Entenda a arquitetura modernista dos edifícios das superquadras de Brasília
Além dos monumentos icônicos, o Distrito Federal também é conhecido por prédios residenciais que incorporam pilotis, cobogós e painéis de azulejos.
Mais do que as obras projetadas por Oscar Niemeyer (1907-2012) e o plano urbanístico elaborado por Lúcio Costa (1902-1998), Brasília abriga parte de sua identidade e características modernistas nos edifícios residenciais das superquadras. Construídas predominantemente nas décadas de 1960 e 1970, essas estruturas revelam um capítulo significativo da arquitetura brasileira e ajudam a entender por que passear pela Asa Sul ou Asa Norte continua sendo uma experiência urbana única até hoje. As superquadras foram pensadas como uma solução urbana para o Plano Piloto, idealizado por Lúcio Costa. Elas funcionam como conjuntos residenciais organizados como unidades autônomas, rodeados por áreas verdes contínuas, escolas, comércio local e espaços de convivência. Ao invés da lógica convencional de ruas com fachadas voltadas para o tráfego, os edifícios são dispostos no interior de amplos jardins, priorizando a circulação de pedestres. O resultado é uma paisagem arborizada, marcada pela presença constante do espaço coletivo entre os blocos.
Enquanto Brasília se erguia em um vasto canteiro de obras, arquitetos de diversas formações testavam soluções residenciais que uniam funcionalidade e expressão estética. Para mais notícias acesse…
Os edifícios residenciais do Plano Piloto surgem simultaneamente ao crescimento da cidade. “Existem prédios projetados por arquitetos consagrados nacionalmente e também aqueles cujos criadores deixaram uma forte marca em Brasília”, afirma Luiza Ceruti, mestre em arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB) e membro da equipe do escritório CODA Arquitetura. Na imagem, o Bloco B da SQS 108, na Asa Sul, em Brasília. Os edifícios originais dessa quadra foram concebidos pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Mattos Sayão, respeitando as diretrizes urbanísticas de Lúcio Costa para o Plano Piloto.
Nesta parte da cidade, os edifícios residenciais não ultrapassam seis andares e, na maioria, apresentam cobogós nas fachadas que recebem maior incidência solar. Essa solução proporciona privacidade, ao mesmo tempo que reduz a entrada de sol nos ambientes internos. “Esse é um dos aspectos que ressalta não apenas a qualidade estética, mas também a preocupação com o conforto térmico”, destaca Marcella Schiavoni, arquiteta brasiliense do escritório homônimo e residente da Asa Sul da capital federal. Nas primeiras áreas ocupadas, especialmente nas quadras 107 e 108 da Asa Sul e Asa Norte, encontram-se alguns dos exemplos mais emblemáticos dessa produção arquitetônica.
Entre esses profissionais, destaca-se Marcílio Mendes Ferreira (1933–1998), arquiteto e professor da UnB, cuja obra residencial é notável pelo uso expressivo do concreto aparente e pela criação de cobogós personalizados. A integração de painéis de azulejos aos espaços de circulação também é uma marca registrada do arquiteto.
Parte dos primeiros conjuntos residenciais da cidade, os blocos das superquadras 107 Sul e 108 Sul foram construídos no início dos anos 1960 e acompanham a consolidação do projeto urbano de Brasília. Associados à linguagem de Oscar Niemeyer, combinam pilotis livres com brises-soleil, que significa quebra-sol em francês, e painéis vazados de cobogó. O Bloco H da Superquadra 308 (SQS 308) se destaca pela preservação de seus elementos originais, reforçada por uma reforma contemporânea realizada pelo escritório de arquitetura Atelier Paralelo. Na imagem, é possível notar os cobogós na fachada, que favorecem a entrada de luz, e os pilotis, que estruturam o edifício e transformam o térreo em um espaço de convivência.
Os blocos das superquadras 107 Norte e 108 Norte foram erguidos no mesmo período inicial da capital, seguindo os princípios urbanísticos delineados por Lúcio Costa, que organizou o Plano Piloto. A implantação mantém grandes áreas verdes, o distanciamento entre os edifícios e a circulação pedonal contínua, reforçando a ideia de uma cidade integrada à paisagem. A construção dessa região da capital federal, originalmente chamada de Unidade de Vizinhança São Miguel — que inclui as superquadras 107, 108, 307 e 308 Norte — nunca foi completamente finalizada, ao contrário da área Sul. O conjunto, que teria inicialmente 36 blocos de apartamentos, escolas e um projeto paisagístico elaborado, começou a ser erguido em 1965, mas o andamento das obras foi interrompido pela ditadura civil-militar. Assim, apenas três torres seguem o desenho original.
Os edifícios da SQN 107 Norte, em Brasília, se destacam pela estrutura em concreto armado aparente, moldado in loco. Projetados por Marcílio Mendes Ferreira em parceria com o arquiteto Takudoo Takada, os blocos do tipo AM-2 estão presentes nas superquadras 203, 210 e 312 da Asa Sul e tiveram suas três versões construídas entre 1976 e 1979 no Plano Piloto. O projeto se destaca pela fusão entre brises de concreto e cobogós de design mais escultórico. As janelas circulares quebram a repetição habitual das fachadas, enquanto os brises e os cobogós em concreto estruturam a relação entre ventilação e privacidade. A SQS 210 recebeu, em 2020, o Selo Arquitetura de Brasília, promovido pelo CAU/DF, que reconhece o valor histórico das edificações não monumentais da capital federal. Confira também outros conteúdos em…
Nesses blocos, os pilares têm formato de “X” no térreo. “Seus pilotis são diferentes dos demais e, com seu formato distinto, criam pequenos ambientes de encontro ao longo desse térreo semi-público dos edifícios”, explica Pedro Grilo, arquiteto e sócio fundador do escritório CODA Arquitetura. No térreo, os painéis de azulejos presentes em alguns dos blocos das superquadras ampliam a função do pilotis.
A influência do modernismo brasileiro é evidente. A base conceitual desses edifícios dialoga com princípios formulados pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887–1965), um dos precursores da arquitetura moderna. As construções utilizam estruturas como pilotis, fachadas livres e janelas horizontais contínuas, características dessa estética. “Há uma certa repetição visual e os padrões estabelecidos fazem com que a ordem estética prevaleça e que o estilo modernista se fortaleça”, enfatiza Marcella.
Entretanto, também existem particularidades. Em Brasília, essas bases recebem reinterpretações, a partir da inclusão de adaptações e referências compatíveis com as condições locais e do clima do Cerrado. Além da recorrência de elementos como cobogós, outra característica marcante é a planta vazada de muitos apartamentos, que permite circulação de ar constante e iluminação natural ao longo do dia. “De um lado, esses edifícios frequentemente apresentam janelas amplas, e do outro, cobogós”, observa Pedro. Os pilotis completam esse sistema ao liberar o térreo dos edifícios, criando áreas de passagem e encontro que conectam a arquitetura com a vida urbana.
Original da construção do edifício, o painel geométrico em mármore bege e branco de Athos Bulcão, catalogado pela Fundação Athos Bulcão, é um dos elementos marcantes da sala de jantar deste projeto, que buscou equilibrar a arquitetura modernista com soluções contemporâneas. A mesa de jantar Fungi, de Natasha Schlobach, e as cadeiras Adhara, com design de Ibanez Razzera, são da loja Eliana Decora.
A dimensão artística também se manifesta de forma constante. Muitos edifícios contam com painéis de azulejos assinados por Athos Bulcão (1918–2008), artista visual brasileiro reconhecido por seu trabalho que integra arte e arquitetura.



