São Tiago: por que 1º mártir do cristianismo se tornou símbolo de peregrinação
Em 1986, quando o escritor Paulo Coelho percorreu pela 1ª vez o Caminho de Santiago, cerca de 2,5 mil pessoas faziam o trajeto a cada ano; hoje são mais de 500 mil.
Santiago de Compostela se consolidou como um ponto crucial para peregrinações. Quarenta anos atrás, um escritor brasileiro ainda pouco conhecido caminhava, durante três meses, os 800 quilômetros de uma das rotas mais icônicas do Caminho de Santiago, que vai do sul da França até a catedral de Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha. Esse escritor era Paulo Coelho, e sua vivência resultou em dois de seus livros, O Diário de Um Mago e O Alquimista, elevando-o ao status de best-seller mundial. A notoriedade que a obra de Coelho alcançou contribuiu significativamente para que essa rota medieval de origem cristã se transformasse em um ícone místico e popular na atualidade.
“Postar no Instagram é a principal motivação para quem faz o caminho hoje”, observa o jornalista Felipe Mortara, que em 2015 percorreu os 800 quilômetros entre a cidade francesa de Saint-Jean-Pied-de-Port e Compostela. O crescimento é evidente nos números. Enquanto em 2015 Paulo Coelho foi um dos aproximadamente 2,5 mil peregrinos que realizaram a rota, atualmente, o número de caminhantes e ciclistas que passam por ali supera os 500 mil. O Escritório do Peregrino, da Catedral de Santiago de Compostela, registra essas estatísticas. Em 2025, foram 530.987 os que completaram o caminho — 32% relataram que peregrinaram por um mix de razões culturais e religiosas, 44% apenas por fé e 18% por motivos culturais e turísticos. No ranking nacional, brasileiros ocupam a 12ª posição, com quase 8,5 mil peregrinos no ano passado. Os espanhóis, devido à proximidade geográfica, lideram com 228 mil, seguidos por norte-americanos (44 mil), italianos (26 mil) e alemães (24 mil).
Para compreender como uma pequena cidade nos confins da Península Ibérica se tornou, ainda na Idade Média, um local de grande importância para a peregrinação cristã, é necessário voltar no tempo e entender a relevância de São Tiago, homenageado anualmente no dia 25 de julho, para o cristianismo, além de lembrar como o período medieval foi rico em lendas religiosas ligadas a relíquias e milagres.
Decapitado a mando de Herodes
É amplamente aceito que Tiago, também conhecido como São Tiago Maior, foi uma figura histórica real. “Sua existência histórica é bem fundamentada nas fontes do cristianismo primitivo, especialmente nos evangelhos e no livro dos Atos dos Apóstolos”, afirma o escritor e teólogo J. Alves, autor de Os Santos de Cada Dia. Tiago teria vivido há cerca de 2 mil anos, na mesma região pesqueira da Galileia onde Jesus pregava e encantava multidões. Provavelmente nascido em Betsaida, era pescador, assim como seu pai. De acordo com os relatos bíblicos, Tiago, seu irmão João e seu amigo Pedro foram os primeiros a deixar tudo para seguir Jesus, que era conhecido por sua fala cativante e apelo profético. O evangelista Marcos menciona que os irmãos Tiago e João eram chamados por Jesus de “boanerges”, que significa “filhos do trovão”. Esse apelido se deve ao comportamento impulsivo de ambos. “Provavelmente por conta do temperamento impetuoso dos dois apóstolos”, afirma o pesquisador Thiago Maerki, membro associado da Hagiography Society, nos Estados Unidos. Para Alves, essa expressão indica que o apóstolo não só tinha um temperamento forte, mas também um “ardor missionário”. É fato que Tiago, assim como Pedro e João, parece ter desempenhado um papel proeminente no movimento messiânico que levou ao surgimento do cristianismo. “Ele fazia parte do círculo mais próximo de Jesus”, diz Maerki.
