Por que o Nordeste recebe mais shows públicos do que o restante do país?
O Nordeste atualmente se destaca como o principal local para shows públicos no Brasil. Essa informação é respaldada por um estudo do observatório “De Olho nos Ruralistas”, que examinou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026. Das 7.412 apresentações registradas nesse período, 5.818 aconteceram na região. Para a realização desses eventos, foram gastos R$ 2,22 bilhões dos cofres públicos em contratos com artistas. Mas o que faz com que uma única região do país receba mais investimentos em shows do que todas as outras juntas? Para entender essa questão, o g1 consultou pesquisadores envolvidos no estudo, especialistas em gestão pública e profissionais do setor de shows.
De acordo com os especialistas, essa situação é resultado de uma combinação de fatores, como:
- 💼 a concentração do mercado nas mãos de grandes produtoras nordestinas;
- 👥 a articulação de políticos locais, que buscam retorno em visibilidade;
- 🚌 a geografia favorável, que diminui custos e facilita as rotas de apresentações.
Antes de explorarmos essas explicações, veja outros dados do levantamento:
Quais estados gastaram mais?
Bahia e Pernambuco lideram os gastos com shows públicos no Brasil, com desembolsos de R$ 578,47 milhões e R$ 573,10 milhões em contratos, respectivamente. Por outro lado, o Piauí foi o que menos investiu na região, com R$ 79 milhões. Esses valores incluem tanto os cachês pagos diretamente pelos governos estaduais quanto aqueles realizados por prefeituras. Confira o ranking completo abaixo:
Quais estados do Nordeste contrataram mais?
A região foi responsável por 72% do total de cachês pagos e 78% das apresentações realizadas entre 2024 e março de 2026.
Quais gêneros faturaram mais?
Apesar do crescimento do sertanejo nas festas populares do Nordeste nos últimos anos, como evidenciado na reportagem “Cantores de forró cobram por espaço e cachês maiores no São João do Nordeste”, os ritmos tradicionais ainda dominam o mercado de shows públicos. Entre os 40 artistas mais contratados do Brasil, os do piseiro geraram R$ 913,04 milhões em contratos públicos, com 88% desse valor vindo de estados nordestinos.
Quais artistas receberam mais?
O cantor sergipano Natanzinho Lima, de 23 anos, lidera a lista, recebendo R$ 158,17 milhões para 336 shows realizados em todo o país entre janeiro de 2024 e março de 2026. Considerando que o período analisado corresponde a 27 meses, isso resulta em uma média de 12,4 shows públicos por mês, ou cerca de três apresentações financiadas com dinheiro público semanalmente. Em seguida, estão Henry Freitas, com R$ 125,9 milhões, e Wesley Safadão, com R$ 113 milhões em contratos públicos. Veja o ranking completo abaixo:
Quanto R$ 3 bilhões representam para a cultura brasileira?
O levantamento completo, disponível no site do observatório, apresenta vários dados sobre o mercado de shows públicos no Brasil. Um dos destaques é o ranking dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos para apresentações desde 2024. Juntos, esses artistas acumularam R$ 3,08 bilhões em contratos no período, um valor próximo ao recorde anual de captação pela Lei Rouanet, que atingiu R$ 3,41 bilhões em 2025. No entanto, é importante notar que os recursos da Lei Rouanet são destinados a milhares de projetos culturais, como teatro, dança, literatura, museus, patrimônio histórico, artes visuais e audiovisual, por meio de incentivos fiscais. Já os valores identificados no levantamento referem-se a pagamentos diretos dos cofres públicos para a contratação de apenas 40 artistas. Esses números revelam, até agora, a magnitude da indústria de shows públicos no Brasil. Agora, vamos entender o que justifica a concentração desses recursos em uma única região do país:
A força das produtoras nordestinas
Um dos principais fatores que ajudam a explicar a predominância dos shows públicos no Nordeste é a estrutura do mercado musical. Cinco produtoras localizadas na região gerenciam as carreiras de 21 dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos no Brasil desde 2024. Juntas, elas totalizam R$ 2,4 bilhões em contratos. Confira abaixo quem são essas produtoras e a extensão de sua influência no mercado de shows públicos:
Além de administrar artistas já estabelecidos, essas produtoras também promovem novos talentos e aceleram a valorização de seus cachês. “Elas conseguem fechar muitos contratos devido ao poder institucional e político junto às prefeituras e governos estaduais. É preciso destacar: atualmente, a agenda dos shows públicos no Brasil é definida pelas produtoras”, afirma Alceu Castilho, jornalista que coordenou o levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas.
