Férias sem culpa: como equilibrar a alimentação das crianças na folga e não sofrer na volta às aulas
Com a chegada das férias escolares, muitos pais se deparam com uma dúvida que pode gerar ansiedade: como fica a alimentação das crianças quando a rotina da lancheira, do cardápio escolar e dos horários fixos desaparecem? De um lado, a vontade das crianças de relaxar, beliscar e aproveitar aquele docinho a mais. Do outro, a preocupação dos pais e o receio do impacto na volta às aulas. Como manter a alimentação das crianças equilibrada durante as férias escolares?
A boa notícia é que é possível passar por esse período com leveza, desde que o equilíbrio seja a palavra-chave. Para ajudar nessa tarefa, conversamos com a nutricionista Ana Carolina Donan, da Papapá, e com Paula Afonso, cofundadora e diretora de inovação da marca.
Férias podem (e devem) ter flexibilidade
O primeiro passo é compreender que férias não combinam com rigidez excessiva… e isso é normal. “É um período em que oferecemos mais liberdade para as crianças, permitindo mais flexibilidade”, afirma Paula Machado. Para ela, esse é o momento em que as exceções podem ser feitas sem culpa. “Eu já vivi situações em que a criança queria mais doces ou salgadinhos durante as férias e, muitas vezes, liberamos isso com remorso. Essa flexibilização alivia bastante a culpa das mães.” Carolina complementa que as férias têm uma dinâmica própria, inclusive em relação ao gasto energético. “É evidente que as crianças tendem a comer mais e beliscar mais durante as férias, mas também estão gastando mais energia. Férias envolvem passeios, correr com amigos e brincar”, explica. Assim, aquela mordida a mais no lanche geralmente é compensada pela atividade física extra. O que não é aceitável, alertam as especialistas, é substituir refeições por lanches. Flexibilizar não significa abrir mão do almoço e do jantar, mas sim oferecer um respiro dentro de uma estrutura que ainda existe.
Nem 8, nem 80: o segredo está no equilíbrio
Mas e aquele filho que adora chocolate, salgadinhos ou sorvete? A resposta das especialistas é clara: proibir não é a solução. “Claro que você pode oferecer. O que importa é evitar o excesso, dar todos os dias, transformando isso em uma rotina. Quando pensamos em equilíbrio, isso deve acontecer de vez em quando. Uma ou duas vezes por semana ainda é equilíbrio”, esclarece Carolina. O ponto central, segundo a nutricionista, é não trocar, mas somar. “Não vou deixar de oferecer fruta para dar chocolate. Vou oferecer o chocolate, mas também a fruta, legumes e outros alimentos variados.” Paula compartilha uma estratégia que funciona em sua casa: delimitar os dias. “Durante a semana, é comida. Nos sábados e domingos, libero mais as sobremesas e docinhos.” Essa abordagem ensina a criança a organizar seus desejos dentro de um acordo, evitando que isso se torne uma obsessão. Ela também ressalta um ponto crucial sobre os riscos de proibir excessivamente. “Não podemos proibir a criança, pois isso pode levar a compulsões no futuro.” Uma armadilha que muitos que cresceram ouvindo “não pode” conhecem bem. A cofundadora narra uma situação recente que ilustra bem o equilíbrio na prática. Em um hotel com tudo liberado, seu filho de 8 anos queria sorvete o tempo todo. A solução não foi proibir, mas negociar de forma consciente. “Eu dizia: come uma fruta antes. Come três fatias de melão e, então, você pode pegar o sorvete. Ele ia lá, comia o melão e depois o sorvete”, relata Paula. “Eu não poderia barrar, estávamos de férias, mas também não podia deixar de trazer a consciência de que podemos comer algo menos saudável em algumas ocasiões, mas precisamos priorizar uma alimentação adequada.” Para Carolina, é nesse ponto que a negociação se torna essencial. “A criança precisa entender o porquê. Não é uma imposição, mas é importante que ela compreenda por que come tal legume ou verdura.”
