Os ipês-roxos floresceram menos neste inverno – e há uma explicação para isso
Aqueles que aguardavam a vibrante floração dos ipês-roxos neste inverno possivelmente ficaram desapontados em 2026, quando muitas árvores mostraram copas menos densas e ainda retinham parte de suas folhas. Apesar do rigor do frio, as chuvas de maio impactaram o comportamento de várias árvores e influenciaram a intensidade da floração.
Conforme a bióloga Fernanda Raggi Grossi, especialista em Botânica e Sustentabilidade, a resposta está na fenologia, que é o “relógio biológico” que rege os ciclos naturais das plantas. “Os ipês são espécies adaptadas ao Cerrado, portanto evoluíram para reagir ao ambiente seco e ao inverno rigoroso. Quando essa estação chega, com a queda da temperatura, a baixa umidade e a escassez de água, a árvore percebe que pode não sobreviver. Assim, ela redireciona toda a energia acumulada durante a primavera e o verão para gerar flores, frutos e sementes, assegurando a continuidade da espécie”, afirma.
Esse mecanismo explica o motivo pelo qual os ipês geralmente perdem praticamente todas as folhas antes de florescer. “A planta deixa de investir energia na produção e manutenção das folhas e concentra tudo na reprodução. Por isso, vemos aquelas copas completamente cobertas por flores. É uma estratégia evolutiva”, complementa Fernanda.
A chuva confundiu as árvores. Neste ano, no entanto, as chuvas de maio afetaram esse processo. Segundo Fernanda, o problema não foi apenas a quantidade de água, mas o timing em que ocorreu. “As chuvas não impedem a floração, mas alteram o ritmo desse processo. Como ainda havia água disponível no solo, muitas árvores ‘entenderam’ que não precisavam perder todas as folhas. Assim, parte da energia que seria exclusivamente destinada às flores continuou sendo utilizada para manter a copa verde”, explica.
Além disso, a força das chuvas trouxe outra consequência. “Muitos botões florais já estavam formados quando ocorreram aquelas chuvas intensas. Como eram ainda muito jovens, boa parte acabou sendo levada pela força da água antes mesmo de se abrir. Assim, houve uma perda significativa de flores”, diz a paisagista.
Na prática, isso resultou em muitas árvores apresentando menos flores do que o esperado: “A árvore ficou um pouco confusa. Ela recebeu um sinal de que ainda havia água suficiente disponível e, ao mesmo tempo, começou a sentir o frio típico do inverno. Por isso, manteve parte das folhas e produziu uma florada menos intensa”, esclarece Fernanda.
A espécie Handroanthus impetiginosus, conhecida popularmente como ipê-roxo.
O ipê responde a vários sinais ao mesmo tempo. Embora muitas pessoas associem a floração exclusivamente ao inverno, Fernanda esclarece que o processo é bem mais complexo: “O ipê não floresce apenas porque chegou o inverno. Ele reage a um conjunto de sinais ambientais. Temperatura, duração dos dias, luminosidade, disponibilidade de água e umidade do ar atuam em conjunto. Nenhum desses fatores atua isoladamente.”
A diminuição das chuvas continua sendo um dos principais gatilhos fisiológicos da espécie. O estresse hídrico é um dos sinais que levam a árvore a entrar em dormência, perder as folhas e direcionar sua energia para a produção de flores. Quando ocorrem chuvas fora de época, esse estresse diminui e o relógio biológico da planta é alterado.
Existe uma seca ideal? A resposta é sim, mas não há um número exato de dias. “Não existe um período único de seca que se aplique a todos os ipês. Isso depende da espécie, da idade da árvore, do tipo de solo e do microclima. De modo geral, no entanto, a florada mais intensa ocorre quando há um período seco bem definido, com baixa umidade e pouca chuva por tempo suficiente para desencadear essa resposta fisiológica”, afirma Fernanda.
Secas muito curtas reduzem a intensidade da floração, enquanto eventos extremos também podem prejudicar a árvore. “Se a seca é breve, a floração tende a ser menor. Porém, se o estresse é excessivo, a árvore também pode diminuir sua capacidade de produzir flores”, complementa.
A floração do ipê-roxo costuma ocorrer no inverno, quando a árvore perde as folhas e concentra sua energia na produção de flores. Neste ano, as chuvas de maio alteraram esse processo em parte dos exemplares.
O que esperar dos próximos anos? Para a pesquisadora, as mudanças climáticas devem fazer com que essas alterações se tornem cada vez mais frequentes: “Estamos enfrentando eventos meteorológicos muito mais extremos e menos previsíveis. Tivemos invernos com ondas de calor, chuvas fora de época e grandes variações de temperatura. Tudo isso modifica o calendário biológico das plantas.” Contudo, isso não significa que os ipês deixarão de florescer. O que tende a mudar é a intensidade da florada e o período em que ela ocorre. Esses ciclos podem se tornar menos uniformes e mais difíceis de prever.
As cidades também influenciam. Além do clima, o ambiente urbano afeta diretamente o desenvolvimento das árvores. “Na cidade, os ipês enfrentam uma realidade muito diferente daquela encontrada na natureza. As ilhas de calor mantêm temperaturas mais elevadas durante a noite, a impermeabilização do solo reduz a infiltração de água e limita o crescimento das raízes, enquanto a poluição dificulta as trocas gasosas das folhas e reduz a eficiência da fotossíntese”, diz Fernanda.
Isso faz com que indivíduos da mesma espécie se comportem de maneiras distintas. “Cada árvore acaba vivendo um microclima. Algumas recebem mais água, outras têm solo compactado, e outras sofrem mais com o calor do asfalto. Por isso, dois ipês da mesma espécie podem florescer em épocas diferentes ou apresentar florações completamente diferentes”, conta.
Em Brasília, a intensidade da florada dos ipês-roxos pode variar conforme as condições climáticas, especialmente o regime de chuvas e as temperaturas registradas nos meses anteriores.
Para a especialista, observar a floração dessas árvores é uma forma de acompanhar as transformações ambientais: “Os ipês funcionam como verdadeiros termômetros da natureza. A cada inverno, eles traduzem nas flores tudo o que viveram nos meses anteriores. Quando percebemos mudanças na intensidade ou no momento da florada, estamos testemunhando os efeitos das alterações climáticas e do ambiente urbano no calendário biológico dessas árvores.”
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