A autonomia não é o oposto do vínculo: ela nasce a partir dele
Recentemente, me peguei olhando fotos das crianças durante o período de amamentação. Confesso que, em alguns momentos, sinto uma saudade imensa daquela fase mais caótica e desafiadora, quando eles eram pequenos”, revelou, em uma entrevista exclusiva, a médica e criadora de conteúdo Romana Novais, 35 anos, mãe de Raika, 5 anos, e Ravi, 6, que estampa a capa desta edição. “Os limites ajudam a criança a entender que existem outras pessoas ao seu redor”, destaca um educador.
Se você está vivendo a fase em que tomar um banho tranquilo ou simplesmente ter horas seguidas de descanso parece um luxo, pode ser difícil acreditar. Contudo, a infância realmente passa rapidamente. Em um instante, o bebê deixa o peito, sai do berço, desfralda e, quando você menos espera, já dorme sozinho – gerando um misto curioso de alívio e saudade. Embora esse sentimento não seja amplamente discutido, ele é comum entre mães e pais em algum momento. A autonomia não é o oposto do vínculo: ela surge a partir dele.
A psicanalista e educadora parental Elisama Santos compara essas perdas que os pais vivenciam a cada nova fase da infância a um processo de luto. “Estamos acostumados a associar o luto a perdas definitivas, como a morte, mas a verdade é que existem várias mortes simbólicas ao longo da vida”, explica Elisama, autora de diversos livros sobre educação, como Por que gritamos – Como fazer as pazes consigo e educar filhos emocionalmente saudáveis (Editora Paz & Terra), entre outros. Para a educadora, é natural que os pais sintam melancolia, pois a criança está crescendo e a dinâmica entre eles muda, provocando estranheza e até medo do que está por vir. “Quantas vezes olhamos para a criança e perguntamos ‘De onde você aprendeu isso?’. Nos surpreendemos porque o mundo dela se expande além de nós”, completa.
Uma sensação que Romana resume em uma frase: “O cansaço era imenso, mas no colo cabia tudo”. Crescer, de fato, traz mudanças para toda a família, desde o primeiro dia. Por que ver fotos antigas dos filhos provoca esse aperto no coração tão comum entre mães e pais? Como os pais podem enfrentar essas transições sem impedir o amadurecimento dos filhos? E como manter a conexão quando a dependência cede lugar à autonomia?
Pequenos voos
Muitas vezes, mesmo sem querer, esses sentimentos nos levam ao que o educador e escritor Marcelo Cunha Bueno, colunista da CRESCER, chama de “esticar a infância”. “Nesse período, o afeto se apresenta de maneira plena, disponível e generosa. É nesse tempo que o amor se materializa em gestos, toques e presença. Talvez por isso exista, dentro de nós, esse impulso de prolongar essa fase”, refletiu o educador em sua coluna. Essa situação pode surgir em diversas circunstâncias cotidianas, conforme a pediatra Ana Márcia Guimarães Alves, do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Como insistir para que a criança durma no mesmo quarto que os pais, mesmo quando já não mama mais à noite, reforçar palavras que ela pronuncia de forma errada ou ainda não permitir que ela explore o parquinho. “Frequentemente, sem perceber, os pais acabam atrapalhando em vez de ajudando”, alerta a especialista. Ela ressalta que, embora essas atitudes possam impactar marcos do desenvolvimento motor e da linguagem, o efeito mais significativo costuma ocorrer na esfera emocional. “Na busca da autonomia, a função dos pais é garantir pequenos ‘voos’ seguros. Assim, a criança pode testar seus limites e reconhecer, desde cedo, sua capacidade”, completa.
Se você se identificou com algum desses comportamentos, não se culpe. Todo pai e mãe anseia pela autonomia dos filhos – até que ela realmente chegue. “Há uma frase que circula e que, de certa forma, nos toca: ‘Na vida do seu filho, você é um capítulo. Na sua vida, ele é o livro inteiro’”, escreveu Marcelo Cunha Bueno. Para ele, esticar a infância também revela o desejo de continuar sendo indispensável.
