O jogo por trás da Copa do Mundo: como empresas e governos disputam influência

A Copa do Mundo se transformou em um campo de disputa por influência, envolvendo governos e grandes empresas. O torneio vai além do esporte.

O jogo por trás da Copa: como empresas e governos fazem do Mundial uma disputa por influência

Agora no g1 O que uma petrolífera estatal saudita, um banco americano, uma companhia aérea do Catar e grandes empresas do setor alimentício têm em comum? Todas estão atualmente competindo por um dos espaços comerciais mais valiosos do mundo: a Copa do Mundo. Para a edição de 2026, a lista de patrocinadores inclui desde marcas tradicionais, como Adidas, Coca-Cola e Unilever, até instituições financeiras, empresas de petróleo, tecnologia e governos, como Bank of America, Verizon, Qatar Airways e Aramco.

Essa composição revela uma mudança significativa: o Mundial deixou de ser apenas uma vitrine para grandes multinacionais e passou a incluir também empresas estatais, instituições financeiras e grupos que fazem parte da estratégia internacional de seus países. A transformação é visível nos números. Para o ciclo de 2023 a 2026, a FIFA projeta arrecadar até US$ 13 bilhões, mais de cinco vezes o total registrado duas décadas atrás. No mesmo período, as receitas provenientes de direitos de marketing aumentaram de US$ 560 milhões para uma estimativa de US$ 1,8 bilhão.

Registrada na Suíça como uma associação sem fins lucrativos, a FIFA afirma que reinveste esses recursos no desenvolvimento do futebol. Contudo, ao longo da última década, a entidade também enfrentou crises relacionadas à corrupção e à transparência na gestão desse dinheiro, o que levou à implementação de novas regras de controle e fiscalização. Além do crescimento da arrecadação, a maneira de comercializar a Copa também se transformou. Nos últimos vinte anos, a FIFA reestruturou a venda dos espaços comerciais do torneio, aumentando as categorias de patrocínio e permitindo a participação de um número maior e mais diversificado de empresas.

Quando a Copa virou um negócio global

Segundo Flávio de Campos, professor da pós-graduação em História Social do Futebol da USP e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), a transformação da Copa em uma plataforma global de negócios começou a se intensificar na década de 1970. O pesquisador explica que o antecessor de João Havelange na presidência da FIFA, Stanley Rous, já defendia uma maior aproximação da entidade com empresas. Com a eleição do dirigente brasileiro, em 1974, esse modelo foi ampliado. “A partir daí, a Copa se consolidou como uma grande vitrine para negócios e publicidade, com a aproximação da FIFA das empresas e o fortalecimento do marketing em torno do torneio.”

As mudanças iniciadas naquele período abriram caminho para o aumento das receitas da FIFA nas décadas seguintes. Mais do que a popularidade crescente do torneio, foi a própria forma de vender os espaços comerciais que mudou, permitindo aumentar a presença de empresas e diversificar as fontes de arrecadação. Até o início dos anos 2000, o patrocínio era mais concentrado e contava com um número menor de empresas. A partir dos ciclos de 2010 e 2014, a FIFA consolidou um modelo que passou a organizar os patrocinadores em diferentes categorias, ampliando as possibilidades de participação no torneio.

  • 🏅 No topo estão os FIFA Partners, empresas com direitos globais e contratos de longo prazo válidos para várias competições da entidade.
  • 🏆 Em seguida, vêm os patrocinadores da Copa, com direitos limitados ao Mundial específico.
  • 📍 Na base, estão apoiadores regionais e fornecedores locais.

Governos entram no jogo comercial

A ampliação das categorias de patrocínio não apenas aumentou o número de empresas na Copa. Ela também abriu espaço para um novo perfil de patrocinadores, incluindo companhias estatais e empresas ligadas a governos. Essa mudança, no entanto, ocorreu de maneira gradual. Nas Copas realizadas entre 2006 e 2014, a principal estratégia de projeção internacional ainda estava concentrada nos países anfitriões. Mais do que organizar partidas, Alemanha, África do Sul e Brasil aproveitaram o torneio para reforçar, perante o mundo, atributos como estabilidade, capacidade de organização e potencial econômico.

