Morar junto com alguém pode afetar seu microbioma

Um estudo recente revela que a convivência entre casais altera o microbioma bucal e intestinal, destacando a importância da troca de bactérias.

Morar junto com alguém pode estar ‘contaminando’ sua boca (e isso não é necessariamente ruim)

Dividir o lar, utensílios e, principalmente, os beijos com outra pessoa tem um impacto que vai além do afeto: também altera, de maneira mensurável, a população de bactérias que reside na boca e no intestino. Essa é a conclusão de uma pesquisa publicada no periódico Cell Press Blue, conduzida por cientistas da Universidade de Trento, na Itália, em parceria com instituições espanholas e italianas.

Ao examinar 1.644 amostras de saliva e fezes de 808 indivíduos, os pesquisadores descobriram que pessoas que vivem juntas compartilham consideravelmente mais cepas bacterianas —tanto na boca quanto no intestino— em comparação com aquelas que residem em domicílios diferentes. Os casais se destacaram como o grupo que mais troca microbiota oral entre todos os tipos de relações familiares analisados.

O que o estudo mediu

A equipe não se limitou a verificar quais espécies bacterianas estavam presentes no organismo de cada participante, mas foi além: utilizando uma técnica de reconstrução genética chamada StrainPhlAn, os pesquisadores identificaram cepas específicas —variações de uma mesma espécie bacteriana— e observaram quando duas pessoas possuíam exatamente a mesma cepa. Essa abordagem possibilita diferenciar uma mera coincidência taxonômica de um real evento de transmissão entre indivíduos. O resultado foi que pessoas que dividem o mesmo lar apresentaram uma taxa mediana de compartilhamento de cepas intestinais de 19%, em contraste com 6% entre indivíduos de residências distintas. Na microbiota oral, a diferença foi ainda mais significativa —25,8% entre coabitantes, em comparação a praticamente zero entre não coabitantes.

Parceiros trocam mais bactérias orais do que intestinais

Um dos achados mais interessantes do estudo se refere especificamente aos casais. Entre todos os tipos de relações analisadas —pais e filhos, irmãos e parceiros românticos— apenas os casais mostraram uma proporção maior de compartilhamento de bactérias orais em relação às intestinais: uma mediana de 44,4% de cepas orais compartilhadas, contra 19,5% de cepas intestinais. Os autores atribuem esse padrão à troca de saliva por meio dos beijos, um comportamento que consideram fundamental na formação do microbioma bucal ao longo da vida adulta, corroborando descobertas de investigações anteriores sobre o tema.

O gastroenterologista Rogério Alves, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, esclarece que essa dinâmica é esperada e não implica, por si só, em um risco à saúde. “É natural que haja transmissão de bactérias entre pessoas, pois elas estão presentes em todos os lugares —no ar, nos alimentos, nas superfícies. Existe uma troca constante entre esses micro-organismos, e é absolutamente normal que pessoas próximas apresentem uma maior transmissibilidade entre si”, afirma. Segundo ele, o compartilhamento de utensílios também contribui para essa troca, uma vez que o processo digestivo se inicia na boca. “Indivíduos com higiene bucal menos adequada tendem a ser mais suscetíveis a essas trocas”, acrescenta.

Mais do que uma simples curiosidade sobre os hábitos dos casais, essa descoberta abre um caminho de investigação sobre como a transmissão de bactérias entre pessoas pode impactar diretamente o risco de doenças metabólicas, ampliando a compreensão de que o microbioma não é uma característica fixa e individual, mas um sistema em constante troca com aqueles que nos cercam.

Um microbioma que nunca para de mudar

A pesquisa também revelou que as bactérias presentes na boca são substituídas com muito mais frequência ao longo do tempo do que as do intestino. Em voluntários acompanhados por aproximadamente três meses e meio, a taxa de substituição de cepas orais atingiu 14,7%, enquanto no intestino foi de apenas 5,8% —sinal de que a cavidade oral, por estar mais exposta ao ambiente externo, recebe um fluxo contínuo de novos micro-organismos concorrentes. Para Rogério Alves, esse dinamismo é uma característica central do microbioma humano. “O microbioma é algo dinâmico: nós o construímos e o modificamos diariamente. Embora haja um componente importante herdado na infância, ele continua mutável ao longo da vida, de acordo com nossa alimentação, imunidade e contato com diferentes bactérias”, explica.

Atualmente, segundo ele, ainda não existe uma forma precisa de intervir clinicamente sobre essa composição —mas essa é uma das principais direções de pesquisa na área. “Sabe-se que algumas bactérias estão mais associadas a doenças, agravamento da obesidade e problemas de saúde cardiometabólica. Por isso, discute-se a possibilidade de modular o microbioma no futuro, favorecendo bactérias benéficas através de uma alimentação rica em fibras, probióticos e atividade física regular”, finaliza.

Nem toda bactéria transmissível é boa notícia

Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é a relação entre transmissibilidade e saúde. Ao cruzar os dados de compartilhamento domiciliar com rankings de saúde cardiometabólica, os pesquisadores descobriram que as bactérias intestinais mais facilmente transmitidas entre coabitantes tendem a ser aquelas associadas a um perfil metabólico desfavorável —e não às benéficas. Entre as espécies mais transmissíveis identificadas está a Sellimonas intestinalis, fortemente ligada a marcadores de diabetes tipo 2, enquanto bactérias relacionadas à boa saúde cardiometabólica raramente aparecem entre as mais transmitidas. Isso sugere que as bactérias associadas a doenças podem ter mecanismos de disseminação mais eficazes —ou talvez enfrentem menos resistência à colonização— do que as espécies benéficas, que teriam mais dificuldade em se estabelecer em um novo hospedeiro.

Entretanto, Alves ressalta que a chegada de um micro-organismo ao organismo não determina, por si só, o adoecimento. “Quando um agente entra no corpo, ele será combatido ou não dependendo da nossa imunidade. Indivíduos mais debilitados tendem a apresentar infecções mais graves mesmo diante de micro-organismos menos agressivos”, observa.

A pesquisa também identificou uma subespécie até então pouco caracterizada da Bifidobacterium longum —uma bactéria amplamente reconhecida por seus benefícios à saúde intestinal— que parece colonizar exclusivamente a cavidade oral. Provisoriamente chamada de B. longum subsp. nexti, essa variante nunca foi encontrada com a mesma cepa tanto na boca quanto no intestino das mesmas pessoas, ao contrário da maioria das espécies que habitam ambos os ambientes simultaneamente. Segundo os pesquisadores, sua raríssima abundância pode explicar por que ela passou despercebida em estudos anteriores. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…

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Em Foco Hoje Redação
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