Saiba como cultivar araucária e produzir pinhão fresco direto do seu jardim
Especialistas orientam sobre o plantio da espécie, explicam em que momento a árvore começa a produzir pinhões e destacam sua relevância para a biodiversidade
Com alturas que podem alcançar até 50 metros e uma copa ampla em forma de taça, a araucária é uma das árvores mais icônicas do Brasil. Além de sua aparência majestosa, a espécie, cujo nome científico é Araucaria angustifolia, atrai a atenção pelo pinhão – a semente que se forma dentro da pinha e é especialmente consumida nas regiões Sul e Sudeste. “É uma planta que não gera frutos verdadeiros nem flores chamativas. Suas sementes, os pinhões, se desenvolvem em estruturas conhecidas como pinhas”, explica o biólogo e paisagista Júlio Sousa. Embora o ingrediente possa ser encontrado em mercados e empórios, ter uma araucária no jardim é o desejo de muitos apreciadores do alimento. Contudo, a espécie necessita de espaço amplo e climas específicos. O pinhão, que é a semente da ‘Araucaria angustifolia’, não só faz parte da culinária brasileira, mas também desempenha um papel crucial na reprodução da própria espécie.
“É viável plantar a araucária em casa, mas com uma importante ressalva: devido ao seu porte final de até 50 metros de altura, copa ampla e sistema radicular profundo e extenso, não é recomendada para quintais pequenos ou jardins urbanos comuns”, esclarece Lucas Beloto Belaz, engenheiro agrônomo da Forth Jardim. A árvore é mais apropriada para propriedades rurais, chácaras, sítios, parques ou terrenos amplos. “Em relação ao espaço, recomenda-se manter uma distância mínima de 8 a 10 metros de edificações, muros, piscinas, fossas e redes elétricas”, sugere o engenheiro agrônomo Eduardo Furnari. A ‘Araucaria angustifolia’, nativa do Sul do Brasil e ameaçada de extinção, é a árvore que produz o pinhão e exige condições específicas para seu cultivo.
O solo ideal deve ser profundo e bem drenado, e a propriedade deve estar localizada em uma região de clima subtropical a temperado. A temperatura média anual deve oscilar entre 12°C e 18°C, enquanto o mês mais frio deve permanecer abaixo de 18°C. “Ela ocorre naturalmente, principalmente, acima de 900 a 1.000 metros, embora possa ser cultivada em altitudes menores, desde que o clima e o solo sejam adequados”, acrescenta Lucas. A araucária é uma árvore de crescimento lento: pode levar entre 10 e 15 anos para começar a produzir pinhões.
Como plantar araucária: passo a passo
Com o espaço e clima adequados, é possível plantar a espécie utilizando a semente (o pinhão) ou mudas. No caso das sementes, Eduardo recomenda que sejam frescas. “Devem ser recém-colhidas, pois o pinhão perde rapidamente a capacidade de germinação”, explica. Após escolher a semente, basta enterrá-la na posição horizontal ou levemente inclinada, a cerca de 3 a 5 cm de profundidade. “Regue regularmente para manter a umidade, mas sem encharcar”, aconselha. Para aumentar as chances de germinação, é ideal plantar o pinhão logo após a colheita, enquanto a semente ainda está fresca.
É possível cultivar a planta em um vaso nos primeiros anos, mas, à medida que cresce, a árvore deve ser transferida para o solo. No caso das mudas, Lucas sugere escolher aquelas que têm entre 15 cm e 30 cm de altura, com raízes saudáveis e folhagens sem manchas. “Prefira realizar o plantio no início do período chuvoso, geralmente entre setembro e dezembro nas regiões Sul e Sudeste do país. Isso favorece o enraizamento das mudas, reduzindo o estresse hídrico inicial”, explica Eduardo. Abra uma cova que tenha o dobro do tamanho do torrão – bloco de terra e raízes que envolve a base da planta. “Misture a terra retirada com composto orgânico e recomenda-se utilizar adubos ricos em fósforo”, completa. Por fim, coloque a muda no centro da cova, com o colo (ponto de encontro entre caule e raiz) nivelado com o solo. Preencha com a mistura de terra, compactando levemente para eliminar bolsões de ar. “Regue logo após o plantio para assentar o solo ao redor das raízes”, indica Lucas.
