Aumento na autoexclusão de apostas durante a Copa

O Brasil viu um aumento significativo no número de pedidos de autoexclusão de apostas durante a Copa do Mundo, com dados alarmantes.

Aumento significativo de pedidos de autoexclusão

O Brasil registrou um crescimento expressivo no número de solicitações de autoexclusão em plataformas de apostas online, conhecidas como ‘bets’, durante a Copa do Mundo. Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda mostram que, nas duas primeiras semanas do torneio, houve um aumento de 588% na média diária de pedidos de autoexclusão em comparação com um período similar do mês de maio, antes da competição.

Entre 15 e 28 de junho, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, administrada pelo governo federal, recebeu 250.129 solicitações de bloqueio ou prorrogação de bloqueios feitas por usuários. Após serem processados, esses pedidos impedem que os indivíduos utilizem seus CPFs para realizar apostas em plataformas legalmente autorizadas. Isso resulta em uma média de 17.866 pedidos por dia nesse período. Para comparação, de 11 a 25 de maio, antes do início do torneio, foram contabilizados 38.907 pedidos em 15 dias, resultando em uma média de 2.594 por dia.

A Copa do Mundo teve início em 11 de junho, mas os dados fornecidos pela SPA referem-se apenas ao período entre os dias 15 e 28 daquele mês. Os números completos do torneio ainda estão sendo compilados. Também estão sendo monitorados os registros de novos usuários que se inscreveram para apostar durante a competição.

Especialistas consultados atribuem parte do aumento nos pedidos de autoexclusão ao receio dos apostadores em agravarem problemas relacionados ao jogo compulsivo, especialmente em um evento que, neste ano, foi caracterizado pela intensa publicidade de apostas devido à regulamentação do setor em 2023. Esta foi, portanto, a primeira Copa do Mundo com o mercado de apostas regulamentado no Brasil.

Segundo essas entidades, uma parte dos pedidos pode ter sido feita por pessoas que ainda não apresentavam um quadro de compulsão, mas que optaram por se proteger para evitar ingressar ou se aprofundar nesse universo.

Para a SPA, o crescimento é resultado de uma combinação entre a maior exposição do público às apostas durante o torneio, a divulgação da plataforma de autoexclusão entre usuários e o aumento da conscientização sobre os riscos financeiros e emocionais associados ao jogo. Representantes do setor de apostas legalizadas afirmam que o aumento nos pedidos de autoexclusão deve ser analisado com cautela e não necessariamente indica um aumento nos casos de jogo compulsivo.

Em comunicados enviados, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmam que o crescimento também reflete a maior divulgação da ferramenta, seu uso preventivo pelos usuários e a ampliação dos mecanismos de proteção disponíveis no mercado regulado.

Dados alarmantes sobre autoexclusão

Em números absolutos, foram registrados 211.222 pedidos a mais de autoexclusão durante o período analisado pela SPA em relação ao intervalo anterior. Essa diferença ocorreu mesmo com o recorte de junho tendo um dia a menos: foram 14 dias, entre 15 e 28 de junho, contra 15 dias no período de 11 a 25 de maio.

As informações também revelam uma mudança nos motivos que levaram os usuários a solicitar o bloqueio. Antes da Copa, o principal motivo para a autoexclusão era a perda de controle sobre o jogo, conforme o ranking abaixo:

  • perda de controle sobre o jogo (43,56%)
  • motivo não informado (16,1%)
  • dificuldades financeiras (14,07%)
  • decisão voluntária (12,68%)
  • prevenção contra uso de dados (12,08%)
  • recomendação médica (1,52%)

Durante a Copa, o principal motivo alegado para a autoexclusão foi a prevenção contra o uso irregular dos dados pessoais por empresas de apostas:

  • prevenção contra uso de dados (29,5%)
  • perda de controle sobre o jogo (24,13%)
  • decisão voluntária (18,93%)
  • motivo não informado (15,31%)
  • dificuldades financeiras (10,91%)
  • recomendação médica (1,22%)

Para as entidades que monitoram os impactos das apostas, essa mudança de perfil sugere que o aumento da autoexclusão não ocorreu apenas entre pessoas que já enfrentavam problemas relacionados ao jogo compulsivo. Parte dos novos pedidos, segundo essas organizações, pode ter vindo de usuários que decidiram se bloquear preventivamente diante da maior exposição às apostas durante a Copa do Mundo e do temor de que seus dados sejam utilizados de maneira indevida por essas empresas.

