Anfavea critica isenção de impostos para carros chineses
A ampliação da isenção de impostos para veículos elétricos semimontados até janeiro de 2027 gera um ambiente de competição desigual. Essa afirmação foi feita nesta terça-feira (7) por Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). De acordo com Calvet, as montadoras que possuem infraestrutura estabelecida no Brasil enfrentam desvantagens em relação às marcas chinesas, que importam veículos desmontados em grandes quantidades e pagam menos impostos.
“Se a intenção é apenas importar, a empresa pode fazer isso com custos chineses, logística e capital mais acessíveis. Assim, não há como competir”, detalha Calvet.
Em junho, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) renovou a cota de importação sem impostos para veículos elétricos semimontados e desmontados, conhecidos como processos CKD e SKD. Com a decisão do governo, os veículos montados no Brasil (CKD) e os semimontados no país (SKD) estarão isentos de imposto de importação pelos próximos seis meses. O volume de importações que não será taxado é de US$ 463 milhões durante esse período, que se inicia em 1º de julho de 2026, e a medida se estenderá até janeiro de 2027.
Critério questionável
A Anfavea manifesta sua insatisfação junto ao Gecex, ressaltando que a decisão de prorrogar o incentivo ocorreu sem consulta à entidade e seus membros. Andrea Serra, diretora tributária e de comércio exterior da Anfavea, aponta que um dos critérios para aproveitar o benefício envolve o cálculo do volume de importação. Essa análise considera operações desde 2023, o que, segundo Serra, não reflete a realidade do mercado atual. “Um dos nossos pedidos seria considerar apenas os últimos seis meses para dividir essa cota, proporcionando uma visão mais fiel do mercado brasileiro”, explica a diretora. Com a atual forma de cálculo da isenção, cerca de 80% dessa cota é atribuída apenas à BYD.
Impacto no emprego
Calvet alerta que, se o Brasil adotasse completamente os regimes CKD e SKD na indústria automotiva, haveria uma perda de 70% dos empregos no setor. Isso ocorreria porque o processo de montagem é mais simplificado, com menos etapas e demanda reduzida de mão de obra. Um estudo da Anfavea indica que, para cada 10 trabalhadores necessários para a produção de veículos no Brasil, apenas 3 seriam suficientes para montar o mesmo carro sob os regimes CKD ou SKD. “Não adianta afirmar que o Brasil precisa avançar para uma produção mais sofisticada e completa de veículos eletrificados, enquanto ao mesmo tempo se oferece incentivos para a importação de carros desmontados”, afirma Calvet.
Novas projeções para o mercado
A Anfavea revisou suas expectativas para o mercado automotivo brasileiro em 2026, passando a prever que o país superará a marca de 3 milhões de veículos vendidos neste ano. Se essa previsão se concretizar, será a primeira vez desde 2014 que o setor alcançará esse patamar. A entidade espera um crescimento de 11,7% nos emplacamentos em relação a 2025, muito acima da expectativa anterior, que era de apenas 2,7%. Segundo a Anfavea, esse desempenho é impulsionado principalmente pelo mercado de automóveis e comerciais leves, cuja projeção de crescimento foi elevada para 12,6%. Em contrapartida, os segmentos de caminhões e ônibus devem finalizar o ano com uma queda de 6%.
Embora as vendas no mercado interno estejam aquecidas, a Anfavea afirma que a indústria nacional não consegue acompanhar esse ritmo de crescimento devido ao aumento das importações e à queda das exportações. A projeção para a produção de veículos também foi ajustada para cima, passando de um crescimento de 3,7% para 5,8% em relação ao ano anterior. Com isso, o Brasil deve produzir cerca de 2,8 milhões de veículos em 2026, o maior volume desde 2019. “O mercado nacional continua muito aquecido, o que tem contribuído para uma leve recuperação no nível de empregos. No entanto, parte dessa recuperação é absorvida pelas importações”, comentou Calvet.
Melhor desempenho desde a pandemia
Os dados do primeiro semestre reforçam o bom momento do setor automotivo brasileiro. Entre janeiro e junho, foram produzidos 1,372 milhão de veículos, um aumento de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025. Esse é o melhor resultado para o semestre desde 2019. As vendas de automóveis cresceram 23,7% no semestre, equivalente a 208 mil unidades a mais que no ano anterior. Segundo a Anfavea, aproximadamente 73 mil dessas vendas foram impulsionadas pelo programa Carro Sustentável, destinado a veículos de entrada. Outros 130 mil veículos vendidos foram resultado do aumento dos modelos eletrificados — cerca de 70 mil produzidos no Brasil e 60 mil importados. Em junho, os veículos eletrificados atingiram uma participação recorde no mercado brasileiro, representando 20,9% das vendas de veículos leves. No entanto, o segmento de pesados continua em baixa. No acumulado do semestre, as vendas de caminhões caíram 10,5%, enquanto as de ônibus recuaram 11,6%, apesar de junho ter apresentado o melhor desempenho do ano para ambos os segmentos.
Queda nas exportações
Enquanto o mercado interno permanece aquecido, as exportações continuam em declínio. Em junho, os embarques de veículos caíram 26,7% em comparação ao mesmo mês do ano anterior. No total do semestre, o Brasil exportou 216,6 mil veículos, uma queda de 21,2%. A Anfavea aponta que a principal razão para essa retração é a diminuição da demanda da Argentina, um dos principais destinos das exportações brasileiras, além do aumento da concorrência com veículos fabricados na China e no México. Diante desse cenário, a entidade passou a prever uma queda de 12,8% nas exportações para 2026, enquanto anteriormente esperava um crescimento de 1,5%. O aumento das importações fez com que o setor automotivo brasileiro registrasse um déficit na balança comercial após vários anos. Entre janeiro e junho, foram importados 280,6 mil veículos, enquanto as exportações ficaram abaixo desse volume em cerca de 63 mil unidades. A China foi responsável por metade dos veículos importados nesse período. Em apenas um ano, o número de automóveis chineses vendidos no Brasil dobrou, passando de cerca de 70 mil para 140 mil unidades, conforme a Anfavea.
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