Apegados, mas nem tanto
Como, então, acolher a própria nostalgia, sem impedir que o filho cresça? A primeira orientação dos especialistas consultados é que, quanto mais segura a criança se sente em relação às figuras de cuidado, mais livre ela se torna para explorar o ambiente e agir de forma autônoma. Esse é o princípio da teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra inglês John Bowlby no final dos anos 1950 e que ainda é adotada por educadores em todo o mundo. Em outras palavras, pais e mães não precisam se sentir menos importantes à medida que a criança amadurece. A autonomia não é o oposto do vínculo: ela surge a partir dele.
A fase dos primeiros passos pode servir como um guia para os pais que, em algum momento, se veem divididos entre proteger e incentivar a independência, segundo a psicanalista e doutora em psicologia Denise Feliciano, do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). “Ele está encantado por caminhar, mas, ao tropeçar, logo pede colo. Se ele cair, certamente não dirão ‘desista’, mas sim ‘tente novamente’”, exemplifica Denise. De acordo com a especialista, é importante ter em mente que isso ocorrerá repetidamente, de diversas maneiras, ao longo da criação. Para a psicanalista Elisama Santos, um excelente “consolo” é lembrar que, quanto menos os filhos precisam dos pais, melhor eles estão cumprindo seu papel de educadores. “Quando deixamos de lado essa visão narcisista de que tudo deve ser do nosso jeito, conseguimos perceber coisas maravilhosas no caminho, como tudo o que essa criança ou adolescente está conquistando”, diz.
A designer e criadora de conteúdo Estéfi Machado, 48 anos, recorda-se da primeira vez que percebeu que seu filho Teo, hoje com 18 anos, não era mais uma criança. “Durante a pandemia, quando ele tinha cerca de 12 anos, fiz um vídeo com homenagens a ele, com depoimentos de todos os amigos. Em vez de reagir com surpresa, ele ficou constrangido. Já demonstrava sinais da adolescência”, conta a mãe. Estéfi também enfrenta a ambivalência de sentir felicidade e tristeza ao ver seu filho crescer. “É doloroso deixar de ser o centro das atenções. A presença se torna mais rara, a ponto de sentirmos saudades, mesmo morando na mesma casa. Por outro lado, isso é o que precisa acontecer. Ele quer estar com aqueles que são semelhantes a ele”, afirma. E ela está correta – existe, inclusive, uma explicação científica para isso. Um estudo recente da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, revelou que, ao analisar imagens cerebrais de crianças e adolescentes enquanto ouviam gravações com a voz da mãe e depois a voz de desconhecidos, diferentes áreas do cérebro eram ativadas. Nas crianças de até 12 anos, as regiões ligadas à recompensa mostravam uma resposta mais intensa ao ouvir a voz materna. Já nos adolescentes, essas áreas cerebrais apresentavam maior atividade ao ouvirem a voz de um desconhecido. Para os cientistas, isso é um sinal natural do amadurecimento cerebral, indicando que outras pessoas do convívio dos jovens começam a ocupar um espaço cada vez maior em seu universo de interesses e referências. Estéfi, no entanto, não se deixa abater pela melancolia. “Aqueles pequenos rituais que ocupavam o seu dia desaparecem. Você já não busca mais na escola, não faz mais a lancheira, não precisa organizar tantas coisas da vida dele. Mas tudo isso traz a certeza de que meu filho é capaz e deseja conquistar o mundo, o que me enche de orgulho”, resume. Além disso, ela destaca outro aspecto positivo: o luto pela passagem da infância dos filhos também proporciona um reencontro da mãe consigo mesma, à medida que os cuidados deixam de ocupar um lugar tão central em sua rotina. “As mães passam por uma espécie de novo trabalho de parto, só que de si mesmas”, conclui.