Os dados também mostram que a maioria dos usuários optou por um bloqueio sem prazo para término. Antes do início da Copa, 62,13% solicitaram a autoexclusão por tempo indeterminado. Durante o torneio, esse percentual subiu para 63,53%.

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão foi lançada pela SPA em dezembro de 2025 e permite que um cidadão bloqueie, com um único comando, o acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas pelo governo federal. Isso evita que o usuário consiga se bloquear em uma plataforma, mas fique livre para jogar em outra. A SPA afirmou em nota que “a combinação entre informação, conscientização e maior divulgação da ferramenta tem contribuído para ampliar o alcance do instrumento e fortalecer a proteção dos cidadãos”.

Medo de perder o controle

Lucas Louback, gestor de incidência política e campanhas da organização não-governamental Bonde e coordenador da campanha “Brasil contra Bets”, comentou que o aumento no número de pedidos de autoexclusão é um indicativo do quanto as apostas se tornaram populares durante a Copa. “Os dados são alarmantes e mostram o quanto a compulsão por apostas tem se espalhado na vida de milhões de brasileiros”, afirmou.

Ele destacou que a centralidade do futebol e da Copa do Mundo na cultura brasileira criou uma oportunidade valiosa para as empresas de apostas. “A Copa do Mundo concentra a atenção do país porque o futebol é uma paixão nossa. Mas essa paixão passou a ser disputada pela publicidade de apostas”, disse.

O aumento dos anúncios de casas de apostas durante as transmissões das partidas chamou a atenção neste ano e tornou o período particularmente desafiador para indivíduos com transtorno do jogo. Bruno, que solicitou a autoexclusão há cerca de dois meses, sentiu a necessidade de se isolar após o início da Copa. “Não consegui me reunir com a família. Me convidaram para churrasco, mas eu não tinha vontade”, relatou o engenheiro, que desde o final do ano passado está em tratamento para superar o vício em apostas e pediu para que seu nome verdadeiro fosse mantido em sigilo nesta reportagem. “Eu dizia que não estava confiante no Brasil, usava isso como desculpa.” Ele apostou durante dois anos e perdeu R$ 122 mil em apostas no futebol, seu esporte favorito. Endividou-se a tal ponto que, em determinado momento, não conseguia mais pagar a mensalidade de sócio-torcedor do São Paulo. “Hoje eu nem gosto mais de futebol”, desabafou. “Nunca mais fui ao estádio. Não uso uma camisa que tenha o nome de nenhuma aposta, e isso eu levarei para minha vida”, contou à reportagem.

Para Louback, o aumento dos pedidos pode indicar que parte dos usuários percebeu que aquele período poderia levá-los à perda de controle sobre o hábito de apostar. “É positivo que essas pessoas tenham encontrado um mecanismo para interromper um comportamento que estava se tornando compulsivo. Mas, ao mesmo tempo, é alarmante que tantas pessoas tenham sentido a necessidade de recorrer a essa ferramenta em um período tão curto”, afirmou.

L.C.S. é relações públicas do grupo Jogadores Anônimos. Seu nome foi omitido a pedido dele para atender a uma regra do grupo. Ele também afirma que o aumento no número de pedidos de autoexclusão está relacionado ao receio da perda de controle sobre o jogo. Ele relata que, neste ano, pessoas que já haviam enfrentado prejuízos em copas anteriores, mesmo antes da regulamentação das apostas no Brasil, decidiram se proteger. “Foi o medo de quebrar. Muitas pessoas, antes de chegar ao meio da Copa, já tentaram se precaver e ficar fora do jogo”, disse.

