Luto esportivo: psicólogos explicam como lidar com a eliminação do Brasil

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo gerou sentimentos intensos entre os torcedores. Especialistas explicam como lidar com essa situação.

Luto esportivo existe? Psicólogos explicam como lidar com a eliminação do Brasil em tempos de algoritmo

Torcedores brasileiros expressam suas emoções após o término da partida das oitavas de final da Copa do Mundo entre Brasil e Noruega, realizada no Estádio Nova York/Nova Jersey, em East Rutherford. Raiva, frustração, tristeza e até apatia marcaram a segunda-feira para milhões de brasileiros após a eliminação da seleção na Copa do Mundo. A derrota de 2 a 1 para a Noruega resultou na pior classificação do Brasil desde a Copa de 1990 e deixou os torcedores enfrentando um vazio que vai além do resultado.

Para especialistas, esse sofrimento é conhecido como luto esportivo. Embora não se trate de um diagnóstico clínico, o termo se refere à reação emocional gerada pela perda de um sonho coletivo, explicando por que a eliminação da seleção pode causar emoções tão intensas. Os psicólogos enfatizam a importância de aceitar a tristeza como parte da experiência de torcer e de evitar reviver a derrota constantemente, algo que se torna mais desafiador na era das redes sociais. Esse momento também é uma oportunidade para os adultos ensinarem às crianças que admirar alguém não implica esperar perfeição.

O que é o luto esportivo?

De acordo com o psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, a perda de uma partida vai além do resultado em si. “O torcedor perde uma expectativa, uma fantasia construída ao longo de semanas ou meses. Sob a ótica da Psicologia, isso pode desencadear um processo de adaptação similar ao que ocorre em outras perdas simbólicas”, explica. Na prática, o que se perde é um projeto emocional. Além da expectativa de celebrar um título, muitos torcedores deixam de vivenciar momentos que imaginavam compartilhar com amigos e familiares. Em algumas situações, a eliminação também impacta uma parte significativa da identidade ligada à seleção.

Por que algumas pessoas sofrem muito mais?

As reações a uma derrota esportiva variam entre os indivíduos. Segundo Cozac, isso está relacionado ao nível de investimento emocional que cada um faz no futebol. Para alguns, o esporte é apenas uma forma de entretenimento, enquanto para outros, representa pertencimento, tradição familiar, identidade e uma importante fonte de autoestima. Quanto mais forte o vínculo afetivo, maior tende a ser o impacto da eliminação.

O sofrimento é “exagerado”?

Os especialistas afirmam que não. Cozac destaca que os seres humanos formam laços afetivos não apenas com pessoas, mas também com grupos, símbolos e instituições. Como o futebol envolve identidade, memória, pertencimento e emoção, sofrer após uma eliminação é uma resposta esperada quando há um forte envolvimento afetivo. Ele também menciona que estudos em neurociência indicam que perdas simbólicas podem ativar circuitos cerebrais associados ao sofrimento emocional. Embora a perda de uma Copa do Mundo não se compare à perda de um familiar, alguns mecanismos emocionais envolvidos são semelhantes.

Da incredulidade à aceitação

Após uma eliminação, as emoções mais comuns incluem tristeza, frustração, raiva, decepção e incredulidade. Algumas pessoas também experimentam vergonha, especialmente quando a derrota ocorre diante de rivais históricos ou após grandes expectativas. De acordo com o psicólogo, essas emoções geralmente seguem uma sequência comum: primeiro vem a incredulidade ou negação; em seguida, surgem a raiva, a busca por culpados e a frustração; finalmente, a tristeza tende a ser gradualmente substituída pela aceitação. Embora cada pessoa viva esse processo de maneira única, esse padrão é bastante frequente.

Por que fica uma sensação de vazio?

Durante uma Copa do Mundo, muitas pessoas ajustam suas rotinas em função dos jogos, criando expectativa e mobilização emocional. Quando a competição termina de forma inesperada, esse investimento psicológico é abruptamente interrompido, resultando em uma sensação de vazio semelhante ao fim de um projeto muito aguardado.

“Nós perdemos”: por que a derrota parece pessoal?

Mesmo aqueles que nunca jogaram costumam dizer “nós perdemos”. Cozac explica que esse fenômeno se deve à identidade social. O cérebro integra o grupo à própria identidade. Assim, quando a seleção vence, o torcedor sente que faz parte daquela vitória. Quando perde, também experimenta a derrota como algo que lhe pertence.

O algoritmo pode prolongar a tristeza

Antigamente, a dor da derrota diminuía com o tempo, mas hoje as redes sociais podem tornar esse processo mais demorado. Cozac observa que os algoritmos mantêm os torcedores constantemente expostos a conteúdos repetidos: melhores momentos da partida, críticas, memes, provocações e discussões que ressurgem frequentemente. Em vez de permitir que o cérebro se distancie emocionalmente do evento, a pessoa revive a derrota várias vezes ao longo do dia, prolongando o estresse e a frustração.

Como lidar com a eliminação?

O psicólogo sugere algumas estratégias para lidar com essa perda: aceitar que a tristeza é parte da experiência de torcer; evitar reviver a derrota continuamente; diminuir a exposição a discussões nas redes sociais; retomar rapidamente as atividades cotidianas, como trabalho e vida familiar; e lembrar que existem diversas outras fontes de significado além do futebol. Para a maioria das pessoas, a intensidade dessas emoções tende a diminuir significativamente após alguns dias. Caso o sofrimento persista por um longo período e afete o funcionamento da pessoa, é importante investigar outros fatores emocionais relacionados.

Como ajudar as crianças a enfrentar a derrota

A psicóloga e psicanalista Roseli Moreno, especialista em infância e adolescência, destaca que as crianças vivenciam esse tipo de eliminação de maneira única. Na infância, é comum que atletas e seleções sejam vistos como heróis. Quando esses ídolos falham, a criança pode sentir tristeza, frustração e até raiva. Moreno ressalta que esse momento é uma oportunidade para os adultos ensinarem que admirar alguém não implica esperar perfeição. Quando pais e responsáveis acolhem os sentimentos da criança, nomeiam a tristeza e evitam minimizar a dor com frases como “é só um jogo”, ajudam a desenvolver a tolerância à frustração e a resiliência. Além disso, Roseli alerta para o ambiente digital. A repetição constante de memes, críticas e vídeos da derrota pode aumentar o sofrimento infantil. Por isso, ela recomenda equilibrar a exposição a esse tipo de conteúdo e incentivar outras atividades, para que a criança entenda que a tristeza é parte da experiência, mas não deve definir seu dia ou sua relação com o esporte. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…

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Em Foco Hoje Redação
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