Artista cria monotipias a partir de troncos de árvores cortadas em São Paulo

André Maciel, artista paulistano, transforma troncos de árvores cortadas em arte, explorando a conexão entre a cidade e a natureza.

Artista faz gravuras a partir de troncos de árvores cortadas em São Paulo

Há aproximadamente um ano e meio, o artista visual André Maciel, oriundo da capital paulista, tem trabalhado em uma coleção de monotipias feitas a partir de troncos de árvores cortadas em São Paulo, SP. Ele utiliza a superfície dos tocos como matrizes de impressão, capturando a estrutura interna das árvores e documentando o local onde elas estavam por meio da identificação das espécies e das coordenadas geográficas. Essa pesquisa surgiu de sua formação em gravura e do interesse pelos métodos de impressão. Ao notar os cortes transversais dos troncos espalhados pela cidade, André percebeu uma relação direta com a linguagem da xilogravura. “Primeiro me chamou a atenção a textura da árvore cortada. Ela já era uma matriz pronta. Depois comecei a perceber que aqueles veios registravam a história de vida da árvore”, recorda André.

A monotipia é realizada com tinta à base de água aplicada diretamente sobre o tronco cortado. Depois, o artista pressiona uma folha de papel sobre a superfície para captar as nuances da impressão de cada árvore. Em estúdio, ele adiciona o nome e as coordenadas geográficas de cada exemplar.

Com o avanço da pesquisa, o artista começou a notar também as marcas deixadas pelas serras que realizaram o corte. Para ele, esses sinais representam o encontro entre o ciclo natural da árvore e a intervenção humana na paisagem urbana. “Naquela superfície, você tem o registro de toda a vida da árvore e, ao mesmo tempo, as marcas do instrumento que a matou”, diz o artista.

O registro gráfico de árvores removidas da cidade

As árvores selecionadas para a série não são escolhidas aleatoriamente. O foco está em exemplares localizados em áreas onde a expansão urbana gera conflitos com a vegetação. André percorre bairros, especialmente na zona oeste de São Paulo, registrando árvores que cresceram próximas a postes, fiações, calçadas estreitas ou em locais impactados por obras e alterações no tecido urbano. “Meu olhar está voltado para essa zona de pressão entre a cidade e a natureza. São árvores que cresceram muitas vezes em condições limitadas e que acabam evidenciando problemas de planejamento urbano”, explica.

Antes de criar cada monotipia, André investiga a espécie da árvore, fotografa o entorno e consulta registros históricos disponíveis em plataformas de georreferenciamento. As coordenadas presentes nas obras surgiram da intenção de vincular cada impressão a um local específico, criando uma espécie de cartaz gráfico para cada espécie documentada. Nesse momento, o trabalho começou a adquirir também um caráter de registro. Cada tronco possui particularidades em seus anéis de crescimento, no tipo de corte que a árvore sofreu e em seu estado de conservação.

A série reúne trabalhos produzidos a partir de espécies encontradas na capital paulista

A série abrange trabalhos realizados a partir de espécies encontradas na cidade, como ligustro, pau cigarra e oiti, transformadas em impressões de grandes dimensões feitas diretamente sobre papel a partir dos troncos originais. As monotipias são elaboradas diretamente nos locais onde os troncos permanecem após o corte. Utilizando tinta à base de água e folhas de grande formato, André cobre a superfície da madeira e transfere a imagem manualmente para o papel. Em seguida, já no ateliê, ele acrescenta informações tipográficas utilizando uma prensa e tipos móveis. O nome da espécie, localização e outros dados passam a integrar a composição. “Procurei trabalhar com o mínimo de elementos gráficos possível. A ideia era criar um registro objetivo da existência daquela árvore”, afirma André.

Após a aplicação da folha de papel sobre o tronco da árvore cortada, André Maciel leva as monotipias ao estúdio, onde acrescenta o nome e as coordenadas geográficas de cada exemplar. Essas informações são inseridas por meio de peças gráficas autorais, desenvolvidas especialmente para a série.

Momentos marcantes no desenvolvimento da série

Alguns episódios marcaram especialmente o desenvolvimento da série. Um deles ocorreu quando André acompanhou a derrubada de uma sibipiruna nas proximidades do seu ateliê, na região de Pinheiros. No dia seguinte ao corte, ele retornou ao local para realizar a impressão e percebeu que o tronco ainda liberava seiva. “Era uma árvore saudável. Quando fiz a impressão, ela ainda pulsava seiva. A marca da seiva acabou aparecendo no trabalho, deixando as marcas e o trabalho com uma textura mais aguada no papel”, recorda.

