Luminárias feitas de cera de abelha são destaque no design sustentável
Um projeto que começou com uma ex-namorada fazendo panos encerados para conservação de alimentos levou à fusão de design, pesquisa e apicultura. O designer espanhol Pablo Bolumar, ao observar a cera de abelha derretida, identificou seu potencial para difundir luz. Essa percepção resultou na criação da marca Panal, em parceria com o designer Jacobo Taulet, que se dedica a produzir luminárias utilizando cera de abelha. “Vi as propriedades de difusão da luz que o material possuía como uma oportunidade e comecei a criar protótipos de uma cúpula imediatamente”, relata Pablo em uma entrevista. “O aroma e o processo de fabricação também eram muito agradáveis em comparação a outros materiais que já havia utilizado. Isso me incentivou a me dedicar a esse material”, acrescenta.
Os pesquisadores, utilizando trajes de proteção, manipulam materiais oriundos das abelhas, ressaltando a relação delicada entre os processos naturais e a criação artesanal. A partir dessa investigação, os designers criaram o Beetex, um bioplástico composto por tecido natural impregnado com cera de abelha. Esse material atua como um filtro de luz: quando a iluminação passa por ele, adquire um tom quente, semelhante ao mel, devido às partículas de pólen que estão naturalmente presentes na cera. Assim, a cera não é apenas uma escolha estética, mas se tornou o foco de uma pesquisa sobre novas possibilidades no design sustentável.
As luminárias são fabricadas a partir de favos que são descartados na apicultura ou recuperados após o desaparecimento natural de colônias, preservando um recurso que geralmente teria pouca utilização. Além disso, suas estruturas metálicas modulares foram elaboradas para facilitar a manutenção, reparos e substituição de componentes, seguindo princípios de economia circular e aumentando a durabilidade das peças.
Segundo Pablo, trabalhar com a cera exigiu abrir mão da ideia de controle total sobre o resultado final. “O maior desafio foi aceitar as características do material e integrá-las ao design. Às vezes, a cera racha ou forma rugas e texturas que podem inicialmente não parecer atrativas, mas começamos a vê-las como parte da identidade de cada peça”, explica o designer. Outro desafio foi criar uma estrutura que suportasse as luminárias. “Tivemos que desenvolver sistemas metálicos personalizados, pois os suportes convencionais simplesmente não eram adequados para esse tipo de cúpula”, afirma.
A pesquisa da Panal se concentra na apicultura voltada para a cera, não na produção de mel. Pablo esclarece que o objetivo é criar um modelo que beneficie as colônias silvestres, que estão se tornando cada vez mais raras devido à apicultura intensiva. “Percebemos que a cera é o único material que uma colônia deixa para trás após desaparecer naturalmente durante o inverno. Estamos desenvolvendo uma abordagem de apicultura que visa proporcionar oportunidades de sobrevivência às colônias selvagens e monitorá-las até que morram naturalmente, momento em que coletamos a cera”, conta.
Enquanto esse sistema ainda está em desenvolvimento, a maior parte da matéria-prima utilizada provém de apiários tradicionais, onde os apicultores trocam periodicamente os favos antigos para que as abelhas possam produzir novos. As luminárias unem técnicas artesanais e processos industriais criados pelos próprios designers. Eles não pretendem preservar a cera apenas como um material associado ao trabalho manual, mas demonstrar que ela pode ter um papel significativo no design contemporâneo. “Tratamos a cera de abelha como um material valioso, quase como ouro. A combinação da cera com tecidos é um ofício quase esquecido que permite preservá-la, e estamos desenvolvendo nossos próprios métodos ao longo do caminho. Cada coleção surge de experimentações realizadas no ateliê, mas não queremos ficar presos à nostalgia do artesanato. Buscamos otimizar os processos, aprimorar o material e apresentá-lo como um filtro de iluminação moderna”, afirma Pablo.
Essa fusão entre o artesanal e a engenharia também se reflete nos produtos. As marcas naturais deixadas pela cera, como rugas, dobras e pequenas gotas formadas durante o processo, conferem a cada luminária uma singularidade, enquanto as estruturas foram projetadas para facilitar o transporte, a montagem e a adaptação a diferentes ambientes. Atualmente, a coleção conta com diversos modelos. A Colmena Pendant, a primeira luminária criada pela dupla, recebeu uma nova estrutura interna que possibilita aumentar seu tamanho e transportá-la quase totalmente plana. A Celdilla Lineal explora a geometria hexagonal dos favos, criando sistemas de iluminação lineares para mesas e bancadas, enquanto a Candela Portable é uma luminária portátil recarregável, inspirada na quantidade de cera presente em uma vela, mas projetada para ter uma durabilidade muito maior. A luminária adquire sua forma final ao unir a estrutura metálica ao “tecido abelha”, resultando em uma peça de luz suave, presença escultórica e acabamento orgânico.
Mais do que simplesmente criar objetos decorativos, os designers aspiram a provocar uma reflexão sobre a conexão entre indústria e natureza. “Desejamos construir uma indústria regenerativa, uma biofábrica. Historicamente, a produção industrial tem sido associada a impactos ambientais negativos, mas acreditamos que a produção pode ser algo positivo. Nosso objetivo é desenvolver um modelo industrial que ajude a regenerar a saúde e a genética das abelhas. Quando alguém adquire uma luminária da Panal, está apoiando essa pesquisa e levando para casa uma peça que homenageia uma colônia que um dia existiu”, afirma o designer. Para Pablo, essa conexão permanece presente mesmo após a luminária ser acesa. “Nossos objetos de iluminação carregam essa energia. Eu realmente acredito nisso”, conclui. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…