Transformar, não esconder: a diversão à mesa
Uma das melhores estratégias para manter a qualidade nutricional sem conflitos é brincar com a comida, de forma positiva. Carolina sugere transformar alimentos que costumam ser rejeitados. “Muitas vezes, a criança não gosta de beterraba, por exemplo. Então, faço uma panquequinha cor-de-rosa. Já estou criando algo diferente para ela.” As cores, aliás, são grandes aliadas nesse período. “Podemos brincar com as cores em casa. Uma panquequinha com um legume em pó verdinho, um bolinho do Hulk. Há até receitas de bolo de chocolate cuja base é abobrinha”, conta a nutricionista. Paula compartilha um truque que resolveu o clássico problema do ovo em sua casa – e que é valioso para pais de crianças “formiguinhas”. A dica combina uma receita simples com um toque de psicologia infantil. “Faço uma crepioca: um pouco de tapioca, um pouco de ovo. Mas o segredo são as forminhas divertidas, de carrinho, por exemplo. Em vez de dizer que é para ele, digo: ‘filho, vem me ajudar a fazer para a mamãe’. O fato de ele estar participando e sendo diferente do que faço para ele gera curiosidade e vontade de experimentar.” Esconder ingredientes nutritivos em preparações que a criança adora, como panquecas de banana com aveia e ovo, é outra estratégia eficaz para garantir nutrientes sem conflitos.
A volta às aulas começa antes da segunda-feira
Se as férias pedem flexibilidade, o retorno exige reorganização, que não pode ser feita de última hora. “Por experiência própria, se possível, comece uma semana antes. Se não, pelo menos quatro dias antes para se reorganizar para a volta às aulas”, aconselha Paula. Segundo ela, tentar arrumar tudo no domingo à noite é uma receita para o caos. “Você pega o final de semana anterior e quer colocar tudo em ordem, não vai funcionar. As aulas começam e tudo já começa errado, o humor fica comprometido desde o início.” A sugestão é retomar gradualmente os horários de sono e refeições, permitindo que a criança se readapte ao ritmo antes do primeiro dia de aula. Carolina complementa que o ideal é nunca sair completamente da rotina, mesmo durante as férias. “Tentar manter pelo menos alguns horários para café da manhã, almoço e jantar. Os lanches podem ocorrer em horários diferentes, é claro, mas é importante manter algum tipo de lanche para que a transição de volta seja mais fácil.” O grande vilão, segundo ela, é o excesso, especialmente quando a criança deixa de fazer as refeições principais e passa a beliscar o dia todo. Evitar esse deslize é o que garante uma volta às aulas mais tranquila.
Turbinando o cérebro: os nutrientes que não podem faltar
É importante lembrar que a alimentação infantil não se resume a peso, mas sim ao desenvolvimento. “O cérebro da criança está em desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Até os cinco anos, ele desenvolve 35% de sua estrutura e capacidade cognitiva”, explica Carolina. E o equilíbrio é fundamental, especialmente considerando que o excesso de açúcar tem suas consequências. “A criança que consome muito açúcar fica agitada, querendo correr. Não é interessante ter esses picos de açúcar.” Entre os nutrientes que devem estar presentes no prato, a nutricionista destaca o ômega 3, encontrado principalmente em peixes e essencial para o desenvolvimento cognitivo; a colina, que pode ser encontrada em ovos e carnes; e o cálcio, proveniente do leite, que é vital para o crescimento. As fibras, frequentemente negligenciadas nas férias, também são fundamentais. “As fibras vêm de frutas, verduras e legumes. Nosso segundo cérebro, o intestino, precisa funcionar adequadamente”, enfatiza Carolina. A mensagem final das especialistas é reconfortante: com estratégia, criatividade e uma boa dose de bom senso, é totalmente possível desfrutar de férias agradáveis e uma volta às aulas tranquila, sem culpa e sem abrir mão da saúde dos pequenos. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…