Segundo Campos, para países emergentes, sediar uma Copa representava uma oportunidade de aumentar a visibilidade internacional e atrair investimentos. No caso dos integrantes dos BRICS que receberam o torneio, o objetivo era apresentar economias em desenvolvimento e abertas a novos negócios. A África do Sul buscou mostrar ao mundo um país reconstruído após o apartheid, enquanto o Brasil queria se projetar como um lugar de oportunidades, superando décadas marcadas por ditadura e crises econômicas. “Na época da Copa de 2014, falava-se muito na ideia de uma ‘janela de oportunidades’ e no legado do torneio. O evento permitiu apresentar países como Brasil e África do Sul como lugares de oportunidades, proporcionando uma visibilidade internacional que dificilmente alcançariam por outros meios”, afirma o historiador.

Naquele período, embora multinacionais como Adidas, Coca-Cola e Visa ocupassem as principais cotas comerciais da FIFA, a imagem promovida pelo torneio ainda estava concentrada, sobretudo, no país-sede. Esse equilíbrio começou a mudar a partir da Copa da Rússia, em 2018. Além de sediar o Mundial, o país passou a ocupar espaço na própria estrutura comercial da FIFA através da Gazprom, estatal de energia que se tornou parceira global da entidade. Quatro anos depois, o Catar ampliou essa estratégia ao incluir duas empresas diretamente ligadas ao governo — Qatar Airways e QatarEnergy — entre os principais patrocinadores do torneio.

Para Campos, esse movimento indica que o patrocínio deixou de ter apenas uma função comercial e passou a integrar a estratégia internacional de alguns governos. 🏟️ É o chamado “sportswashing”, conceito utilizado para descrever o uso do esporte como ferramenta para melhorar a imagem de países, governos ou empresas, frequentemente desviando a atenção de problemas políticos, sociais ou relacionados aos direitos humanos. “No caso do Catar, havia uma tentativa de contrabalançar a imagem de uma monarquia autoritária, marcada por denúncias de tortura, homofobia, machismo e pela dependência do petróleo em um momento de crise climática. A Rússia também utilizou o torneio nessa lógica de projetar uma imagem mais favorável no cenário internacional.”

Do soft para o hard power

A Copa de 2026 representa uma nova fase nessa disputa por influência internacional. Pela primeira vez, o torneio será realizado em três países — Estados Unidos, Canadá e México —, enquanto reúne patrocinadores de diferentes setores da economia e empresas ligadas a governos. Essa configuração diminui o protagonismo que, em outras edições, costumava ficar concentrado no país anfitrião. Agora, a competição por visibilidade ocorre também entre empresas e Estados que ocupam espaço dentro da própria estrutura comercial da FIFA.

A Arábia Saudita é um dos exemplos desse movimento. O país passou a ocupar a categoria mais alta de patrocínio da entidade através da Aramco, petrolífera controlada pelo governo saudita. 💰 De acordo com um estudo da Human Rights Foundation, o contrato firmado entre a empresa e a FIFA é estimado em cerca de US$ 100 milhões por ano, entre 2024 e 2034. 📈 Avaliada em aproximadamente US$ 1,88 trilhão após sua abertura de capital, a Aramco faz parte de uma estratégia mais ampla do reino, que inclui cerca de 300 patrocínios esportivos vinculados principalmente ao Fundo de Investimento Público (PIF).

Para Campos, no entanto, a principal novidade da Copa de 2026 vai além da entrada de novos patrocinadores. Isso porque o capital americano sempre esteve presente na estrutura comercial do torneio através de empresas multinacionais e de seus acionistas, mesmo quando os patrocinadores oficiais não representavam diretamente o governo dos EUA. “Em outros países, a FIFA conseguiu impor condições que chegaram a relativizar legislações nacionais. Nos EUA, prevalece o poder do império; eles utilizam seu poder político e militar para estabelecer as próprias regras, inclusive em questões diplomáticas relacionadas ao torneio.”

Na visão de Campos, essa postura demonstra que a disputa em torno da Copa deixou de envolver apenas interesses econômicos e passou a refletir também disputas geopolíticas. Com o avanço econômico e tecnológico da China, afirma o historiador, os EUA passaram a recorrer com maior intensidade ao chamado “hard power” — o uso do poder político e militar para preservar sua influência internacional. Para ele, essa lógica também se manifesta na organização da Copa. “Houve casos de tratamento preconceituoso dado a delegações de países como o Iraque, além de seleções africanas e sul-americanas, incluindo a proibição de que a delegação do Irã permanecesse em território americano após a realização de suas partidas.”

Integrantes da equipe de apoio carregam letras que formam a palavra “FIFA” antes da partida entre Bélgica e Senegal, pela Copa do Mundo de 2026, no Seattle Stadium, em Seattle (EUA).

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Em Foco Hoje Redação
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