Entenda o que é a gastrostomia, procedimento realizado por engano em idosa com câncer em Campinas

Jandira Marina Dias Braga, paciente com câncer, passou por uma gastrostomia por engano e faleceu três dias depois. Entenda o que é esse procedimento.

Entenda o que é a gastrostomia, procedimento feito por engano em idosa com câncer em hospital de Campinas

Jandira Marina Dias Braga, uma paciente de 76 anos diagnosticada com câncer, foi submetida a uma cirurgia destinada a outra pessoa no Hospital Beneficência Portuguesa, localizado em Campinas (SP), e faleceu três dias após o ocorrido. Jandira estava internada para tratar uma obstrução intestinal resultante da recidiva de um câncer de cólon quando, por engano, foi levada ao centro cirúrgico. Ela passou por uma gastrostomia endoscópica — um procedimento que não estava relacionado ao tratamento do câncer — e veio a falecer três dias depois. O hospital reconheceu o erro e, em comunicado, informou que instaurou uma sindicância interna para investigar o caso, além de ter adotado medidas administrativas contra os profissionais envolvidos.

Esse incidente levanta questionamentos sobre o que realmente é a gastrostomia, qual a sua finalidade e como o câncer de intestino é tratado. Os oncologistas Stephen Stefani e Fernando Maluf, médico no Einstein e cofundador do Instituto Vencer o Câncer, esclareceram alguns detalhes sobre a doença e o procedimento.

O que é a gastrostomia?

A gastrostomia consiste na criação de uma abertura na parede do estômago para a inserção de uma sonda. Por meio dessa sonda, é possível alimentar o paciente ou, em outros casos, drenar líquidos e conteúdos acumulados no estômago. Conforme Maluf, esse procedimento é geralmente indicado quando há um tumor na região abdominal, embora não necessariamente no intestino. Situações como câncer de ovário, que causa uma obstrução irreversível por cirurgia, são exemplos. Além disso, a gastrostomia é utilizada em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, onde a inflamação provocada pela radioterapia ou quimioterapia dificulta a deglutição, e em contextos paliativos, quando o paciente não consegue se alimentar por via oral.

Cirurgia não faz parte do tratamento

Os médicos ressaltam que a cirurgia é um suporte para o paciente, mas não é um tratamento para o câncer em si. “Esse é um recurso de suporte. Ele visa garantir a nutrição e o acesso ao estômago do paciente”, explica o oncologista Stephan Stefani. O tratamento do câncer de intestino adota uma abordagem diferente. De acordo com os especialistas, envolve a remoção do tumor e do tecido circundante. Após a cirurgia, é realizado o estadiamento, que avalia a extensão da doença. O resultado, combinado com o tipo de tumor identificado, determina se o paciente necessitará de tratamentos adicionais, como quimioterapia ou imunoterapia. A decisão varia conforme cada caso. Segundo a família de Jandira, ainda não havia uma decisão sobre a conduta a ser adotada. Ela estava internada devido à piora de seu quadro clínico, mas não havia uma definição médica sobre o tratamento do câncer.

O que é uma recidiva?

A recidiva refere-se ao reaparecimento do câncer após um tratamento que foi considerado bem-sucedido. Isso ocorre porque pequenos focos da doença — as chamadas micrometástases — podem permanecer no organismo mesmo após cirurgias, quimioterapia ou radioterapia, sem serem detectados pelos exames de imagem mais avançados. Com o tempo, que pode variar de meses a anos, essas células remanescentes se multiplicam e formam um novo tumor. De acordo com o oncologista Fernando Maluf, isso geralmente acontece porque alguma célula maligna não foi completamente eliminada durante o tratamento, principalmente em estágios mais avançados da doença. A recidiva pode se manifestar de três maneiras: na recidiva local, o câncer retorna ao mesmo local onde surgiu inicialmente; na recidiva regional, ele reaparece nos linfonodos próximos à região do primeiro tumor; e na recidiva à distância — ou metástase —, a doença retorna em outra parte do corpo, geralmente distante de onde começou, como quando um câncer de mama reaparece nos pulmões, fígado ou ossos. Jandira foi internada em junho devido a uma recidiva de câncer de cólon, que causou a obstrução intestinal.

Quais são os riscos de uma cirurgia em um paciente com esse quadro?

Jandira estava internada para tratar uma obstrução intestinal, consequência da recidiva do câncer de cólon. Pacientes idosos, com doenças crônicas e em recidiva de câncer chegam a qualquer procedimento cirúrgico em condições mais delicadas. Segundo Stefani, isso ocorre porque a capacidade imunológica já está comprometida e as funções vitais tornam-se mais sensíveis a qualquer intercorrência. O médico explica que a decisão de realizar uma cirurgia e qualquer intervenção é complexa, pois é necessário avaliar o risco em relação ao benefício. “Existem indicações específicas que devemos considerar para não correr o risco de prejudicar ainda mais o paciente”, esclarece.

O que diz o hospital

O Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas informou que identificou a ocorrência de um evento adverso relacionado à assistência prestada a uma paciente. Assim que a situação foi identificada, a instituição tomou as medidas assistenciais necessárias, comunicou os familiares e forneceu todo o suporte durante a assistência. A avaliação médica e técnica realizada após o incidente concluiu que o procedimento realizado não alterou o prognóstico da paciente. Desde a constatação do ocorrido, o Hospital instaurou uma sindicância interna para uma apuração rigorosa dos fatos, visando identificar as circunstâncias do incidente e revisar os protocolos de segurança adotados pela instituição. O caso já foi encaminhado aos conselhos profissionais competentes e medidas administrativas foram tomadas em relação aos profissionais envolvidos, incluindo desligamentos. Como resultado da apuração, o Hospital reforçou seus protocolos e fluxos de segurança assistencial, reafirmando seu compromisso com a qualidade do atendimento, a segurança do paciente, a transparência e a melhoria contínua de seus processos. O Hospital expressa seu profundo pesar pelo ocorrido e permanece à disposição.

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Em Foco Hoje Redação
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