Cuidados nos primeiros anos
Nos primeiros dois anos, a espécie apresenta um crescimento lento. “A partir do terceiro ano, em locais adequados, a árvore costuma apresentar um incremento de cerca de 1 metro de altura por ano, e a partir do quinto ano, um aumento de 1,5 cm a 2,0 cm por ano em diâmetro do tronco”, conta Lucas. Nos primeiros anos de vida, a árvore tem formato cônico – semelhante a um pinheiro. Somente na fase adulta ela assume a forma de taça, com galhos dispostos em pseudo verticilos. Para alcançar a altura máxima, de 50 metros, a espécie pode levar mais de 100 anos. “Um dos maiores indivíduos conhecidos do Brasil está no Parque do Pinheiro Grosso, em Canela, RS, e tem 48 metros de altura e idade estimada em cerca de 700 anos”, exemplifica. Nos primeiros anos, a araucária cresce lentamente. Após esse período, o desenvolvimento se acelera e a árvore pode ganhar cerca de 1 metro de altura por ano em condições favoráveis.
Para garantir um bom desenvolvimento ao longo do tempo, alguns cuidados são recomendados. Nos primeiros meses, é fundamental manter o solo úmido. “A frequência de irrigação varia conforme o clima local, mas a planta se torna mais tolerante à seca apenas após estar bem estabelecida”, afirma Lucas. Além disso, evite expor a muda ao sol direto. “Embora seja heliófita quando adulta, a muda jovem se beneficia de sombreamento leve nos primeiros meses”, esclarece o engenheiro da Forth Jardim. Para mais notícias acesse… “É importante controlar as plantas invasoras para que a araucária não perca seus nutrientes, manter o solo rico em matéria orgânica e proteger a muda de pisoteio”, acrescenta Eduardo. A poda deve ser iniciada a partir do terceiro ano, com a remoção de galhos secos. Isso melhora a qualidade do tronco e reduz a formação de nós na madeira. A recomendação é realizar a poda no fim do inverno ou no início da primavera.
E se ela não der pinhão?
Não basta ter uma Araucaria angustifolia em sua propriedade para conseguir pinhão. A espécie é dióica, o que significa que depende da combinação entre árvores machos e fêmeas para que as sementes apareçam. “Apenas as árvores fêmeas produzem as pinhas e os pinhões. Para que a fêmea produza pinhões férteis, é essencial que haja um exemplar macho nas proximidades. O vento transporta o pólen da árvore masculina até as pinhas da árvore feminina, realizando a polinização”, explica Júlio. “Uma fêmea isolada, sem macho por perto, tende a produzir poucas ou nenhuma pinha”, complementa Lucas. Na araucária, somente as árvores fêmeas geram pinhas e pinhões, mas elas precisam receber o pólen de um exemplar macho.
Para plantar espécies machos e fêmeas em um mesmo terreno, mantenha uma distância de 5 a 10 metros entre elas para evitar a competição por luz, água e nutrientes. Mesmo com a combinação entre fêmea e macho, a árvore pode ainda não ter atingido a maturidade sexual, que ocorre entre 12 e 20 anos. Se as condições climáticas não forem ideais, a formação de pinhas e pinhões pode ser comprometida. “Para que ela se desenvolva plenamente e consiga produzir, o ambiente precisa ter invernos frios, incluindo a ocorrência de geadas e chuvas bem distribuídas ao longo do ano”, diz Júlio.
Uma espécie ameaçada
A Araucaria angustifolia é encontrada, principalmente, no sul do Brasil e nas serras de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A espécie também está presente no Paraguai e na Argentina. Apesar de sua popularidade, a araucária é classificada como criticamente em perigo — a categoria mais grave antes da extinção na natureza. Esse cenário é resultado da exploração da madeira, da perda de seu habitat natural e da coleta predatória do pinhão, feita quando ainda está verde. “A araucária é considerada uma espécie-chave da Floresta Ombrófila Mista, desempenhando um papel fundamental na manutenção do equilíbrio ecológico desse ecossistema”, afirma Júlio. Além de ajudar a preservar uma espécie ameaçada, o plantio de novas araucárias favorece a regeneração da floresta e a manutenção da fauna. Confira também outros conteúdos em… Sua presença no bioma do Sul brasileiro sustenta diversas interações entre plantas e animais, e a diminuição da espécie compromete o funcionamento da floresta. Isso ocorre porque o pinhão é uma importante fonte de alimento durante o inverno para aves e mamíferos, como a gralha-azul, a cutia e o papagaio-de-peito-roxo. Ao esconder os pinhões no solo para consumi-los depois, esses animais dispersam sementes e contribuem para a regeneração natural da araucária. “Proteger o que resta e plantar novas mudas é essencial para garantir a variabilidade genética da espécie a longo prazo”, complementa Júlio.

