Viúvas mantêm viva tradição de acender fogueiras em honra a São Pedro na Bahia
No Nordeste, as festividades juninas dão origem a uma série de tradições únicas que culminam na segunda-feira (29), dia dedicado a São Pedro. No interior da Bahia, um costume interessante dos festejos em homenagem ao santo destaca-se: as fogueiras, acesas principalmente por mulheres viúvas, na véspera, em 28 de junho. Em cidades da região sudoeste do estado, como Macaúbas, Botuporã e Tanque Novo, essa tradição é majoritariamente feminina, embora homens viúvos também participem ocasionalmente. Contudo, moradores e historiadores da área indicam que essa prática tem diminuído nas últimas décadas, especialmente entre os mais jovens.
Maria Rosa Batista, de 71 anos, residente do povoado Curralinho, em Macaúbas, afirma que essa tradição existe desde muito antes de seu nascimento. Além de acender a fogueira, o ritual inclui o preparo de pratos típicos e é celebrado de maneira similar às festas de São João, com samba e bailes. ”Se na casa das viúvas houvesse outra família morando, eram feitas duas fogueiras — uma para São João e outra para São Pedro”, explica em entrevista.
As raízes históricas do costume
O professor Alan José Alcântara de Figueiredo, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), analisa a origem das fogueiras juninas, ligando-as a diversos grupos e santos. O historiador Uilson Magalhães Silva, professor da rede pública estadual de Botuporã, complementa que a tradição se originou na Península Ibérica e foi trazida ao Brasil pelos portugueses. De acordo com essa perspectiva, o ato de viúvas acenderem fogueiras no dia de São Pedro está associado à crença de que o santo teria sido viúvo — uma hipótese que gera debate entre estudiosos e na própria Igreja Católica. Apesar disso, essa interpretação se popularizou e ajudou na difusão da prática na região, especialmente pela forte influência do catolicismo. O historiador menciona que, no passado, as viúvas enfrentavam muitos preconceitos e estigmas sociais. Nesse cenário, a fogueira de São Pedro simbolizava não apenas um ato de fé, mas também uma afirmação de sua condição e pertencimento à comunidade. Já entre os homens, segundo ele, há uma tendência maior de se distanciar da identidade de viúvo. “Geralmente, parece que o viúvo está vaidoso, quer casar novamente, deseja esquecer que é viúvo. Por isso, não costuma falar sobre essa condição nem acender a fogueira. A viúva, por outro lado, muitas vezes vê de maneira diferente: ‘Sou viúva, essa é a minha condição, e vou acender a fogueira, sim’.”
Mulheres que mantêm a tradição viva
Olevina Auta, de 94 anos, acende a fogueira de São Pedro há mais de 40 anos. O hábito começou um ano após a morte de seu marido, seguindo a tradição, e continua até hoje. A aposentada recorda que, em sua juventude, participava de encontros com amigas e comadres, repletos de animação, comidas típicas e música. “Eu ia para a casa da finada Constância [amiga] e fazia a festa. Bebia café com bolo, o povo tocava sanfona e violão, e nós ‘pintava e bordava’, dançando escondido do meu finado padrinho Everaldo”, relembra, nostálgica. Atualmente, ela se esforça para manter o costume, reunindo filhos, netos e bisnetos ao redor da fogueira todos os anos.
Outra representante da tradição é Zulmira Dias, de 65 anos, que vive na comunidade de Pajeú, na zona rural de Botuporã. Ela acende a fogueira há 10 anos, começando um ano após a morte do marido, assim como Olevina. No começo, Zulmira hesitava em seguir a tradição, mas acabou se rendendo após a insistência dos filhos. Ela, no entanto, não considera a data uma comemoração. “Não é um dia animado, mas é uma data para celebrar a vida de quem ficou e lembrar de quem já se foi”. Por conta disso, Zulmira não permite fogos de artifício durante a confraternização, ao contrário de outras viúvas da comunidade.
Cultura segue viva como ato de resistência
Estudiosos e praticantes relatam que o ritual de acender fogueiras em homenagem a São Pedro é uma tradição que vem perdendo força nos últimos anos. Maria Rosa, por exemplo, observa que em Macaúbas as fogueiras são acesas especialmente por mulheres idosas. Muitas viúvas mais jovens não demonstram interesse em preservar o rito ou acabam se casando novamente, o que reduz o número de participantes. Olevina Auta, do mesmo povoado, também nota a falta de apoio familiar na preparação da fogueira.
Outros ritos para além da fogueira
O chamado ”tição” é retirado das fogueiras e guardado para proteger as casas contra chuvas fortes, conforme a tradição. Além das fogueiras, moradores de Pajeú e áreas vizinhas mantêm outro costume: a confecção de um adereço semelhante a uma coroa, feito com plantas locais, como marcela e erva-de-são-caetano. Essa coroa deve ser criada e utilizada antes do amanhecer, junto com água benta, simbolizando fé e devoção aos santos celebrados em junho. Segundo Zulmira e Maria Rosa, a coroa também é usada por quem deseja participar da prática de “rodar a fogueira”, um rito popular nos festejos juninos que representa purificação ou batismo. Outro elemento importante desse conjunto de rituais é o tição — um pedaço de lenha retirado da fogueira de São Pedro antes que as chamas o consumam completamente. Conforme a tradição popular, esse objeto é guardado para proteger as casas contra chuvas fortes, já que São Pedro é considerado o “santo das chuvas”.
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