é descrito, em um comentário publicado também pela Nature, como a primeira base técnica concreta para uma futura política de verificação do tratado. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…