Para o porta-voz dos Jogadores Anônimos, o pedido de autoexclusão pode representar um momento de “lucidez” de alguém que sabe ou sente o risco de se perder novamente. “Qualquer passo que a pessoa der nessa direção significa que ela está tentando se salvar. Quem sabe seja também um pedido de socorro”, comentou. Ele considera positiva a procura pela plataforma, mas também ressalta que o número de autoexcluídos ainda é pequeno em comparação com a quantidade total de pessoas expostas às apostas. De acordo com o Ministério da Fazenda, o Brasil tem pelo menos 25 milhões de apostadores cadastrados, o que representa pouco mais de 10% da população brasileira, estimada em cerca de 210 milhões de habitantes. Além disso, a receita bruta das apostas legalizadas no Brasil foi de R$ 37 bilhões. Estimativas da consultoria Regulus Partners apontam que o Brasil se tornou, em 2025, o quinto maior mercado de apostas do mundo.

Impacto após a Copa

A presença de anúncios de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo gerou repercussão em todo o país e mobilizou governos locais e o governo federal em meio ao ano eleitoral. Na semana passada, por exemplo, o governo federal introduziu novas diretrizes para a publicidade das apostas, obrigando as empresas a incluir alertas de que apostar pode resultar em perdas financeiras, pode causar dependência e não é um investimento. Além disso, publicidades que induzam a apostas com base na suposta expertise de comentaristas, especialistas ou influenciadores foram proibidas. Estados e municípios também começaram a adotar medidas para restringir a publicidade das casas de aposta.

Apesar do aumento nos pedidos de autoexclusão, as entidades consultadas acreditam que parte dos efeitos da Copa aparecerá somente após o término da competição. L.C.S. menciona que, antes de buscar ajuda especializada, as pessoas com transtorno do jogo compulsivo geralmente tentam reverter os prejuízos apostando ainda mais, o que agrava a situação. “Esse problema vai aparecer, mas não será imediatamente. Pode levar alguns meses. Normalmente, é só quando tentam algo extremo, como tirar a própria vida, que se dão conta de que precisam de ajuda”, afirmou.

“O problema vai aparecer, com certeza. Mas também não será de imediato. Vai levar tempo.” Segundo ele, os Jogadores Anônimos já estão se preparando para receber mais pessoas nos próximos meses. O representante do grupo comenta que o número de salas dos Jogadores Anônimos no Brasil aumentou de aproximadamente 30, há cerca de sete anos, para mais de 70 atualmente. Ele ainda menciona que os locais de reunião do grupo podem ser encontrados online e que há encontros diários virtuais para aqueles que não conseguem comparecer presencialmente.

Para Louback, a Copa pode ter acelerado um processo que ele descreve como “normalização” das apostas que já estava em andamento no país. “A autoexclusão é uma resposta importante, mas atua quando o problema já surgiu. O que precisamos discutir é como evitar que cada vez mais brasileiros cheguem a essa situação”, defendeu.

Louback propõe restrições mais rigorosas à publicidade das empresas de apostas e menciona um projeto de lei que visa limitar esse tipo de propaganda. O projeto foi apresentado por um grupo de 20 deputados e deputadas federais em maio deste ano, mas ainda não avançou na Câmara. O coordenador da campanha “Brasil contra Bets” também alerta que a autoexclusão não substitui políticas de prevenção, atendimento em saúde e combate ao endividamento.

A ANJL afirmou que os dados de autoexclusão precisam ser analisados considerando que a plataforma pode ser utilizada por qualquer cidadão, independentemente de já apostar ou não. “É fundamental que os dados sejam contextualizados com o universo de pessoas que podem usar a plataforma de autoexclusão do governo e com os milhões de brasileiros que, infelizmente, têm apostado em sites ilegais”, disse a entidade.

O IBJR, por sua vez, avaliou que o aumento dos pedidos é um sinal positivo. “O aumento dos pedidos de autoexclusão demonstra que essa ferramenta está sendo utilizada pelos apostadores, o que é encorajador. Ela foi criada para permitir que aqueles que reconhecem a necessidade de interromper ou limitar sua atividade possam fazê-lo de maneira simples e segura”, comentou a entidade. O IBJR também destacou que ferramentas como a autoexclusão estão disponíveis apenas nas plataformas autorizadas pelo governo federal, e não no mercado ilegal. Para mais notícias acesse emfocohoje.com.br. Confira também outros conteúdos em centralnerdverse.com.br.

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Em Foco Hoje Redação
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