Brasil cria centro para pesquisa de insumos farmacêuticos ativos

O Brasil anunciou a criação de um centro de pesquisa focado em insumos farmacêuticos ativos a partir da biodiversidade nacional.

Brasil cria centro para pesquisar novos insumos farmacêuticos a partir da biodiversidade; chegada ao mercado ainda não tem prazo

O Brasil lançou nesta sexta-feira (3) um centro de pesquisa voltado para o desenvolvimento de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) oriundos da biodiversidade brasileira, visando a longo prazo diminuir a dependência do país em relação a matérias-primas importadas para a produção de medicamentos. Contudo, apesar do anúncio, o projeto não estabelece metas concretas para a redução das importações, nem um prazo para que qualquer produto chegue ao mercado.

Os responsáveis pela iniciativa informaram que os quatro primeiros anos serão voltados apenas para as fases iniciais da pesquisa, antes da realização de testes em humanos. O Centro de Competência em IFA a partir da Biodiversidade Brasileira (CC-IFABR) será instalado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), localizado em Campinas (SP), com um investimento de R$ 60 milhões da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e do Ministério da Saúde.

A proposta é identificar moléculas em plantas, animais e microrganismos brasileiros que tenham potencial para se tornarem medicamentos. O desafio que o centro busca enfrentar é bem conhecido no setor: atualmente, mais de 90% dos IFAs utilizados pela indústria farmacêutica brasileira são importados — e em alguns segmentos, essa dependência pode chegar a 95%, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi). Embora uma grande parte dos medicamentos comercializados no Brasil seja produzida internamente, o IFA — a substância que confere o efeito terapêutico — frequentemente vem de fora.

O que o centro vai fazer

Nos próximos quatro anos, o CC-IFABR não se dedicará ao desenvolvimento de medicamentos completos, nem à produção de remédios para o Sistema Único de Saúde (SUS). O foco estará nas fases iniciais da pesquisa: descobrir moléculas da biodiversidade brasileira que tenham potencial terapêutico, aprimorá-las e realizar os estudos pré-clínicos necessários para validar a segurança e eficácia — a etapa que precede os testes em humanos.

As duas primeiras áreas de pesquisa serão tratamentos contra câncer, com ênfase em imunoterapia, e terapias para infecções emergentes. Daniela Trivella, coordenadora do CC-IFABR no CNPEM, revelou que dois projetos já estão em andamento: um explora uma molécula extraída de uma planta da Caatinga com potencial para ativar o sistema imunológico contra tumores; o outro busca desenvolver, a partir de um microrganismo, uma molécula para o tratamento da sepse — uma infecção generalizada que pode levar à falência de órgãos.

Projeto sem metas definidas

É importante destacar que nenhum dos dois projetos deve resultar em medicamentos disponíveis para pacientes dentro do prazo inicial do centro. Após a fase pré-clínica, ainda será necessário realizar estudos em humanos, obter a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e desenvolver processos que permitam a fabricação desses medicamentos em escala industrial.

Alvaro Prata, presidente da Embrapii, esclareceu que o objetivo do centro é atuar nas etapas anteriores ao desenvolvimento industrial, preparando moléculas e processos até um estágio em que possam ser assumidos pela indústria farmacêutica. Por essa razão, ainda não há previsão de quando as pesquisas poderão resultar em produtos disponíveis no mercado, nem qual será o impacto real na diminuição da dependência brasileira de IFAs importados.

O ‘vale da morte’

Descobrir uma molécula promissora é apenas o primeiro passo. Um dos principais desafios da indústria farmacêutica é transformar uma descoberta científica em um processo produtivo que consiga fabricar grandes quantidades da substância com qualidade, segurança e custo competitivo — a transição entre pesquisa acadêmica e produção industrial é frequentemente chamada de “vale da morte”, onde muitos projetos são abandonados. Prata afirmou que o centro busca mitigar esse risco, desenvolvendo, além das moléculas, rotas de produção mais eficientes e sustentáveis.

