Tsai Chih-chung une quadrinhos e filosofia de forma singular

O autor taiwanês Tsai Chih-chung mescla quadrinhos e filosofia, atraindo a atenção na Feira Internacional do Livro de Pequim.

Tsai Chih-chung une filosofia chinesa e quadrinhos de forma singular

PEQUIM, China — Apesar de ter me preparado com pesquisas e leituras para a entrevista, foi quase impossível prever a conversa com o autor e ilustrador taiwanês Tsai Chih-chung, um dos destaques da programação da Feira Internacional do Livro de Pequim (BIBF), que terminou na semana passada na capital chinesa. Ao longo das últimas décadas, as obras de Tsai têm misturado ilustrações e filosofia, resultando em uma reinterpretação única de textos clássicos chineses. Agora, aos 78 anos, suas adaptações, como Analects, Laozi, Liezi e Zhuangzi, foram traduzidas para 27 idiomas — incluindo o português brasileiro, pois algumas de suas obras foram lançadas no Brasil nos anos 1990 pela Ediouro.

A conversa com a equipe de reportagem ocorreu na área de convidados, cerca de uma hora e meia após a sessão de autógrafos do lançamento da edição em inglês do livro Yi Jing: The illustrated Book of Changes (Princeton Press), em um dos auditórios do Centro de Convenções de Pequim. Tsai é uma figura carismática, despertando a curiosidade de leitores jovens e de outras idades com piadas, truques de mágica, desafios de lógica e anedotas que entrelaçam sua trajetória com conceitos filosóficos. Na sala, acompanhado de uma tradutora, Tsai explicou seu processo criativo, enfatizando a relevância do ócio e da dedicação ao hábito de refletir. O autor também recordou a influência de sua infância na formação de sua visão de mundo, ressaltando tanto a educação católica quanto o contato precoce com a arte sacra.

Antes de nos despedirmos, ele me entregou três cartas de um baralho que tinha em mãos. Em seguida, pediu que eu organizasse o bolo restante em três pilhas diferentes. Alterei a sequência de empilhamento, tentando dificultar o truque, mas ao virar as cartas, eram as mesmas que ele possuía. Tsai me presenteou com um marcador de página com uma citação do antigo filósofo chinês Laozi, que dizia: “Todas as coisas sob o céu nascem do ser; o ser nasce do não ser”. Ele explicou que essa frase representa uma ideia central da filosofia chinesa: a noção de que toda criação emerge do vazio e da possibilidade. Essa parece ser uma ideia que acompanhou o autor ao longo de sua carreira.

Seu livro Yi Jing, traduzido para o português como Livro das mudanças ou Livro das mutações (do inglês Book of Change), busca refletir sobre as limitações da capacidade humana de compreender plenamente o mundo ao nosso redor. O texto apresenta 64 hexagramas criados por Fu Xi, cada um com um nome e descrevendo uma situação mais ou menos concreta. Em Yi Jing: The illustrated book of changes, cada hexagrama ganha um capítulo ilustrado que explora suas particularidades.

Leia a entrevista completa: PublishNews — Além dos livros e do desenho, do que o senhor mais gosta de fazer? Tsai Chih-chung — Pensar… Se há algo que aprecio mais, além de criar livros, é pensar. Pensar é meu maior hobby. Na prática, isso muitas vezes significa jogar bridge. Jogo quase todos os dias pela internet. Aprecio o jogo pelo desafio estratégico e pelo raciocínio que exige.

PublishNews — Como descreveria seu processo criativo? O senhor é um criador mais imaginativo ou mais prático? Tsai Chih-chung — Na verdade, me considero uma pessoa bastante prática. Ao criar quadrinhos, primeiro desenvolvo os elementos visuais de maneira sistemática. É provável que desenhe centenas de poses diferentes para um personagem antes de começar a criar os cenários. Como trabalhei na produção de televisão, aprendi a pensar em componentes: árvores, montanhas, rios, casas, nuvens. Cada elemento é criado separadamente e, depois, reunido para formar uma cena completa. As pessoas costumam achar que a criatividade depende apenas da inspiração, mas, para mim, é um processo de construção e organização.

PublishNews — Por que o senhor continua contando histórias? Tsai Chih-chung — Porque tudo tem uma história. Consigo olhar para qualquer objeto e imaginar suas emoções, pensamentos e perspectivas. A tarefa de um contador de histórias é dar voz àquilo que normalmente não pode falar. As histórias estão em toda parte. O próprio mundo é repleto de narrativas esperando para serem contadas.

PublishNews — Como a filosofia influenciou sua vida e sua obra? Tsai Chih-chung — Sempre amei filosofia desde a infância. Quando era criança, frequentava aulas de catecismo católico e me fascinava com as questões sobre a vida, moral e existência humana. Admirava figuras como Moisés, Noé e Jesus, não apenas como personagens religiosos, mas como pessoas que dedicaram suas vidas a um propósito. Por volta dos três ou quatro anos, comecei a me questionar sobre o que queria fazer da minha vida. Quando meu pai me deu um pequeno quadro negro e me ensinou a desenhar e escrever, descobri minha paixão pela arte. Desde então, nunca deixei de pensar.

PublishNews — Sua formação católica influenciou seu desenvolvimento artístico? Tsai Chih-chung — Com certeza. As igrejas que frequentava eram repletas de lindos vitrais e pinturas religiosas. Muitas dessas obras haviam sido criadas por artistas europeus e me impactaram profundamente desde muito jovem. A arte entrou na minha vida através dessas experiências visuais, muito antes de eu entender qualquer teoria artística.

PublishNews — Sua obra combina quadrinhos e filosofia. Algumas pessoas consideram os quadrinhos menos sérios do que a literatura tradicional. Por que acredita que eles são um meio eficaz para transmitir ideias filosóficas? Tsai Chih-chung — As pessoas costumam me perguntar: “O que pode ser transformado em quadrinhos?” Minha pergunta é exatamente o oposto: “O que não pode ser transformado em quadrinhos?” A filosofia pode ser desenhada. A religião pode ser desenhada. A matemática, a física, a ciência e a história também podem ser desenhadas. A linguagem dos quadrinhos não tem limites. O mais importante é compreender profundamente o assunto. Quando realmente entendemos algo, os quadrinhos se tornam uma forma elegante e acessível de comunicá-lo. De fato, como os quadrinhos utilizam poucas palavras, exigem ainda mais precisão.

PublishNews — Como contador de histórias, de que forma enxerga a fronteira entre realidade e imaginação? Tsai Chih-chung — A realidade é o ponto de partida, mas a imaginação nos permite ver além das aparências. Passei a vida inteira refletindo sobre ideias, observando o mundo e transformando essas observações em histórias e imagens. Criatividade não significa escapar da realidade; significa descobrir significados mais profundos dentro dela.

PublishNews — O que o senhor considera mais importante para a humanidade nos dias de hoje? Tsai Chih-chung — Não me vejo como alguém capaz de mudar o rumo da história. O mundo é guiado por forças muito maiores do que qualquer indivíduo. O que posso fazer é focar nas minhas próprias responsabilidades e nas minhas contribuições. Se eu pudesse deixar uma mensagem, talvez até gravada em minha lápide, seria: “Faça o que estiver ao seu alcance e encontre alegria naquilo que faz.” Isso é suficiente.

*A jornalista viajou a convite da Corporação de Importação e Exportação de Publicações Nacional da China (CNPIEC). Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…

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Em Foco Hoje Redação
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