O vínculo se transforma
Não é apenas o papel da mãe que se altera nesse contexto, é claro. À medida que pais e mães se transformam, recuperando suas antigas identidades e ganhando mais tempo para interesses além dos filhos, novos desafios na vida a dois podem surgir. Até mesmo aquele casal que sentia falta de momentos a sós pode perceber que, enquanto os filhos crescem, a relação também se transforma. “As pessoas que éramos antes da chegada das crianças não existem mais. Portanto, a ideia de que vamos reconstruir o relacionamento é ilusória. O exercício é descobrir quem somos hoje e como nos conectamos a partir daí”, acredita a psicanalista Elisama Santos. Algumas perguntas podem auxiliar nesse processo: O que mudou em nós desde que nos conhecemos? Quais atividades nos trazem prazer atualmente? Quais novos projetos queremos incluir em nossa história? De certa forma, o mesmo exercício ocorre na relação com os filhos. Assim como o casal precisa entender quem se tornou, os pais também devem aprender a perceber quem seus filhos realmente são, além das idealizações da infância. Como afirma a educadora parental Claudia Alaminos, autora do livro recém-lançado Manual de Sobrevivência para Pais de Adolescentes (Editora Edipro), é na adolescência que os pais conhecem seu verdadeiro filho. “Antes mesmo de nos tornarmos pais, idealizamos um filho hipotético. Depois que ele nasce, aos poucos, nos deparamos com o filho real. Queríamos um bebê calmo, mas tivemos um chorão. Queríamos um filho que comesse de tudo, mas ele só gosta de alimentos ultraprocessados. E assim por diante”, explica Claudia. “Na adolescência, quando ele se torna um indivíduo independente dos pais, que se apresenta ao mundo à sua maneira, essa idealização se desfaz completamente”, completa.
Por isso, aspectos simples como fechar a porta do quarto, guardar segredos e preferir os amigos à família muitas vezes deixam os pais frustrados. Como manter o vínculo a partir desse ponto, então? A recomendação, na verdade, se aplica a todas as fases. “Precisamos abrir espaço para esse filho real. Assim como nos interessar pelas coisas que ele aprecia, fazer programas a dois com ele, demonstrar que reconhecemos suas qualidades, enfim, fazer com que se sinta importante”, orienta Claudia. A escritora Thaís Vilarinho, mãe de Matheus, 18, e Thomas, 15, concorda. “Embora o afastamento seja natural na adolescência, já que eles precisam dessa distância para se conhecer, quando construímos uma relação de abertura, escuta e troca desde a infância, o vínculo permanece forte – e isso faz com que eles sempre retornem”, resume a autora de Mãe Fora da Caixa (Editora Buzz). A infância pode chegar ao fim, mas o vínculo continua existindo em outros espaços: nas conversas, nos retornos espontâneos, nos pequenos gestos de presença. Crescer pode ser exatamente isso: aprender a amar com menos controle e mais confiança.
Quando o apego merece atenção
Aventurar-se nos primeiros passos, dormir no próprio quarto, iniciar a alimentação, adaptar-se à escola. É natural que algumas transições levem mais tempo do que os pais imaginam – e isso varia de criança para criança. O sinal de alerta não é a demora em si, mas quando isso gera sofrimento intenso, interfere na rotina da criança ou não demonstra evolução ao longo do tempo. Nesses casos, é aconselhável conversar com o pediatra. “A dificuldade pode ocorrer tanto do lado da criança quanto do adulto. Seja como for, é importante que pais e pediatras analisem essas situações, pois podem indicar questões que merecem uma investigação mais cuidadosa”, alerta a pediatra Ana Márcia Guimarães Alves. Segundo a especialista, em algumas situações, especialmente quando há outros sinais associados, possíveis entraves podem estar relacionados a transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo, TDAH, alterações do processamento sensorial ou dificuldades de linguagem. Em outras circunstâncias, a resistência pode estar ligada a questões emocionais, ao momento vivido pela família ou ao temperamento da criança. A psicanalista Denise Feliciano, da SPSP, enfatiza que, quanto mais cedo a questão for compreendida, melhor. “Especialmente em relação a fatores emocionais, muitos desses traços podem se intensificar e gerar padrões de dependência que podem persistir até a vida adulta”, diz.
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