Uma das principais apostas é uma biofoundry, uma plataforma automatizada que utiliza robótica e inteligência artificial para desenvolver e otimizar microrganismos capazes de produzir moléculas de interesse farmacêutico — o objetivo é acelerar esses processos e validá-los em escala piloto, aproximando as pesquisas das exigências do setor industrial e das agências reguladoras. Contudo, ainda não há uma estimativa pública sobre quantos projetos conseguirão superar essa fase e chegar ao mercado.

Quem vai ficar com as patentes

Outra preocupação em relação às pesquisas com a biodiversidade brasileira é evitar que as descobertas realizadas no país sejam exploradas economicamente apenas por empresas estrangeiras. Segundo Prata, a estratégia do centro é transformar compostos naturais em novas moléculas que possam ser patenteadas, sendo licenciadas preferencialmente para empresas que operam no Brasil. Ele também garantiu que todo o processo seguirá a legislação sobre acesso ao patrimônio genético e repartição de benefícios, assegurando que comunidades tradicionais e pesquisadores envolvidos recebam a participação prevista em lei.

R$ 60 milhões financiam só a primeira fase

O investimento anunciado abrange os quatro primeiros anos de funcionamento do centro e será destinado à implantação da infraestrutura e ao desenvolvimento das pesquisas iniciais. A expectativa, conforme Prata, é captar novos recursos durante a execução do programa, com a participação da indústria farmacêutica e de outras fontes de financiamento — mas, até o momento, não existem parceiros ou valores confirmados para essa segunda fase.

O que é um IFA?

O Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) é a substância que provoca o efeito terapêutico de um medicamento: é ele que combate uma infecção, reduz a febre ou atua contra células tumorais. Os demais componentes do comprimido ou da cápsula têm a função de dar forma, estabilidade e facilitar a administração do remédio. Atualmente, embora a maioria dos medicamentos vendidos no Brasil seja produzida no país, seus IFAs são importados — principalmente da China e da Índia. Essa dependência é o que o novo centro pretende reduzir a longo prazo.

Ao final dos quatro anos iniciais, a expectativa não é substituir as importações imediatamente, mas sim entregar moléculas e processos em um estágio mais avançado de desenvolvimento para que possam seguir para testes clínicos, parcerias industriais e, eventualmente, produção em larga escala. O impacto real sobre a dependência externa de IFAs dependerá das fases subsequentes de desenvolvimento e da capacidade de transformar essas descobertas em produtos aprovados e fabricados no Brasil.

O que diz o Ministério da Saúde

Em resposta, o Ministério da Saúde informou que “os R$ 60 milhões representam o investimento planejado e já estão totalmente empenhados, dentro do Contrato de Gestão estabelecido com a Embrapii”. “O Centro não foi criado para promover a substituição imediata de IFAs importados, mas para estruturar pesquisa, desenvolvimento, formação de capacidades e geração de conhecimento em uma área de fronteira tecnológica. O acompanhamento será realizado semestralmente pela Comissão de Acompanhamento e Avaliação, da qual o Ministério da Saúde faz parte. O modelo do Centro de Competência prevê um conjunto de indicadores técnicos e financeiros, como número de projetos de PD&I desenvolvidos, recursos executados com fontes que não sejam da Embrapii, número de empresas participantes ou associadas, recursos investidos por empresas e número de startups e empresas de base tecnológica mobilizadas. O Sistema Único de Saúde não incorpora IFAs isoladamente, mas medicamentos e outras tecnologias em saúde. As soluções chegarão ao SUS a partir do escalonamento produtivo e da avaliação regulatória. O CC IFA vai formar capacidades que possam subsidiar produtos de interesse para a saúde pública. O Ministério da Saúde acompanha a iniciativa como interveniente do Contrato de Gestão, mas não exerce fiscalização direta sobre essa legislação específica, que cabe à Embrapii. O desenho do CC-IFABR busca enfrentar o desafio produtivo ao combinar pesquisa aplicada, interação com empresas, foco em projetos de PD&I e acompanhamento por indicadores de desempenho. A articulação entre instituições científicas, infraestrutura tecnológica e parceiros produtivos visa criar condições mais favoráveis para que o conhecimento gerado avance ao longo da cadeia de inovação”, conclui a nota.

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Em Foco Hoje Redação
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