Por que cuspir em vez de engolir? A explicação científica por trás do hábito que virou tendência nos gramados da Copa
Nos últimos dias, vídeos de atletas enchendo a boca com uma bebida e cuspindo-a logo em seguida, sem engolir, se tornaram virais durante a Copa do Mundo. Nas redes sociais, o ato gerou piadas e teorias — desde a hipótese de que seria água descartada por excesso de calor até especulações sobre uma suposta “técnica secreta” de desempenho. Essa cena não é exclusiva do futebol: artistas em longas apresentações também adotam gestos semelhantes em pequenos intervalos, de maneira discreta.
Conforme Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), existe, de fato, uma estratégia científica que justifica o ato de cuspir líquido — embora isso não proporcione calorias extras ao atleta. O termo técnico para essa prática é “bochecho de carboidrato” (carbohydrate mouth rinse, na literatura científica em inglês), e seu efeito, segundo o especialista, ocorre inteiramente no cérebro.
O cérebro é enganado, não o corpo
Valente explica que a prática consiste em manter na boca, por alguns segundos, uma solução rica em carboidrato — geralmente uma bebida esportiva concentrada em açúcar e eletrólitos — e, em seguida, cuspi-la, sem engolir. Receptores na cavidade bucal detectam a presença do carboidrato e enviam sinais ao sistema nervoso central, ativando áreas do cérebro ligadas à tomada de decisão, controle motor e funções executivas, incluindo o córtex pré-frontal, que é crucial para o desempenho cognitivo durante atividades físicas intensas. O resultado dessa ativação é uma diminuição na percepção de esforço e uma leve melhora no desempenho durante exercícios de alta intensidade. Porém, o especialista enfatiza a distinção entre a sensação e o combustível real: o corpo não recebe calorias adicionais. Não há ingestão, não há digestão, não há conversão em energia. O que acontece é que o cérebro interpreta que há combustível disponível e, com base nessa interpretação, permite que o corpo mantenha um esforço mais intenso — mesmo sem receber glicose de fato. Essa dissociação entre sensação e realidade metabólica explica por que a técnica é eficaz mesmo quando o atleta já está bem alimentado.
Segundo Valente, se o esportista fez uma refeição rica em carboidratos antes do exercício, o bochecho continua a produzir o mesmo efeito — o mecanismo depende do estímulo sensorial na boca, não do estado nutricional prévio do atleta.
Um ganho pequeno, mas mensurável
Para praticantes recreativos, o efeito geralmente passa despercebido: o ganho de desempenho é modesto e, na rotina de quem treina por lazer, pode não fazer diferença. A situação muda quando se trata de atletas de elite, para quem frações de segundo podem determinar resultados — como em uma prova de ciclismo contrarrelógio. Nesses casos, até uma vantagem pequena pode ser crucial. De acordo com Valente, a melhora de desempenho associada à técnica varia entre 1% e 3%. Esse é um número modesto na prática esportiva diária, mas que se revela estatisticamente significativo em estudos clínicos que avaliaram o método — o que valida sua eficácia científica, mesmo que os efeitos sejam limitados. Uma revisão sistemática publicada na Nutrients reforça esse padrão: ao analisar onze estudos sobre o tema, os autores observaram melhora de desempenho em nove deles, com ganhos que variaram de 1,5% a quase 12% em exercícios de intensidade moderada a alta e duração próxima de uma hora — intervalo que abrange os valores mencionados pelo especialista. A maioria das pesquisas sobre o assunto foi realizada em ciclismo e corrida, com sessões de intensidade moderada a alta e duração entre 30 e 75 minutos. Esse intervalo de tempo concentra os melhores resultados demonstrados até agora — um dado relevante para compreender os limites da técnica quando aplicada a outros esportes, como o futebol.
E numa partida de 90 minutos, faz diferença?
Uma partida de futebol tem duração de 90 minutos e pode se estender ainda mais em caso de prorrogação — um tempo mais longo do que a janela em que o bochecho de carboidrato demonstrou eficácia nos estudos científicos disponíveis. No entanto, Valente observa que a técnica pode ser útil em momentos específicos do jogo, e não ao longo de toda a partida. Para o especialista, o benefício tende a se concentrar nas fases de alta intensidade e nos momentos decisivos da partida, quando a percepção de esforço dos atletas é mais elevada — como em disputas de bola no final de um jogo equilibrado ou em situações de pressão extrema.
Por que cuspir em vez de engolir
Para Valente, a principal vantagem de não ingerir o carboidrato é evitar desconforto gastrointestinal. Durante exercícios de alta intensidade, a ingestão de líquidos concentrados em açúcar pode causar náuseas e a sensação de estômago cheio, prejudicando o desempenho que o atleta busca melhorar. O bochecho, nesse sentido, atua como uma alternativa: permite obter parte do benefício da percepção de energia disponível sem sobrecarregar o sistema digestivo durante o esforço físico.
Quando é melhor engolir o carboidrato
A técnica tem limites claros, segundo o especialista. Se as reservas de glicogênio do atleta estiverem muito baixas — o que geralmente ocorre em exercícios prolongados —, apenas bochechar a bebida não é suficiente, pois nesse momento o músculo requer um aporte real de energia pela corrente sanguínea. É quando a ingestão efetiva do carboidrato se torna crucial: o corpo já não pode se contentar com a percepção de combustível, mas precisa dele realmente. Valente ressalta que engolir a bebida também continua sendo a estratégia mais indicada em exercícios com duração superior a 75 minutos, ou em qualquer situação em que o corpo já demande energia adicional real — cenários em que a reposição de glicogênio deixa de ser opcional.
Nem todo cuspe é bochecho de carboidrato
Apesar da repercussão nas redes sociais, Valente evita afirmar que os jogadores vistos nos vídeos durante a Copa estejam necessariamente aplicando essa estratégia. Ele observa que o gesto de cuspir pode ter explicações muito mais simples — desde hábito e desconforto na boca até a simples ingestão ou descarte de água durante o jogo. Uma confirmação de que se trata de fato do bochecho de carboidrato, segundo o especialista, só seria viável com informações das próprias equipes ou dos atletas envolvidos. “Embora a técnica realmente exista e seja válida cientificamente”, afirma Valente, isso não permite concluir que todo jogador flagrado cuspindo em campo esteja utilizando-a — mesmo que os efeitos comprovados do método, embora modestos, sejam reais e mensuráveis.
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