Insuficiência renal crônica: doença que Benedito Ruy Barbosa enfrentava faz rins perderem função gradualmente
Benedito Ruy Barbosa faleceu aos 95 anos. O autor de novelas icônicas como “Pantanal”, “O Rei do Gado” e “Renascer” lidava com insuficiência renal crônica há três anos, conforme boletim médico do Hcor, hospital onde estava internado em São Paulo. O hospital também revelou que o escritor possuía um histórico de reinternações devido a infecções urinárias recorrentes.
O que é a insuficiência renal crônica
A insuficiência renal crônica é parte do quadro conhecido como doença renal crônica (DRC), uma condição caracterizada por mudanças na estrutura ou no funcionamento dos rins por um período superior a três meses, impactando a saúde, segundo o Ministério da Saúde. Esta doença possui um curso prolongado e, frequentemente, avança sem sintomas por anos. Por essa razão, muitos casos só são identificados quando há uma perda significativa da função renal.
Os rins atuam como filtros do corpo: eliminam substâncias desnecessárias e ajudam a regular o equilíbrio de líquidos e sais minerais. Nos estágios iniciais, a DRC pode não apresentar sintomas, mas conforme a função renal diminui, resíduos que deveriam ser eliminados pela urina podem se acumular no sangue. Esse acúmulo pode provocar alterações em diversas partes do corpo, como inchaço, fadiga, náuseas, perda de apetite, anemia, variações na pressão arterial e desequilíbrios nos níveis de sais minerais.
“O acúmulo de substâncias como ureia, creatinina e eletrólitos como potássio pode ocasionar arritmias”, complementa o nefrologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Hugo Abensur. O descontrole dos eletrólitos no sangue e o desequilíbrio ácido-base também podem comprometer a saúde óssea. Indivíduos com doença renal crônica avançada não tratada podem apresentar ossos mais frágeis, aumentando o risco de fraturas, explica a nefrologista do Hospital Nove de Julho, Maria Julia Nepomuceno. Além disso, os rins também desempenham um papel endócrino, produzindo hormônios, como a eritropoetina, que estimula a produção de glóbulos vermelhos na medula. Na insuficiência renal crônica, a falta desse hormônio pode resultar em anemia. Os rins também ativam a vitamina D, e a insuficiência renal crônica pode levar à deficiência de vitamina D ativa e a doenças ósseas.
Como a doença renal crônica evolui
A gravidade da doença renal crônica é avaliada principalmente pela taxa de filtração glomerular (TFG), que estima a capacidade dos rins de filtrar o sangue. Quanto menor essa taxa, maior o comprometimento da função renal e os riscos associados à doença. O Ministério da Saúde classifica a DRC em estágios, que vão de quadros leves a avançados:
- Estágios 1 e 2: alterações iniciais, com preservação significativa da função renal;
- Estágio 3: redução moderada da capacidade renal;
- Estágio 4: perda grave da função renal;
- Estágio 5: fase mais crítica, onde o paciente pode necessitar de terapia renal substitutiva.
Conforme o paciente perde a função renal, os sintomas se tornam mais evidentes. Nos estágios iniciais, a função renal varia de 60% a 40%. Abaixo de 30%, classifica-se como estágio quatro. Abaixo de 15%, é o estágio cinco, onde o paciente deve iniciar diálise ou considerar um transplante, se a função renal for inferior a 10%, de acordo com o médico. Pacientes com perda significativa da função renal podem precisar de tratamentos como hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal, todos disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As principais causas de morte entre pacientes em diálise são, em primeiro lugar, doenças cardiovasculares, seguidas por infecções, uma vez que a imunidade dos pacientes em diálise é geralmente mais baixa em comparação à população em geral, acrescenta Abensur.
Diabetes e pressão alta entre principais causas
A doença renal crônica pode ter diversas origens. Os principais fatores que contribuem para a perda avançada da função renal incluem diabetes mellitus e hipertensão arterial, segundo o Ministério da Saúde. Essas condições podem causar danos progressivos aos vasos sanguíneos e às estruturas filtração nos rins. “O diabetes é uma condição que resulta do descontrole da glicose, que se torna tóxica em níveis elevados, prejudicando os rins”, explica Nepomuceno. Outras causas são menos frequentes, como inflamações nos glomérulos renais, conhecidas como glomerulonefrites, que podem ser provocadas por doenças autoimunes como o lúpus, destaca Abensur. Também existem casos de DRC de origem genética, como a doença policística, além de problemas como cálculos renais e infecções urinárias altas, que podem levar à doença renal crônica. O envelhecimento da população e o aumento de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares, tornam a DRC um desafio crescente para os sistemas de saúde. Um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde revela que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 10% da população mundial sofra de doença renal crônica. No Brasil, a prevalência estimada é de 6,7% entre adultos, triplicando em pessoas com 60 anos ou mais.
