Tecnologia VAR e polêmicas na Copa do Mundo
Folarin Balogun, jogador dos EUA, recebeu cartão vermelho do árbitro Raphael Claus. Se o presidente da Fifa, Gianni Infantino, tinha a expectativa de que a tecnologia diminuísse as controvérsias na arbitragem, a Copa do Mundo revelou que o debate ainda está longe de ser resolvido. O emprego da tecnologia esteve no centro das principais discussões do torneio, incluindo a expulsão de Balogun, que até chamou a atenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As críticas foram diversas, desde acusações de excesso de interferência e a falta de um critério uniforme na aplicação do VAR, até teorias conspiratórias que sugerem que a tecnologia estaria beneficiando certas seleções ou jogadores. O técnico do Egito, Hossam Hassan, sintetizou essas reclamações após a derrota por 3 a 2 para a Argentina nas oitavas de final. Durante a partida, sua equipe teve um gol anulado pelo VAR por conta de uma falta cometida em outra parte do campo e um pedido de pênalti que não foi aceito. “O que está acontecendo não é justo”, declarou ele.
O chefe de arbitragem da Fifa, Pierluigi Collina, afirmou em uma entrevista que estava satisfeito com o andamento das decisões e, em especial, defendeu a anulação do gol egípcio devido a uma falta anterior. “Não há um limite pré-estabelecido para a distância da jogada em relação ao gol ou para o tempo que passou até a conclusão da jogada”, disse Collina. “Acreditamos que uma falta é uma falta. Independentemente de parecer ‘óbvia’, se o árbitro não a percebeu em campo, o VAR pode intervir.”
O Árbitro Assistente de Vídeo (VAR) foi criado para corrigir erros claros e evidentes, como o famoso gol de mão de Diego Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986. A introdução do VAR na Copa do Mundo enfrentou resistência de Joseph Blatter durante sua presidência, mas foi rapidamente adotada por Infantino ao assumir em 2016. Na Copa de 2018, houve 20 intervenções do VAR em 64 jogos, enquanto em 2022 foram menos de 30 em igual número de partidas. Na edição de 2026, esses números já foram superados nas fases iniciais, que agora contam com 104 jogos.
Ampliação do papel do VAR
O aumento das intervenções não foi por acaso. A ampliação do papel dos quatro árbitros responsáveis pelo VAR é um dos pilares da estratégia de Collina para esta Copa do Mundo. Em colaboração com o International Football Association Board (IFAB), que cuida das regras do futebol, Collina aumentou as situações em que o VAR pode intervir, adicionando quatro novas categorias de revisão. O especialista em ciência de redes, Brennan Klein, comentou que um futuro onde uma rede crescente de câmeras e sistemas de inteligência artificial tomasse decisões de arbitragem em tempo real, embora possível, é improvável, já que os torcedores parecem cada vez menos dispostos a aceitar um nível maior de intervenção tecnológica. “Esse tipo de futuro distópico, com excesso de arbitragem, não resolve a questão que motivou a intervenção inicial”, disse Klein, que tem analisado dados ao longo do torneio com sua equipe na Universidade Northeastern. “Parece que, de modo geral, os torcedores no estádio simplesmente não aprovam isso. Eles foram informados de que essa é a maneira correta de fazer as coisas, mas não tiveram voz na decisão.”
“Acho que os torcedores parecem estar votando com suas vaias.”
Abuso da tecnologia
Se a partida entre Croácia e Portugal tivesse ocorrido na Copa do Mundo de 2014, provavelmente teria terminado em 2 a 2 no tempo regulamentar. Josko Gvardiol marcou aos 13 minutos dos acréscimos, empatando para a Croácia. No entanto, o VAR identificou que a bola havia tocado em Igor Matanovic antes de chegar ao defensor, colocando um companheiro de equipe em posição irregular. O toque não pôde ser percebido a olho nu e não alterou visivelmente a trajetória da bola. Mesmo assim, um sensor instalado no equipamento registrou o contato, possivelmente até com o cabelo de Matanovic. “(O sensor) é capaz de detectar até os contatos mais leves, fornecendo aos árbitros informações sem precedentes para decisões rápidas e precisas”, afirmou a Fifa em uma publicação nas redes sociais.
Luka Modric, jogador croata que se despediu das Copas do Mundo após a derrota por 2 a 1, não ficou satisfeito com a decisão. “A tecnologia é útil em determinadas situações, mas está sendo usada de forma incorreta ou seletiva, dependendo da equipe envolvida ou de outros fatores”, disse o atleta. “Se for um erro evidente, a intervenção faz sentido. Mas, quando a jogada está em uma área cinzenta e sujeita à interpretação, não há razão para interferir.” A Federação Croata de Futebol (HNS), que apoia o uso do VAR, enviou um ofício à Fifa solicitando explicações sobre a decisão e classificando o episódio como “um abuso da tecnologia”.
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