Noite de Paraty sofre com um novo apagão durante a Flip
PARATY (RJ) – A situação se repetiu: três anos após o apagão que deixou a cidade sem luz durante a Flip, em 2023, Paraty enfrentou novamente a falta de energia na noite de quinta-feira (23), por volta das 20h. Enquanto a programação principal no Auditório da Matriz e no telão da praça prosseguiu sem interrupções, devido ao uso de geradores, algumas casas parceiras tiveram que adaptar suas atividades para encontros iluminados – não por velas, mas por celulares. Na mesma noite, a Enel Rio anunciou que um desarme na linha de distribuição de Mambucaba/Paraty afetou os clientes da área e que estavam trabalhando em uma solução emergencial. A energia foi restabelecida por volta da meia-noite.
No Centro Histórico, a Casa Latina – projeto da Lote 42 – realizava um dos eventos mais significativos desta Flip, o lançamento do livro Mareadas na maré: diário íntimo e alucinado de uma revolução feminista (Lote 42), com a presença das autoras argentinas Cecilia Palmeiro e Fernanda Laguna – co-fundadoras do movimento Ni Una Menos – que discutiam sobre o livro e os protestos que originaram a histórica Maré Verde feminista no país vizinho, mediadas pela escritora Amara Moira. Elas estavam iniciando a conversa quando a luz se apagou. “A solução foi continuar com a luz do celular”, relata o editor e anfitrião João Varella. “Eu, Cecilia Arbolave, Pedro Meira Monteiro, parte do público e a própria Cecilia Palmeiro usamos nossos celulares para manter a programação. Era um dos momentos mais importantes para nós e a falta de energia também prejudicou a festa que estava programada para logo depois. A mesa seria seguida por uma festa latina, que é uma característica da Casa, que costuma ter festas todas as noites, mas não aconteceu. É frustrante para quem já frequenta a Flip há tanto tempo, como nós. Em 2023, estávamos na Casa Pagã e também houve apagão, no mesmo dia e na mesma quinta-feira, embora em outra época do ano, que se dizia demandar mais energia e com outras questões climáticas. Desta vez, aconteceu em pleno inverno e também houve apagão.”
Varella, que participa da Flip desde 2014, observa que a infraestrutura da cidade não acompanha o aumento do número de eventos durante a Festa. “As necessidades da população mudaram. É uma pena que um evento tão maravilhoso como a Flip tenha esse lado negativo. Enfim, espero que a Enel e todos os responsáveis nos proporcionem condições para realizar uma bela festa latina e literária nos próximos dias.” Uma situação semelhante ocorreu na Casa Acaso. O escritor português José Luiz Peixoto autografava seus livros após sua fala quando teve que continuar sem luz. Em seguida, Dadá Coelho finalizou o sarau Dadaísmos também às escuras. “Em vez de acendermos velas, o público usou os celulares, havia uma luz de emergência e a programação seguiu”, explica Julie Fank, uma das organizadoras da casa. “Mas tivemos sorte, porque a Dadá Coelho segurou a barra. Contudo, o apagão desestruturou nossa comunicação interna. Mas, olhando pelo lado positivo, foi bom que o que estava acontecendo era um sarau e conseguimos, de alguma forma, manter um clima intimista. Todo mundo participou e ficou tranquilo com a situação. Até o próprio José Luiz Peixoto acabou se juntando ao sarau depois, e tudo correu bem.”
Na Casa Estante Virtual, a falta de luz não interferiu na programação de conteúdo, mas afetou o happy hour que estava agendado para a noite. “O apagão coincidiu exatamente com nosso happy hour, que deveria durar cerca de três horas”, comenta o CEO da Estante Virtual, André Palme. “Devido à falta de energia, o evento foi bastante reduzido. Permanecemos no local com as luzes apagadas, mas a experiência foi bem atípica, especialmente pela ausência de som e dos recursos que havíamos preparado. Embora isso não tenha comprometido nossa programação de conteúdo, afetou o momento destinado a receber o mercado e os autores.” Outras casas – como a Casa Sesc, que estava recebendo uma performance poética de Arnaldo Antunes, e a Casa Record, que ouvia Djamila Ribeiro – contavam com geradores, e suas programações seguiram normalmente.
