Parada cardíaca: como identificar, o que fazer nos primeiros minutos e por que música pode ajudar
Torcedor falece após passar mal enquanto assistia ao jogo do Brasil. Reconhecer rapidamente os sinais de uma parada cardíaca e agir nos primeiros minutos pode ser decisivo entre a vida e a morte de uma pessoa — e, conforme especialistas, até a batida de uma música pode ser útil nesse momento. “Stayin’ Alive”, dos Bee Gees, que toca em festas há quase cinquenta anos, ganhou um uso inesperado: a de ferramenta para ensinar massagem cardíaca. O motivo não está na letra, que fala sobre continuar vivo, mas no ritmo da canção — cerca de 103 batidas por minuto, uma frequência muito próxima da recomendada pelas diretrizes internacionais de reanimação cardiopulmonar (RCP), que variam de 100 a 120 compressões por minuto. Essa associação se espalhou por cursos de primeiros socorros em diversos países, pois manter o ritmo adequado das compressões pode ser crucial nos primeiros minutos de uma parada cardíaca. Foi essa manobra que uma médica do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) orientou por telefone e videochamada ao socorrer um torcedor de 60 anos que sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o jogo entre Brasil e Japão, em uma padaria em Goiânia. As pessoas presentes começaram a massagem cardíaca antes da chegada da ambulância. O homem não sobreviveu, mas, segundo cardiologistas, iniciar a reanimação imediatamente é a melhor maneira de manter o cérebro e os demais órgãos recebendo oxigênio até a chegada da equipe especializada.
Médica socorrista do Samu orientou pessoa que acompanhava torcedor que teve uma parada cardíaca, em Goiânia, durante o jogo do Brasil.
Reconhecer a parada cardíaca é o primeiro passo. Antes de qualquer manobra, é necessário verificar se a pessoa está realmente em parada cardiorrespiratória. Segundo o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, a vítima tende a perder a consciência e não responde a chamados, além de a respiração apresentar alterações. “Quando a pessoa começa a entrar em parada, ela faz uma respiração semelhante a um soluço. É o que chamamos de gasping”, explica Kazunori. Profissionais de saúde também avaliam a presença de pulso, geralmente na artéria carótida, situada na lateral do pescoço — uma verificação que pode ser difícil para quem não tem treinamento. Para Kazunori, a incerteza não deve ser motivo para hesitar: quem nunca passou por um treinamento dificilmente conseguirá identificar com precisão se há pulso, então, diante da dúvida sobre uma possível parada, o mais seguro é iniciar as compressões, visto que o procedimento não oferece risco para quem não está realmente em parada cardíaca. Diante da suspeita, a recomendação é ligar imediatamente para o Samu, pelo telefone 192, e começar as compressões torácicas.
Como a massagem cardíaca mantém a pessoa viva. Quando o coração deixa de bombear sangue, o cérebro para de receber oxigênio, e em poucos minutos podem surgir lesões irreversíveis. A massagem cardíaca atua como uma bomba mecânica temporária: cada compressão empurra o sangue para fora do coração e ajuda a manter uma circulação mínima até que o órgão retome seu funcionamento ou uma equipe especializada assuma o atendimento. É por isso que a qualidade das compressões é tão importante.
A técnica correta deve ser aplicada. A vítima deve ser posicionada de costas sobre uma superfície firme. As mãos devem ser colocadas sobre o centro do tórax, uma sobre a outra, com os braços estendidos. As compressões devem afundar o peito cerca de 5 centímetros, em um ritmo de 100 a 120 movimentos por minuto — e é tão essencial comprimir quanto permitir que o tórax retorne completamente à posição original antes da próxima compressão. “Não basta apenas comprimir. É muito importante permitir que o tórax descomprima totalmente entre uma compressão e outra”, orienta Kazunori. Se houver outra pessoa por perto, ela deve acionar imediatamente o Samu enquanto as compressões são iniciadas. Caso exista um desfibrilador externo automático (DEA) disponível, o equipamento deve ser levado até a vítima e utilizado seguindo as instruções fornecidas pelo próprio aparelho.
Por que a música funciona como guia. Para aqueles que nunca treinaram a técnica, manter a velocidade correta pode ser um desafio — é nesse momento que “Stayin’ Alive” se torna útil. Com cerca de 103 batidas por minuto, a música atua como um metrônomo: acompanhar mentalmente o refrão ajuda a evitar compressões lentas demais, que reduzem a circulação sanguínea, ou rápidas demais, o que compromete a eficácia da manobra. O especialista ressalta, no entanto, que a canção é apenas um recurso para memorizar o ritmo ideal. O fundamental é reconhecer rapidamente a parada cardiorrespiratória, acionar o Samu pelo 192 e iniciar as compressões sem demora. Sempre que houver um DEA por perto — equipamento que pode ser encontrado em locais como aeroportos, shoppings, estádios e algumas academias —, ele também deve ser utilizado: o aparelho identifica automaticamente se o coração precisa de um choque e orienta o socorrista com comandos de voz.
Outras emergências exigem condutas diferentes da massagem cardíaca. Em casos de engasgo com obstrução grave das vias aéreas, a manobra indicada é a de Heimlich: compressões aplicadas logo acima do umbigo, para dentro e para cima, até que o objeto seja expelido. Queimaduras não devem ser tratadas com pasta de dente, café ou manteiga — apenas água corrente. Já em convulsões, não se deve colocar nenhum objeto na boca da pessoa; o recomendado é proteger a cabeça e afastar móveis ou objetos que possam causar ferimentos. Esse tipo de conhecimento é relevante, pois a maioria das emergências acontece longe dos hospitais, quando familiares, amigos ou pessoas que estavam por perto se tornam os primeiros a prestar socorro — um cenário que se intensifica durante grandes eventos esportivos. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine revelou que, nos dias de jogos da seleção alemã na Copa do Mundo, o risco de emergências cardiovasculares foi 2,66 vezes maior do que no restante do período analisado, especialmente entre pessoas com doença coronariana conhecida. Para os pesquisadores, o estresse emocional provocado por partidas decisivas pode atuar como um gatilho para infartos, arritmias e outras complicações cardíacas — o que reforça a importância de saber agir nos primeiros minutos, que pode ser, literalmente, uma questão de vida ou morte. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…