Diagnóstico precoce pode retardar avanço
Embora possa progredir silenciosamente, a doença renal crônica pode ser identificada por meio de exames simples e de baixo custo. A avaliação geralmente inclui a dosagem de creatinina no sangue, que é usada para calcular a taxa de filtração renal, e exames de urina que podem detectar alterações, como a presença de proteínas. “Normalmente, não devemos perder proteínas na urina, então a dosagem de albumina é um exame simples. Se o indivíduo perder mais de 30 miligramas por dia de albumina, isso indica a presença de doença renal crônica”, esclarece Abensur. De acordo com o nefrologista e vice-presidente Sudeste da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Pedro Túlio Rocha, a confirmação requer alterações persistentes por três meses ou mais. Outros exames, como ultrassonografia, também podem revelar alterações renais e auxiliar no diagnóstico de insuficiência renal crônica. O Ministério da Saúde afirma que o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e o controle dos fatores de risco podem ajudar a retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Tratamento
Na maioria dos casos, a insuficiência renal crônica não possui cura. A doença se desenvolve ao longo do tempo, causando danos ao tecido renal, que não consegue se regenerar. O tratamento tem como objetivo controlar a causa do problema, prevenir novas lesões e preservar a função renal pelo maior tempo possível. Na insuficiência renal aguda, o rim para temporariamente. O paciente pode receber antibióticos e, em alguns casos, até precisar de diálise, mas depois recupera a função renal, pontua Nepomuceno. “Na insuficiência renal crônica, o foco é evitar a progressão, para que o paciente não necessite de diálise. Atualmente, existem várias medicações para esse propósito. O essencial na prevenção da progressão da DRC é o tratamento adequado do diabetes e da hipertensão”, enfatiza Abensur. Ele ressalta que até mesmo as canetas agonistas de GLP, utilizadas no tratamento de pacientes diabéticos com perda de proteína na urina, também protegem os rins. “Se conseguirmos detectar a DRC em seus estágios iniciais, quando ainda é assintomática, temos muitas opções de medicações que podem retardar a progressão da doença. Assim, o paciente não chega ao ponto de precisar de hemodiálise”, afirma Nepomuceno. Abensur também alerta sobre o uso indiscriminado de anti-inflamatórios, que podem causar perda aguda da função renal, especialmente em pacientes com DRC. “Devemos evitar o uso de anti-inflamatórios desnecessários, como o diclofenaco, e utilizar analgésicos apenas quando necessário”, reforça. Túlio Rocha destaca ainda a importância de mudanças de hábitos, como parar de fumar e adotar atividade física, para o sucesso no tratamento.
Diálise substitui a função de filtração do rim de maneira parcial
A hemodiálise é necessária quando a creatinina atinge cerca de seis miligramas por decilitro ou quando o paciente tem menos de 10% de função renal. A diálise substitui parcialmente a função de filtração dos rins. O paciente em diálise precisa passar, em média, por três sessões de hemodiálise por semana, com duração de 3h30 a 4h, resultando em uma função renal em torno de 10%. Além disso, a diálise não substitui a função endócrina dos rins. Pacientes em diálise necessitam receber o hormônio que estimula a medula, a eritropoetina, para tratar a anemia. Esses pacientes também precisam de vitamina D ativa, que é produzida nos rins, conhecida como calcitriol. “Se o paciente estiver em boas condições clínicas, ele pode realizar um transplante renal, caso tenha um doador vivo. Isso permite que ele faça um transplante renal direto, sem a necessidade de passar por diálise”, complementa Abensur.
Cerca de 20% dos idosos têm algum grau de disfunção renal
Abensur ressalta que a doença renal crônica é bastante comum. Uma em cada dez pessoas apresenta algum grau de DRC, e essa prevalência aumenta entre os idosos. Aproximadamente 20% dos idosos têm algum grau de disfunção renal. Dados do boletim epidemiológico indicam que o número de atendimentos a pessoas com DRC na Atenção Primária à Saúde cresceu no Brasil nos últimos anos, passando de cerca de 74 mil registros em 2019 para mais de 188 mil em 2023. As internações relacionadas à doença também aumentaram no mesmo período, de 84,3 mil em 2010 para 140,6 mil em 2023. A maioria dos atendimentos registrados na Atenção Primária entre 2019 e 2023 ocorreu em pessoas entre 50 e 79 anos, reforçando a relação entre a doença e o envelhecimento da população.
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