A Casa PublishNews teve um recorde de público com a presença do professor e ex-deputado federal Marcelo Freixo – em Paraty para divulgar o livro Viver é perigoso (Planeta), escrito em parceria com Bruno Paes Manso – e do jornalista Jamil Chade, que lançava o novo Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana (Nós). O objetivo da mesa era discutir a democracia através dos livros – o formato da mesa era uma entrevista em que os dois convidados trocavam perguntas e questões. “Não me sinto no direito de dizer ‘deixa a vida me levar’, como diz meu amigo Zeca Pagodinho”, afirmou Freixo. “Porque hoje, no Rio de Janeiro, existem pelo menos quatro milhões de pessoas que não vivem sob a Constituição de 1988, por uma razão: a presença e o controle das milícias. Fui eleito naquele ano da CPI das Milícias, e o debate sobre esse tema se tornou hegemônico, apesar das resistências do processo. Ao mesmo tempo, vemos segmentos inteiros da população abandonados. E ‘abandonados’ significa realmente abandono – comunidades inteiras sob controle paralelo. E a pergunta que faço sobre a democracia é essa: como uma sociedade prepara sua própria população para resistir ao desmonte da democracia?” Para Jamil, não é apenas a classe média ou grupos específicos que precisam perceber que a democracia pode ruir. “A infraestrutura da democracia não é uma instituição abstrata: a infraestrutura da democracia somos nós. Nós! Qualquer um de nós, e não apenas um ministro do STF ou um ministro de Estado. Todos somos agentes da democracia e temos a obrigação de lutar por ela.” Jamil também comentou sobre a “guerra cultural” promovida pela extrema direita em várias partes do mundo. “Na prática, isso se traduz em atos concretos: nos Estados Unidos, mais de 10.000 livros foram banidos de bibliotecas públicas e escolas. Isso não é um mero detalhe; são parcelas inteiras da cultura sendo apagadas. A grande derrota acontece quando o poder estabelecido deixa de ter limitações. Isso faz parte de um projeto muito bem organizado e com muito dinheiro. Essa disputa necessariamente envolve a cultura. O mundo cultural não é apenas um espaço de diversão ou lazer; é um espaço de disputa profunda. Até o WhatsApp ou uma Escola de Samba disputam narrativa diariamente. A desinformação, portanto, não é um mero ‘erro jornalístico’ – é um ato político deliberado. E temos eleições decisivas acontecendo em todo o mundo. O grande desafio da comunicação hoje é enfrentar esse projeto de desinformação”, concluiu.
Mais cedo, outro painel reuniu produtores de grandes eventos literários com o secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura, Fabiano Piúba. Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), que organiza a Bienal do Livro Rio, afirmou que é contagiante ver a paixão pela leitura se concretizar em momentos de conversa e no sentimento de pertencimento que o leitor experimenta ao fazer parte de uma comunidade. “Os eventos literários trazem esse ponto presencial insubstituível, permitindo sair do ambiente puramente virtual e encontrar pessoas com interesses comuns. No Sindicato, junto com parceiros da Bienal no Rio de Janeiro, buscamos criar espaços imersivos para que o leitor vivencie a literatura por diversos sentidos. Isso ajuda a aumentar a base de leitores no país – um desafio urgente, já que, segundo pesquisas como a Retratos da Leitura, apenas metade da população brasileira se declara leitora.” Piúba comentou a criação do Mapa de Eventos Literários pelo MinC. “Os dados preliminares indicam mais de 500 eventos literários cadastrados (são 73 em São Paulo, 71 no Rio Grande do Sul, 68 na Bahia, 58 no Rio de Janeiro…). E esse mapa ainda está em expansão – só no Rio Grande do Sul, por exemplo, sabemos que existem mais de 200 feiras. Existe uma verdadeira ‘topografia poética e literária’ espalhada pelo Brasil. As feiras começaram lá atrás com a Feira do Livro de Porto Alegre – a ‘feira-mãe’ com mais de 70 anos –, se expandiram pelas Bienais de São Paulo e Rio, e ganharam um contorno democrático e descentralizado com a Flip e eventos como a Flica em Canudos (Bahia) e as feiras do sertão do Ceará, entre muitas outras.” Mauro Munhoz, cofundador da Flip e diretor da Associação Casa Azul, que organiza a Festa há 24 anos, também destacou que a palavra é um instrumento de poder e de troca profunda. “A própria etimologia da palavra conversa significa ‘dar voltas juntos’. O valor central desses festivais está no encontro presencial de corpos e na troca verdadeira. Quando a Flip nasceu em Paraty, aprendemos muito com a cultura local e suas festas tradicionais. Inspirados pelo conceito das festas populares e conversando com curadores internacionais (como os do Hay Festival), percebemos que o formato não poderia ser um festival rígido e frio, mas sim uma Festa Literária integradora – focada no território, na ancestralidade e na valorização dos autores. Em Paraty, por exemplo, o evento é tão integrado ao território que pousadas de cidades vizinhas (como Cunha) ficam lotadas e transportam leitores diariamente. É a exercitação do encontro humano e do interesse genuíno pelo outro através da literatura”, comentou.
