EUA enfrentam dificuldades para cumprir metas de biocombustíveis de Trump

Os Estados Unidos estão enfrentando desafios para cumprir as metas de biocombustíveis estabelecidas pelo presidente Trump, com impactos no mercado.

EUA enfrentam dificuldades para cumprir metas de biocombustíveis de Trump

Máquinas movidas a biodiesel B100 Marcelo Souza / g1 O empenho do presidente Donald Trump em aumentar a produção de biodiesel e atender as promessas feitas a agricultores e comunidades rurais está encontrando obstáculos na realidade do mercado: as usinas dos EUA não estão conseguindo cumprir as metas estabelecidas pelo governo. A discrepância entre as metas e a produção real acarreta riscos políticos e econômicos. Uma escassez prolongada pode fazer com que os preços dos créditos de combustíveis renováveis subam consideravelmente e forçar o governo Trump a utilizar um mecanismo raramente acionado, que permite a redução das metas previamente definidas para ajustá-las às condições do mercado.

Uma possível revisão das metas representaria um retrocesso incomum e poderia desagradar os agricultores e produtores de biocombustíveis, que pressionaram por cotas mais altas e constituem uma base política significativa para o presidente, especialmente em um ano eleitoral. Agora no g1 Parte da produção já está comprometida com contratos de exportação, onde os preços têm se mostrado mais vantajosos devido às interrupções na oferta causadas pela guerra no Irã. Contudo, esses volumes não geram créditos para atender as metas definidas pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

As refinarias geraram 736 milhões de créditos renováveis (RINs) em maio, conforme dados da EPA, número bem abaixo dos aproximadamente 915 milhões necessários mensalmente para manter o ritmo exigido pelas metas, segundo Scott Irwin, economista agrícola da University of Illinois. De acordo com as estimativas de Irwin, a produção nos primeiros quatro meses de 2026 ficou 1,41 bilhão de RINs aquém do necessário. Para compensar esse déficit, a produção precisaria superar em mais de 20% o maior volume mensal já alcançado pelo setor durante o restante do ano.

“As metas, na prática, exigem que as usinas de biodiesel operem em seu maior ritmo sustentado da história e que as plantas de diesel renovável produzam muito além de qualquer nível que já tenham atingido”, declarou Irwin. “Não há como o setor alcançar as metas no ritmo atual”, afirmou Paul Niznik, diretor de energia da Capstone LLC, empresa de Washington que assessora refinarias, distribuidoras de combustíveis e fundos de investimento. “O déficit tem gerado grande preocupação em todo o setor, principalmente sobre qual será a reação do governo.” Segundo ele, os participantes do mercado não esperam que a EPA intervenha, apesar de a agência ter a autoridade para conceder uma flexibilização das metas. Em vez disso, o governo poderia implementar medidas como a redução das obrigações previstas para 2028, alterando a forma como os volumes importados são contabilizados para o cumprimento das exigências.

Incerteza regulatória freou a produção A produção ficou estagnada por meses enquanto os fabricantes de biodiesel e diesel renovável aguardavam que o governo Trump finalizasse as regras para o crédito tributário federal 45Z, voltado à produção de combustíveis limpos. As diretrizes, divulgadas nas últimas semanas, eliminaram algumas restrições relacionadas ao uso da terra e ampliaram os incentivos ao diesel renovável produzido com soja — alterações que o setor reivindicava há cerca de um ano. Segundo Jeramie Weller, gerente-geral da Minnesota Soybean Processors, produtora de biodiesel, as novas regras oferecem mais segurança para aumentar a produção e firmar contratos de fornecimento de matéria-prima com os agricultores. Mesmo assim, ele ressalta que não está claro se as medidas foram implementadas a tempo para compensar as perdas de produção acumuladas anteriormente.

A alta dos preços do petróleo, provocada pelo conflito com o Irã, também diminuiu o ritmo de crescimento da produção de biodiesel. As interrupções na oferta aumentaram a rentabilidade dos combustíveis fósseis, incentivando as refinarias a maximizar a produção de derivados de petróleo em vez de expandir a oferta de combustíveis renováveis.

Estoque de créditos diminui A produção aquém do esperado também está reduzindo uma reserva que historicamente ajudava o mercado a lidar com déficits temporários. O chamado “banco de RINs” — estoque de créditos não utilizados que as refinarias podem empregar para atender as metas — vem sendo diminuído ao longo deste ano, à medida que a produção fica abaixo do necessário enquanto a demanda se mantém alta. Se essa tendência persistir, analistas alertam que essa reserva pode se esgotar até o final de 2026, pressionando ainda mais os preços dos créditos. Os preços dos RINs já alcançaram níveis recordes, elevando os custos de conformidade para refinarias menores, que dependem da compra desses créditos em vez de misturar combustíveis renováveis por conta própria.

A perspectiva de um mercado mais restrito intensificou a pressão de lobby em Washington. A American Fuel and Petrochemical Manufacturers (AFPM), principal associação das refinarias americanas, tem se reunido com parlamentares no Congresso para solicitar ao governo uma revisão das metas de biocombustíveis para 2026. A entidade também entrou com uma ação judicial contra a EPA. “Os americanos pagarão bilhões de dólares a mais do que deveriam se o programa de combustíveis renováveis não for redimensionado”, afirmou a AFPM em materiais distribuídos a parlamentares, argumentando que o alto custo dos créditos acaba elevando os preços dos combustíveis para os consumidores.

Em resposta por e-mail, a EPA afirmou que está avaliando o cumprimento das metas considerando o ano inteiro e levando em conta as oscilações normais entre os meses, incluindo o uso dos créditos já existentes para cobrir déficits temporários. Para Brett Gibbs, analista da Bloomberg Intelligence, a EPA pode ter subestimado tanto o volume de exportações de biodiesel e diesel renovável quanto as dificuldades de importar matérias-primas no curto prazo devido ao conflito com o Irã. “A EPA pode muito bem ter um problema nas mãos até as eleições de meio de mandato. E certamente entrando em 2027”, concluiu Gibbs.

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Em Foco Hoje Redação
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