Neste sábado (13/6), o Brasil estreia na Copa do Mundo FIFA 2026 enfrentando o Marrocos, um país que não se destaca apenas no futebol, mas também por sua rica arquitetura sensorial e ornamental. A arquitetura marroquina é uma expressão cultural que reflete a história e as tradições de um povo, sendo um convite à contemplação e à valorização do espaço interno. Guilherme Clemente David, arquiteto do escritório Lullius Arquitetura, destaca que “é uma arquitetura que acolhe e envolve. Pensada a partir de uma escala humana, ela coloca o indivíduo no centro da experiência espacial — o humano é sempre o protagonista na arquitetura marroquina”.
A formação dessa arquitetura singular é resultado de uma confluência de influências, começando pelos berberes, nativos do norte da África, que introduziram técnicas de construção em terra crua adaptadas ao clima árido. Um dos marcos dessa tradição é a Mesquita Koutoubia, em Marrakech, erguida no século 12, que se destaca por seu imponente minarete de planta quadrada. A chegada do Islã no século 7 trouxe uma nova dimensão espiritual às construções, onde a geometria e a caligrafia passaram a ser elementos centrais, refletindo a ordem divina e a proteção da vida familiar e religiosa, como explica Camila Forcellini, coordenadora acadêmica dos cursos de Arquitetura, Urbanismo e Design na Universidade Anhembi Morumbi.
Riads e pátios
Os riads, que derivam do árabe riyad, que significa jardim, são habitações tradicionais urbanas organizadas em torno de um pátio ajardinado. Camila Forcellini descreve o riad como “a expressão máxima da filosofia de introversão: fachada cega para a rua, paraíso interno elaborado e com riqueza visual e ambiental para a família”. Este conceito é complementado pelo pátio, um símbolo da arquitetura marroquina que frequentemente apresenta uma fonte central. O som da água, em harmonia com a vegetação de laranjeiras e limoeiros, cria uma atmosfera de intimidade e serenidade que nenhum espaço voltado para a rua poderia proporcionar.
A Medersa Ben Youssef, uma antiga escola islâmica em Marrakech do século 14, é um exemplo notável dessa arquitetura exuberante, com seu pátio central adornado em zellige, estuques esculpidos e madeira de cedro entalhada. Os riads, inicialmente projetados para famílias abastadas, hoje são frequentemente adaptados para hotéis e casas de hospedagem, preservando a lógica arquitetônica que prioriza a vida interior e a privacidade.
Jardins como extensões
Na arquitetura marroquina, os jardins são concebidos como extensões dos espaços internos, integrando-se aos pátios e funcionando como ambientes de contemplação e frescor. Mais do que uma simples função paisagística, eles evocam a ideia de refúgio e intimidade. Guilherme David ressalta que “os pátios são explorados com fontes e jardins, auxiliando no conforto térmico e na iluminação, fatores importantíssimos dentro do contexto bioclimático local”.
Zellige: a arte dos mosaicos
O zellige, uma técnica tradicional marroquina de mosaicos em cerâmica esmaltada, é um dos elementos mais emblemáticos da arquitetura do país. Cada peça, cortada à mão e montada em padrões geométricos, resulta em superfícies vibrantes que combinam cor e simetria. Camila Forcellini explica que “os padrões, chamados de girih, carregam significados matemáticos e cosmológicos”, refletindo a tradição islâmica de representar o infinito através da repetição. Essa técnica não apenas embeleza, mas também conta a história e a espiritualidade do povo marroquino.
Arcos que contam histórias
Os mercados marroquinos, conhecidos como souks, são estruturados por arcos que reforçam a atmosfera histórica do país. A arquitetura marroquina é caracterizada por quatro tipos principais de arcos: o arco de ferradura, o arco de ferradura apontado, o arco multilobulado e o arco de moçárabe. Cada um desses arcos não apenas serve a uma função estrutural, mas também é uma expressão estética que conecta o passado ao presente.
Estuques e carpintaria
As mesquitas marroquinas se destacam não apenas pela sua estrutura, mas também pelos interiores ricamente ornamentados com estuques, madeira entalhada e mosaicos. Os estuques, feitos de cal, areia e água, são entalhados à mão para criar texturas únicas. Camila destaca que “artesãos passam anos aprendendo a talhar, em gesso ainda úmido, arabescos, caligrafia corânica e padrões geométricos de uma complexidade que desafia a compreensão”.
A carpintaria de cedro do Atlas também é essencial, adicionando textura e acolhimento às construções. Tetos, muxarabis e portais esculpidos em cedro perfumado completam a tríade decorativa junto com o zellige e o estuque. As madrassas, além de serem colégios corânicos, funcionam como hospedarias para estudantes, onde a arquitetura marroquina atinge sua máxima intensidade, cobrindo cada centímetro de zellige, estuque ou madeira de cedro esculpida.
Arquitetura contemporânea
A Mesquita Hassan II, em Casablanca, é um dos maiores marcos da arquitetura marroquina contemporânea, combinando técnicas artesanais tradicionais com uma escala moderna. Inaugurada em 1993, a mesquita é parcialmente erguida sobre o oceano Atlântico e destaca-se pelo uso de cedro entalhado em seu interior, enquanto o exterior é revestido por zellige, reforçando a identidade estética do país. Luiz Fernando Chiuchi, do Lullius Arquitetura, ressalta que “a arquitetura marroquina chama mais atenção pela experiência sensorial do que pela monumentalidade”.
A arquitetura marroquina não é apenas um testemunho de um passado glorioso, mas também uma fonte de inspiração para aqueles que buscam transformar seus próprios espaços. Ao integrar elementos como zellige, arcos e riads, é possível criar ambientes que evocam sensações de acolhimento e beleza. Para mais notícias acesse Em Foco Hoje. Confira também outros conteúdos em Central Nerdverse.