A produção da monotipia da sibipiruna foi marcante para André Maciel, pois a árvore havia sido cortada pouco antes da realização da impressão. Essa proximidade com o momento do corte influenciou o resultado gráfico da obra, que apresentou contornos menos definidos devido à maior liquidez da seiva.

Em outras ocasiões, o artista encontrou árvores removidas poucos dias antes da impressão, ainda preservando marcas recentes do corte. Essas experiências reforçaram seu interesse em registrar não apenas a forma gráfica da madeira, mas também os vestígios deixados pelo momento da remoção e pela relação da cidade com sua arborização. A escolha da monotipia também está ligada à singularidade de cada trabalho. Diferente de outras técnicas de gravura, cada impressão é única, preservando características específicas daquele tronco, local e momento.

Compartilhar as monotipias nas redes sociais acabou ampliando a própria pesquisa. Ao publicar vídeos do processo de impressão, André começou a receber comentários de pesquisadores, biólogos e pessoas interessadas em arborização urbana. Foi nesse contexto que ele descobriu, por exemplo, que o ligustro, presente em uma das obras, é considerado uma espécie invasora em determinados ambientes.

A relação entre a cidade e a natureza

As interações também ajudaram a ampliar sua percepção sobre o papel das árvores na cidade. “Fui entendendo que a árvore também é um território. Ela não é só uma árvore, está ligada a muitas outras coisas e vínculos afetivos das pessoas na cidade”, diz André. A preocupação ambiental influenciou ainda decisões técnicas da série: como as monotipias são realizadas diretamente sobre os troncos, André optou por utilizar tinta à base de água. A escolha gerou questionamentos de seguidores, mas também trouxe contribuições inesperadas. “Um biólogo me escreveu dizendo para não limpar a tinta depois da impressão. Segundo ele, ela poderia ajudar a proteger a área cortada de ataques de cupins diretamente da seiva, exposta após o corte”, relata.

Arte urbana, Mata Atlântica e memória da cidade

“O tema central do meu trabalho é a relação entre sociedade, natureza e transformação urbana”, afirma o artista. Para André, essa preocupação permeia diferentes momentos de sua produção, que agora chega a uma consolidação de linguagem e trabalhos. Um diálogo importante em sua trajetória ocorre entre a série de monotipias e a série Lixiviação, iniciada por volta de 2010. Nesta, o artista retratou sucatas, veículos abandonados e estruturas corroídas pelo tempo. O título faz referência ao processo de empobrecimento do solo provocado pela ação da água e foi utilizado como metáfora para pensar o desgaste e a transformação no ambiente urbano, evidenciado pelo próprio material escolhido, a aquarela. A série Lixiviação, anterior à produção das Monotipias, também explora a tensão entre o urbano e a natureza, um dos temas centrais da obra do artista visual André Maciel.

Essa investigação também se manifesta em uma série mais recente de pinturas, como Bem-te-vi, Maritaca, Sabiá-laranjeira, Saí-andorinha, Sabiás na Pitangueira, Bananeira e Galo Real, que surgiu das reflexões provocadas pelas próprias monotipias. Ao investigar o desaparecimento das áreas verdes, passou a refletir também sobre os animais que dependem delas para alimentação e abrigo. A obra Saí-Andorinha, de André Maciel, integra uma série derivada das Monotipias e propõe uma reflexão sobre a presença — ou a ausência — da fauna no contexto urbano, marcado pela retirada de árvores e pela escassez de arborização nas ruas e avenidas de São Paulo.

As pinturas são realizadas sobre azulejos, tijolos, madeira, metal, argamassa e outros materiais recuperados de demolições urbanas. Sobre esses materiais, o artista explica que começou a recolher esses itens ao observar a velocidade com que antigas casas eram substituídas por novos empreendimentos imobiliários. Ao trabalhar sobre esses vestígios, começou a pintar aves nativas da Mata Atlântica, que já não eram mais vistas ou ainda permaneciam de forma resiliente no espaço urbano. “Escolhi pintar apenas pássaros da Mata Atlântica, como forma de trazer algo nesse trabalho que muitas vezes esquecemos também: que São Paulo está dentro desse bioma”, diz André.

Para o futuro, a expectativa do artista é expandir a série de monotipias para outras cidades brasileiras, registrando espécies características de diferentes regiões do país. A proposta é ampliar o mapeamento iniciado em São Paulo e observar como a arborização urbana se relaciona com diferentes processos de ocupação e crescimento de outras cidades brasileiras, inclusive aquelas inseridas em outros tipos de biomas. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…

Compartilhe
Em Foco Hoje Redação
Em Foco Hoje Redação

Em Foco Hoje é um perfil editorial responsável pela produção e organização de conteúdos informativos sobre atualidades, tecnologia, economia, saúde e temas de interesse geral, sempre com foco em clareza, utilidade e atualização constante.