Edifício Planalto: projeto de Artacho Jurado que coloriu São Paulo

O Edifício Planalto, projetado por Artacho Jurado, é um marco da arquitetura paulistana, destacando-se por suas cores vibrantes e design ousado.

Edifício Planalto: a história do projeto de Artacho Jurado que coloriu São Paulo

Localizado no coração da capital paulista, o edifício desafiou a paleta cinza que predominava na arquitetura modernista dos anos 1950 com suas pastilhas vibrantes e marquises.

Durante o auge do mercado imobiliário na década de 1950, o centro de São Paulo recebeu o Edifício Planalto. Concebido por Artacho Jurado (1907–1983), arquiteto autodidata e empresário, o prédio se destacou ao mesclar estilos e aplicar pastilhas coloridas na esquina das ruas Maria Paula e Santo Amaro. Com mais de sessenta anos de história, é um dos ícones arquitetônicos mais reconhecidos da cidade. Ao nomear sua nova obra, Artacho prestou homenagem ao Planalto Central, refletindo o entusiasmo da época com a construção de Brasília. A escolha de nomes geográficos imponentes também funcionava como uma estratégia de marketing para conferir status aos imóveis que projetava. Além disso, o nome combinava com o principal atrativo do projeto: a cobertura monumental com terraço e vista panorâmica. O icônico Edifício Planalto apresenta janelas retangulares e varandas contínuas em uma fachada segmentada que direciona o olhar ao topo, onde a cobertura curvada consagra a identidade visual inconfundível de Artacho Jurado.

O conceito de um prédio inovador

O Edifício Planalto surgiu da visão arrojada de Artacho Jurado e foi edificado por sua empresa, a Monções Construtora e Imobiliária S.A., entre 1951 e 1956. Sem formação acadêmica em Arquitetura, ele expressava suas ideias livremente, contratando engenheiros para formalizar as plantas. Encantado pela vivacidade, luz e cores do Rio de Janeiro em seu auge cosmopolita, ele buscou trazer essa atmosfera ensolarada para a torre paulistana. Inspirado pela integração das varandas cariocas e pela iluminação natural, criou uma estética marcante e inovadora, que contrastava com a opacidade urbana da capital paulista na época. Com um design ousado, o edifício se destaca na vizinhança por suas varandas, pastilhas coloridas e terraço, inspirados na arquitetura e estilo de vida descontraído do litoral carioca.

Essa proposta desafiou as normas estabelecidas ao confrontar a sobriedade do modernismo paulista. Enquanto arquitetos da Escola Paulista, como Vilanova Artigas (1915 –1985), apostavam no concreto aparente e na rigidez geométrica, Artacho optou por uma arquitetura vibrante. Sua estética descontraída ia na contramão das ideias defendidas pelos intelectuais da época. Embora oferecesse o glamour e as áreas de lazer típicas de prédios de alto padrão, o Edifício Planalto foi projetado visando a classe média em ascensão. A construtora promovia as unidades com forte apelo publicitário, comercializando-as como um ‘luxo a prestações de longo prazo’. Os blocos funcionam como uma única edificação contínua na altura, interligados e compartilhando a mesma fachada célebre com varandas contínuas.

Características técnicas do ícone de concreto

Construído em estrutura de concreto armado, o condomínio possui 21.960 m² de área construída em um terreno de 1.486 m². O projeto estrutural foi elaborado e assinado pelo engenheiro Giunio Patella (1904–1974). O complexo ocupa toda a quadra e é dividido em três blocos: Santo Amaro, Maria Paula e Genebra, nomeados em homenagem às ruas que cercam o conjunto. Sua volumetria se distribui em 26 andares: 24 pavimentos residenciais, um salão de festas no 24º andar e, no 25º, um terraço técnico e de lazer. Ao todo, o edifício abriga 294 apartamentos, com áreas que variam entre 44 m² e 127 m². Nos fundos da estrutura, as moradias são conectadas por um corredor de serviço compartilhado. Além disso, o fluxo interno conta com um sistema de 10 elevadores estrategicamente posicionados para garantir a circulação vertical e a privacidade dos moradores. A forte marcação horizontal das passarelas do Edifício Planalto destaca a fusão de estilos e o dinamismo estético de Artacho Jurado, transformando o ritmo das linhas e o vão central em elementos de grande impacto visual.

A fusão de estilos e a ousadia cromática

Visualmente, o prédio se distancia da ortodoxia dos anos 1950 ao combinar o Modernismo Popular com elementos de art déco, referências hollywoodianas e influências do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright (1867 –1959). Sua famosa fachada se destaca pelas varandas contínuas em linhas dinâmicas e onduladas, adornadas com pastilhas coloridas e marquises sinuosas. Essa mescla de formas remete aos resorts que Artacho tanto admirava. O Edifício Planalto colore a paisagem paulistana ao harmonizar as paredes em rosa pastel com o azul vibrante da cobertura e das sacadas, criando um contraste com a torre vertical em tom ocre, como um manifesto alegre contra o cinza da cidade.