A vontade política de investir
A força das produtoras, no entanto, depende de um elemento central: a decisão dos gestores públicos de alocar recursos para a contratação desses shows. Entre os governadores brasileiros, Raquel Lyra (PSD), de Pernambuco, se destaca como a que mais contratou artistas do ranking. Desde 2024, sua administração destinou R$ 57 milhões em cachês para 25 dos 40 artistas mais contratados. Para Wallace Corbo, doutor em Direito Público e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das razões que ajudam a explicar a escolha de destinar grandes quantias de recursos públicos para shows é o retorno político imediato que esses eventos podem proporcionar aos gestores. “É um contraste com outras áreas, como saúde, saneamento e educação, onde o retorno leva anos para se manifestar. Esses investimentos são necessários e importantes, mas não oferecem a mesma satisfação imediata ao eleitorado que os shows podem trazer”, afirmou. Diante do montante de recursos destinados a esses contratos, o g1 buscou o Governo de Pernambuco para entender como a gestão avalia os benefícios desses investimentos para a população e como equilibra os gastos com outras áreas prioritárias. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
A geografia que favorece os circuitos
Além da concentração do mercado nas mãos de poucas produtoras e da decisão dos governos locais de destinar grandes volumes de recursos públicos para shows, há um terceiro fator que contribui para a manutenção desse modelo: a geografia. Segundo Elver Panda, produtor e empresário que já trabalhou com artistas como Marília Mendonça e Henrique e Juliano, a proximidade entre os municípios do Nordeste diminui custos e permite que os artistas realizem várias apresentações na mesma rota. “A logística é um dos principais obstáculos para a agenda de um artista. Se você vai a uma região para fazer apenas um show, acaba perdendo todo o lucro com a logística. No Nordeste, você consegue fazer muitas ‘dobras terrestres’, pois muitos municípios estão a apenas 80 ou 100 quilômetros uns dos outros”, afirmou. Essa dinâmica é diferente em regiões como o Norte do país, onde as distâncias maiores entre os municípios, somadas à menor oferta de malha aérea e aeroportos, tornam esse tipo de operação mais cara e complicada. Em comparação com a região Centro-Sul, o produtor explica que o mercado de shows segue uma lógica distinta. Enquanto o Nordeste estabeleceu um circuito de festas públicas municipais, no Sul, Sudeste e Centro-Oeste predominam grandes eventos privados. “As prefeituras do Centro-Sul realizam festas, sim, mas em menor número e com uma estrutura mais reduzida. Os grandes eventos, como rodeios, são privados. Já no Nordeste, tanto as festas do interior, como o São João, quanto as do litoral, como Carnaval e Réveillon, recebem grandes investimentos públicos e alcançam um padrão quase internacional”, concluiu.
O outro lado da conta
Um dia após intensas chuvas, bairros de Goiana, em Pernambuco, permanecem submersos. Em alguns locais, é possível ver apenas o telhado das casas. Essa mesma estrutura que transformou o Nordeste no principal circuito de shows públicos do país também levanta um debate sobre o espaço que esses investimentos ocupam dentro de orçamentos municipais limitados. Um dos casos mais notáveis do levantamento é o de Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Com cerca de 85 mil habitantes, a cidade aparece como o quarto maior contratante de shows públicos do Brasil, atrás apenas das capitais Aracaju, Salvador e Maceió. Destinou R$ 25,58 milhões para a contratação de artistas entre janeiro de 2024 e março de 2026. A questão central é que, ao mesmo tempo, a cidade enfrenta sérios desafios em serviços básicos: segundo o Instituto Água e Saneamento (IAS), cerca de 45% da população não tem acesso a água tratada e 60% não possui rede de esgoto. Além disso, há menos de um mês, fortes chuvas deixaram bairros inteiros alagados e aproximadamente 500 pessoas foram deslocadas, conforme noticiado pela TV Globo e pelo g1. É nesse cenário que Wallace Corbo utiliza a metáfora do “cobertor curto” para explicar as escolhas dos gestores na hora de alocar recursos. “Como se diz na gestão pública, quando você cobre o peito, deixa o pé descoberto. O orçamento é limitado, ou seja, se há um investimento elevado em shows, esses recursos não estarão disponíveis para outras áreas”, afirmou. O g1 contatou a Prefeitura de Goiana para entender quais critérios têm guiado a definição das prioridades orçamentárias do município e como a gestão está equilibrando os investimentos em eventos com as demais necessidades da população. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. Para mais notícias acesse emfocohoje.com.br. Confira também outros conteúdos em centralnerdverse.com.br.