São Tiago, em uma pintura de Rubens, realizada em 1612, aparece ao lado de seu mestre em momentos cruciais da narrativa bíblica, como no episódio da transfiguração e no relato da oração no Jardim das Oliveiras, horas antes da prisão e execução de Jesus. Embora pouco se saiba sobre sua biografia, o livro Atos dos Apóstolos o menciona como o primeiro mártir do cristianismo. Segundo o texto, ele teria sido decapitado a mando de Herodes Agripa I (10 a.C – 44 d.C), quando este governava a Judeia, entre os anos de 41 e 44. O livro bíblico relata que ele, Herodes, “fez perecer pelo fio da espada Tiago, irmão de João”. “Tornou-se o primeiro dos 12 apóstolos a derramar sangue em testemunho de Cristo”, afirma Alves. Embora o historiador Flávio Josefo (37-100), referência em estudos sobre a época, não mencione Tiago nominalmente, “sua descrição do reinado de Herodes Agripa confirma o contexto político e religioso em que […] teria ocorrido o martírio”. “Mesmo que não haja confirmação robusta da existência de Tiago, ele está em uma posição melhor [em termos de veracidade] do que a maioria dos santos da antiguidade”, explica Maerki. “Isso porque sua morte é narrada no próprio Novo Testamento.” O pesquisador ressalta que, como o livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito ainda no século 1º, “muito próximo dos acontecimentos, ao contrário de outros textos bíblicos escritos muito depois”, historiadores tendem a considerar suas narrativas como mais próximas da realidade. “A existência de Tiago e seu martírio em Jerusalém são pontos praticamente inquestionáveis”, conclui o pesquisador.
Um túmulo galego
Mas 5.716 quilômetros, por terra, separam Jerusalém, onde Tiago teria sido executado, de Santiago de Compostela, destino de peregrinos que vão venerar seu túmulo. Para especialistas, trata-se de uma história mais de fé do que de razão. Nos últimos anos, até mesmo o Vaticano passou a lidar com o tema de forma cautelosa. Em documentos recentes, a Igreja não se refere ao mausoléu galego como túmulo, mas como memorial em honra a São Tiago — reconhecendo, assim, a fé popular, mas sem se comprometer com as lacunas historiográficas. “O fenômeno religioso de Santiago de Compostela resulta da convergência entre tradição religiosa, piedade popular e contexto histórico”, argumenta Alves. “Sob o aspecto teológico, é importante lembrar que a Igreja Católica nunca definiu como dogma de fé que as relíquias veneradas em Compostela pertençam necessariamente ao apóstolo”, prossegue o teólogo. “O que a Igreja reconhece é a legitimidade de uma tradição secular de veneração que, ao longo dos séculos, gerou muitos frutos espirituais.” Existe uma antiga tradição cristã que diz que, após sua execução em Jerusalém, alguns amigos de Tiago teriam transportado seu corpo até a Galícia, onde ele teria sido sepultado. Além da imensa distância para a época, há outro problema com essa versão. Historiadores contemporâneos do cristianismo primitivo, como o professor André Leonardo Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmam que, na maioria das vezes, quem era executado não tinha corpo para ser enterrado. Os restos mortais eram deixados ao tempo, tornando-se alimento para abutres e outros animais — essa era uma forma do governo romano “passar a mensagem”, amedrontando possíveis opositores, e também dificultava que túmulos se tornassem pontos de peregrinação popular. Não interessava ao poder da época que figuras consideradas rebeldes fossem “endeusadas”. Contudo, a história de que Tiago estaria sepultado na Península Ibérica começou a circular na Idade Média, especialmente entre os séculos 7º e 9º, lembra Alves. “Referências mais consistentes começaram a surgir”, afirma ele. Foi nesse período que, segundo relatos medievais, um eremita teria observado luzes misteriosas sobre um antigo sepulcro. O bispo Teodomiro (?-847), ao ser informado, foi até o local e encontrou um sepulcro que, para ele, seria o de Tiago. A catedral de Compostela foi erguida ali, a mando do rei das Astúrias, Afonso II (759-842). Segundo a tradição popular, ele é visto como o primeiro peregrino a visitar o túmulo do santo. Há um contexto político envolvido. Segundo o pesquisador Maerki, as Astúrias buscavam, na ocasião, um símbolo religioso que conferisse prestígio social, político e militar. Essa conveniência pode ter levado o rei Afonso a não apenas validar a descoberta do bispo, mas também a reforçar sua importância. “É uma tradição que diz mais sobre o período medieval do que sobre questões de fé”, compara Maerki. “Mas isso não diminui a história, nem seu prestígio.” No compilado hagiográfico do dominicano Tiago de Voragine (1228-1298), arcebispo de Gênova, no século 13, o capítulo dedicado a São Tiago possui contornos lendários sobre o suposto traslado de seu corpo até a Galícia. Segundo o relato, os discípulos de Tiago teriam colocado o corpo em uma embarcação sem velas nem remos — e esta teria sido levada, por milagre, até a costa da Galícia. “Do ponto de vista historiográfico, não existem documentos que comprovem esse transporte”, destaca Alves. “A arqueologia confirma que sob a catedral existe de fato uma necrópole da época romana”, afirma Maerki. “Mas a identificação dos restos mortais é uma questão de fé, não de história.” O hagiólogo Maerki ainda menciona uma lenda medieval, presente em textos do final do século 6, que afirma que Tiago teria sido “o primeiro a evangelizar” a região da Espanha. No entanto, essa narrativa enfrenta problemas historiográficos e bíblicos. Maerki lembra que na carta aos Romanos, escrita pelo apóstolo Paulo de Tarso (5-68) pelo menos 10 anos após a morte de Tiago, ele menciona a intenção de ir para aquela região. “Isso sugere, em minha opinião, que nenhum cristão havia pregado ali”, conclui o pesquisador.