O grande destaque do projeto reside na composição cromática da fachada: o fundo das varandas em rosa pastel valoriza as sacadas, enquanto a marquise superior em azul vibrante cria um contraste marcante. Essa estrutura é atravessada por uma torre vertical em tijolos ocres e incorpora cobogós geométricos — elementos vazados que favorecem a ventilação natural e criam jogos de luz e sombra nas áreas comuns. Artacho desenvolveu uma arquitetura muito característica: informal, mas com elementos da arquitetura moderna. Com o tempo, ele foi se arriscando, adicionando uma cor aqui, outra ali, resultando em um resultado interessante. O Edifício Planalto também oferece uma vista panorâmica de São Paulo a partir de seu terraço, que abraça a escala humana em um desenho acolhedor, cujo acesso é restrito aos moradores e aberto ao público apenas em eventos culturais e locações.

A escala humana do ícone de concreto

A circulação do prédio foi projetada para se conectar diretamente com a cidade. O térreo abriga uma área comercial totalmente integrada à rua. Era comum incluir comércio no térreo dos edifícios, pois ainda não havia a preocupação com garagens. Artacho optava por colocar a garagem no subsolo ou, como no Planalto, aproveitava a vizinhança e implantava comércio no térreo. O modelo comercial adotado trouxe benefícios práticos imediatos e antecipou conceitos modernos de planejamento urbano. Curiosamente, hoje existe o que se chama ‘fachada ativa’, ou ‘fachada viva’, como os urbanistas classificam. Sem querer, ele já previa o futuro. Além disso, essa estratégia gerava renda para o condomínio, impactando diretamente o custo condominial dos moradores.

A vista panorâmica de 360º na cobertura do Edifício Planalto, no 25º andar, permite a observação de diversos marcos históricos da paisagem urbana do centro de São Paulo.

A integração com o espaço urbano se estende até o topo da estrutura, onde o projeto abriga uma infraestrutura de lazer compartilhada entre os moradores. Essa área de convivência tem início no 24º pavimento, com um salão de festas — um amplo pavilhão envidraçado, revestido com piso de madeira nobre, originalmente concebido para receber bailes e recepções sociais. Artacho acreditava que viver em condomínio era uma experiência harmoniosa e que as pessoas iriam se reunir. Para isso, era necessário haver uma área comum. Assim, ele optava por um salão de festas no lugar de apartamentos no térreo; quando não era no térreo, era na cobertura. A proposta visava exclusivamente o lazer e a contemplação.

O terraço do icônico Edifício Planalto é uma área comum histórica, célebre por sua vista panorâmica privilegiada. Atualmente, o acesso permanece restrito aos moradores, sendo aberto apenas em ocasiões culturais especiais.

Logo acima, o terraço panorâmico no 25º andar funciona como mirante, oferecendo uma visão de 360 graus do centro paulistano. No projeto original, havia até uma ducha coletiva para os dias ensolarados, que hoje não existe mais.

Importância do Edifício Planalto

Em 2002, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (CONPRESP) iniciou o processo e ratificou o tombamento do prédio de forma definitiva. Essa ação inseriu legalmente a obra de Artacho Jurado na lista de bens preservados, garantindo a proteção de suas características originais para as futuras gerações. Simultaneamente, o forte simbolismo do edifício alcançou o audiovisual e transformou o espaço em um cenário de destaque na cultura pop paulistana. Essa trajetória começou com as filmagens do documentário Domésticas (2001) e continuou com a série Aline (2008). Anos depois, serviu de inspiração para o cenário principal da novela Amor à Vida (2013). Em agosto de 2016, o 60º aniversário de sua construção foi celebrado com a exposição Edifício Planalto: 60 anos de cor em São Paulo, realizada no saguão do prédio. A mostra resgatou a história do endereço por meio de esboços originais do arquiteto e memórias compartilhadas pelos moradores. Recentemente, em 2024, a torre foi protagonista da produção independente Edifício Planalto – O Documentário, dirigida por Roviglio Cordenonsi, que explora a relação de seus moradores artistas com o local. Como uma das principais intervenções da reforma, o terraço do Edifício Planalto passou pelo esvaziamento e remoção do antigo jardim de terra para sanar infiltrações crônicas na laje da cobertura.

Processo de restauro e conservação

Com as diretrizes de preservação estipuladas pelo CONPRESP, a manutenção do condomínio passou a exigir um planejamento detalhado. Por exemplo, para diluir custos e minimizar transtornos aos moradores, a administração optou por reformas em etapas entre 2013 e 2014, com laudos técnicos e intervenções urgentes no topo da estrutura, incluindo a remoção do antigo jardim de terra para eliminar infiltrações crônicas. Obras significativas na fachada ocorreram de 2015 a 2017, após a aprovação dos órgãos de patrimônio. Nesse período, foi realizada uma lavagem profunda das paredes e o tratamento das ferragens expostas nas varandas, além da reposição das pastilhas caídas ao longo dos anos, utilizando peças que respeitavam o tamanho, brilho e tonalidade do projeto original de 1956. A partir de 2018, as frentes de trabalho passaram a focar na finalização estética das áreas comuns. Essa fase incluiu a instalação do novo piso do terraço panorâmico, a restauração do salão de festas e a manutenção dos vitrais do hall de entrada. O plano consolidou a conservação permanente, mantendo o Edifício Planalto como uma referência viva no centro de São Paulo. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…

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Em Foco Hoje Redação
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