Como mulher sobreviveu por décadas com um pulmão de aço
Martha Lillard foi a última pessoa nos Estados Unidos a necessitar de um pulmão de aço devido à poliomielite, mas sua família relatou que ela nunca deixou que isso a impedisse de aproveitar a vida ao máximo. Apesar do grande equipamento de metal que a envolvia por várias horas diárias durante a maior parte de sua existência, Martha encontrou maneiras de dirigir, se dedicar à pintura e cuidar de seus amados beagles. “[Martha] era muito resiliente. Ela sempre dava um jeito”, diz sua irmã, Cindy McVey. Residente em Oklahoma, Martha faleceu aos 78 anos, em 26 de junho. Embora a causa oficial da morte tenha sido identificada como síndrome pós-pólio e insuficiência pulmonar crônica, McVey acredita que a morte da irmã foi influenciada pelos efeitos da covid de longa duração.
O pulmão de aço opera através de um sistema de pressão negativa. Um motor aciona seu fole, que remove o ar do cilindro, criando um vácuo ao redor do corpo do paciente e forçando os pulmões a se expandirem e absorverem ar. Quando o ar é reinserido, o processo reverso permite que os pulmões se esvaziem. Durante o auge da poliomielite na década de 1950, dezenas de milhares de pessoas dependeram desse equipamento para sobreviver. Martha utilizou o pulmão de aço por aproximadamente 73 anos e, ao contrário de muitas crianças que temiam a máquina, ela não tinha esse receio. “Ela a recarregava e se sentia melhor”, relata McVey. Quando Martha foi diagnosticada, em meados da década de 1950, a preocupação com a doença incurável era predominante. Até mesmo Martha, com apenas cinco anos, estava ciente da gravidade da poliomielite, como mencionou sua irmã: “Martha acordou e não conseguia levantar a cabeça do travesseiro. Ela sabia imediatamente que estava com poliomielite, pois ouvia muito sobre isso”.
Após um período no hospital, Martha e sua família focaram em sua recuperação. Ela passou por fisioterapia, terapia ocupacional e hidroterapia, com o objetivo de manter o máximo de força possível. Conseguiu recuperar parcialmente o uso do braço esquerdo e o movimento das pernas. Não só Martha estava determinada a viver como as outras crianças de sua idade, mas sua família também se esforçava para proporcionar essa vivência. O tio e o avô de Martha desenvolveram um mecanismo que permitia a ela abrir o pulmão de aço, possibilitando que vivesse de forma independente e entrasse e saísse do equipamento sozinha. Há poucas imagens de Martha no pulmão de aço, pois ela não gostava de ser fotografada enquanto estava na cama, conforme relata sua irmã.
“Ela conseguia realizar atividades que a maioria dos pacientes que usavam pulmão de aço não conseguiam”, afirma McVey. Um carro foi adaptado para que Martha pudesse dirigir, com o volante posicionado sobre seu colo, facilitando o acesso. As setas estavam localizadas no assoalho, também ao seu alcance, considerando sua mobilidade limitada nos braços. Ela era uma artista e uma pensadora, como descreveu McVey, mencionando as paisagens detalhadas que Martha pintava e as muitas perguntas que fazia ao seu dispositivo Alexa. Martha também gostava de passar o tempo conversando com seu companheiro de mais de 20 anos, Baha Salh, que se mudou do Egito para os Estados Unidos este ano, após conseguir o visto, e se casou com Martha em fevereiro, conforme McVey.
A poliomielite, que afetava principalmente crianças, causou grandes estragos no final do século 19 e início do século 20, resultando em mortes e sequelas para muitas crianças. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 200 infecções por poliomielite leva à paralisia irreversível. Entre aqueles que desenvolvem paralisia, de 5% a 10% podem morrer devido à imobilização da musculatura respiratória. A vacina contra a poliomielite foi disponibilizada em 1955. Nos EUA, onde Martha nasceu, a poliomielite foi declarada erradicada em 1979, significando que a doença não circulava mais de forma habitual entre a população, resultado de uma campanha nacional de vacinação. Contudo, atualmente, a hesitação em relação à vacinação tem crescido no país, e autoridades de saúde do governo Trump sugerem que algumas vacinas se tornem opcionais. Kirk Milhoan, presidente do Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), principal órgão de saúde pública dos EUA, propôs no início deste ano que as vacinas contra a poliomielite deveriam ser facultativas. “Ao considerarmos a poliomielite, não devemos ter medo de reconhecer que vivemos em uma época diferente”, afirmou Milhoan. “Nossas condições sanitárias são diferentes, o risco da doença é distinto, e todos esses fatores influenciam a avaliação sobre os riscos associados à vacina.” Esse tipo de afirmação preocupa McVey. “A poliomielite é terrível”, ela diz, emocionada. “A doença causa deformidades e incapacidades, aprisionando as pessoas. Tínhamos a situação sob controle aqui e agora há tantas pessoas que não estão vacinando seus filhos.” McVey teme que as memórias sobre a poliomielite tenham se tornado distantes demais para que as pessoas se lembrem da seriedade da doença. “As pessoas podem pensar que existem problemas com a vacina, mas há problemas muito maiores se não se vacinarem”, afirmou. Martha contraiu poliomielite no ano anterior ao lançamento da vacina. “Eu tive uma amiga que pôde testar aquela vacina no ano em que Martha contraiu poliomielite”, contou McVey. “Foi por muito pouco.”
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