IA impulsiona exportações mexicanas para EUA e dificulta cruzada comercial de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante um pronunciamento em 16 de julho de 2026. Saul Loeb/Pool via AP. O desenvolvimento da inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos tem acelerado as exportações mexicanas de equipamentos tecnológicos avançados. Esse crescimento ocorre em um momento em que a administração de Donald Trump busca diminuir a dependência do país em relação ao acordo de livre comércio da América do Norte, o T-MEC.
Trump está pressionando por uma reformulação do tratado com o intuito de reduzir o déficit comercial dos EUA em relação ao Canadá e ao México. Contudo, o robusto aumento das exportações mexicanas de equipamentos de informática tem gerado o efeito oposto. Ao expandir o superávit comercial do México, o setor intensifica a tensão para uma nova rodada de negociações do T-MEC, que se inicia nesta terça-feira (21), na Cidade do México.
Entre janeiro e abril, o México viu suas vendas desses produtos para os Estados Unidos triplicarem em comparação ao mesmo período de 2025. As exportações ultrapassaram US$ 50 bilhões — aproximadamente R$ 254 bilhões, na cotação atual —, enquanto as importações totalizaram US$ 2,23 bilhões, ou R$ 11,3 bilhões, conforme cálculos da AFP com base em dados oficiais.
O governo está preparando um auxílio gradual para as empresas que foram impactadas pelas tarifas. O setor já representa mais de 30% das exportações mexicanas para os Estados Unidos, que é o principal parceiro comercial do México. Assim, ele superou a indústria automobilística, que por muitos anos foi a maior beneficiária do T-MEC e atualmente enfrenta os efeitos das tarifas impostas por Trump.
“É um marco, em grande parte devido à demanda da indústria eletrônica avançada relacionada à IA”, declarou à AFP Diego Flores, que é responsável pelas indústrias eletrônicas e digitais da Secretaria de Economia do México. O segmento, que abrange tecnologias como unidades de processamento e equipamentos para centros de dados, não está na pauta desta rodada de negociações.
Entre os produtos mais buscados estão os chassis que acomodam as placas de processamento de IA, componentes fundamentais para os centros de dados que se proliferam em estados americanos como Arizona e Texas. O principal polo exportador é Jalisco, conhecido como o “Vale do Silício mexicano”. O estado abriga grandes empresas globais do setor e um ecossistema de startups, conforme Flores.
A taiwanesa Foxconn fabrica chassis em Jalisco e é parceira estratégica da fabricante americana de chips Nvidia. Em março, a empresa anunciou investimentos de US$ 137 milhões — cerca de R$ 697 milhões — em duas subsidiárias mexicanas, após prever que sua produção poderá dobrar neste ano. “Estados Unidos e México continuarão sendo nossos principais centros de produção”, afirmou o diretor-executivo da empresa, Michael Chiang. Ele também revelou que a companhia investirá 30% a mais do que em 2025 para aumentar sua capacidade relacionada à inteligência artificial.
Com a demanda em alta, a Flextronics, outra empresa do setor localizada em Jalisco, teve que utilizar áreas de estacionamento para expandir sua capacidade produtiva, segundo Flores. No entanto, esse crescimento ocorre em um cenário político incerto. O governo Trump rejeitou a extensão do T-MEC por mais 16 anos e optou por submeter o acordo a revisões anuais. Além disso, a administração americana insiste que mais produtos sejam fabricados nos Estados Unidos, mesmo com o aumento contínuo da dependência das importações do México, de Taiwan e da China para fomentar o avanço da inteligência artificial.
Washington também busca restringir o uso de tecnologia asiática na América do Norte, conforme William Jackson, economista da Capital Economics. “O governo Trump precisa equilibrar a demanda por essas tecnologias com a necessidade de manter o país na vanguarda do desenvolvimento da IA”, declarou Jackson à AFP. Para ele, “as tarifas poderiam prejudicar esse objetivo”. O desafio de conciliar a preservação de uma indústria em rápida expansão com o discurso protecionista deixa o setor “muito facilmente na linha de fogo”, acrescentou.
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