Fenômeno de fé e de cultura popular
Controvérsias à parte, o Caminho de Santiago se tornou um dos maiores fenômenos religiosos da Europa medieval. “Ao lado de Jerusalém e Roma, Compostela se tornou um dos principais centros de peregrinação da cristandade, promovendo o intercâmbio espiritual, artístico, cultural e econômico entre os povos europeus”, contextualiza Alves. “Entretanto, a autenticidade material das relíquias não é um objeto de fé dogmática. O centro da peregrinação cristã não reside, de fato, nas relíquias, mas na jornada espiritual de conversão, penitência e encontro com Cristo, do qual São Tiago se tornou um dos maiores símbolos na tradição do Ocidente cristão”, enfatiza o teólogo. A relevância das peregrinações a Compostela na Idade Média é evidenciada pela quantidade de textos da época que descrevem rotas, hospedarias e informações sobre os povos ao longo dos caminhos. “Esses textos funcionavam como uma espécie de guia para os peregrinos”, diz Maerki. Em sua pesquisa de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele estudou um pouco desse material. Em um artigo acadêmico publicado em uma revista da Universidade do Porto, em Portugal, Maerki analisa a viagem a Compostela realizada por Francisco de Assis (1182-1226). “Isso demonstra que essa peregrinação já era bastante conhecida na época”, afirma ele. Não há uma única rota. O jornalista Mortara destaca que a ideia é que cada um possa sair de sua casa e seguir até Compostela. Assim, em toda a Europa, existem muitos caminhos que convergem para as rotas consagradas, até que, no trecho final, há uma concentração maior de peregrinos. Em comum, todos costumam afirmar que a viagem transformou suas vidas. Em julho, o administrador de empresas Ronan da Cruz, de 42 anos, fez o caminho com um amigo e seu filho Martin, de 16 anos. “Apesar de não ser religioso, toda essa ideia de fazer uma peregrinação com um fundo espiritual, essa conexão foi intensa”, comenta. “Quando se tem um propósito e se reflete sobre todas as pessoas que já percorreram esse caminho e as dificuldades que enfrentaram, fica a mensagem de conforto de que existe um apoio divino que ajudará a superar os desafios.” Para alguns, Santiago representou uma mudança radical na vida. O brasileiro Acácio da Paz, considerado uma espécie de líder dos albergueiros, reside na pequena Viloria de Rioja desde 1999, onde mantém uma hospedaria. “São 28 anos aqui. Ao longo desse tempo, desenvolvi projetos relacionados ao universo da peregrinação: hospedagem, transporte de peregrinos, aluguel de bicicletas, logística de bagagens e organização de grupos internacionais”, relata. Paulo Coelho é um dos visitantes da pousada de Acácio da Paz, em Viloria de Rioja. “A decisão de deixar o Brasil surgiu a partir de uma experiência transformadora vivida no próprio caminho”, recorda. “Percebi que queria dedicar minha vida a esse ambiente de encontro humano, espiritual, cultural e hospitaleiro. O caminho acabou se tornando meu projeto de vida e propósito.” Com a perspectiva de quem fez o Caminho de Santiago por razões profissionais e não apenas pessoais, o jornalista Mortara reflete que a experiência trouxe clareza. “Peregrinar e penitenciar não são sinônimos”, observa. “O Caminho de Santiago é uma caminhada agradável, bonita, enriquecedora em termos históricos, culturais e gastronômicos. Há muita troca com pessoas de diversos lugares. Isso é poderoso.”
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