Para Dante Cid, a pandemia acelerou uma mudança fundamental no mercado editorial: os editores e livreiros perceberam que seu papel vai muito além de imprimir papel ou manter uma loja aberta. “Hoje, as editoras e livrarias precisam ser agentes culturais ativos. Elas devem promover debates, criar clubes de leitura, oferecer programação educativa e engajar o leitor por meio de experiências significativas. Se os eventos literários se limitassem a ser meros ‘balcões de venda de livros’, estariam fadados ao fracasso.”
No fim do dia, outro painel reuniu especialistas do mercado editorial em metadados e pesquisas para discutir o estado atual do formato no Brasil e nos países da América Latina. Para Ricardo Costa, CEO da MVB, a questão principal sobre o assunto não é custo; é a falta de conhecimento e a resistência à mudança. “É um mercado tradicional que operava da mesma forma há 50 anos. Já ouvi em livrarias: ‘Não preciso de sistema de metadados, tenho o ‘Joãozinho’ aqui que digita os livros na mesa dele todo dia’. Existe uma rejeição cultural a tabelas, padrões e gestão de dados.” Marifé Boix-García – vice-presidente da Feira do Livro de Frankfurt para a América Latina e o Sul da Europa – explicou que vem desenvolvendo projetos no México, agora no Chile, no processo do país ser convidado de honra da Feira de Frankfurt. “Os temas que levamos sempre passam por metadados, distribuição e uso estratégico de dados. Na Europa e América do Norte, os metadados estão cerca de 10 anos à nossa frente. Na América Latina, embora as pessoas comecem a entender a importância, falta profissionalização. O preenchimento de metadados muitas vezes fica a cargo de estagiários ou do setor comercial básico, sem que o valor estratégico do metadado para a venda seja realmente compreendido.” Luiz Gaspar, diretor de pesquisas da Nielsen BookData, comentou que a empresa tem um estudo para medir o impacto do preenchimento completo dos campos de metadados nas vendas de livros. No Brasil, títulos com alto nível de preenchimento de metadados (cerca de 18 campos preenchidos) vendem, em média, duas vezes mais do que livros com dados incompletos. No México, as análises cruzadas indicam um impacto de até quatro vezes mais vendas.
A programação da Casa PublishNews continua nesta sexta-feira (24) e no sábado (25)! Confira a agenda completa: 10h30 – 11h15 : MULHERES EM TRÂNSITO: SOLIDÃO, DESLOCAMENTO E PERTENCIMENTO NA FICÇÃO BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA 12h – 12h45 : CLASSE, RAÇA E MASCULINIDADE EM CRISE NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA 13h – 13h45 : LITERATURA PELA NEUROCIÊNCIA: QUEM LÊ VIVE MELHOR? 14h-14h45: MARKETING E DADOS: DESAFIOS E NOVAS ESTRATÉGIAS PARA ALCANÇAR NOVOS LEITORES 15h – 16h : POR QUE AS RELAÇÕES IMPORTAM (TANTO) NAS EMPRESAS? 16h – 16:45h : LITERATURA EM VOZ ALTA: INTERPRETAÇÕES LITERÁRIAS EM ÁUDIO 17h – 18h: MEU LIVRO, MEU ESTILO: POR QUE LER ESTÁ EM ALTA 10h30 – 11h15 : BIBLIOTECA SEM FRONTEIRAS 12h – 12h45 : ENTREVISTA DE MÃO DUPLA 13h – 13h45 : FRONTEIRAS DA INVENÇÃO: ESCRITA E CRIAÇÃO FEMININA 14h – 15h : POESIA: DESAFIOS DE EDITAR – E VENDER – VERSOS NO BRASIL 15h – 16h : O TEMPO INVISÍVEL DAS COISAS: O PASSADO QUE IMPRIME MARCAS NA ESCRITA E NA SOCIEDADE 16h – 16h45 : IDENTIDADE E PROTAGONISMO: ESCREVENDO NOSSAS HISTÓRIAS 17h – 18h : O OFÍCIO DE INVENTAR MEMÓRIAS: PESQUISA HISTÓRICA E A LIBERDADE DO ROMANCISTA
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