EUA podem perder para o Brasil o papel de maior exportador agrícola do mundo

Uma análise aponta que os EUA podem ser superados pelo Brasil como o maior exportador agrícola global, em meio a mudanças nas importações da China.

EUA podem perder para o Brasil o papel de maior exportador agrícola do mundo

Uma reportagem divulgada nesta terça-feira (21/7) pelo Financial Times, um dos principais jornais de finanças globais, indica que os Estados Unidos estão em risco de ceder ao Brasil a posição de maior exportador agrícola do planeta. De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA e o Ministério da Agricultura brasileiro, as exportações americanas de produtos agrícolas alcançaram US$ 171 bilhões no ano passado, apenas US$ 2 bilhões a mais que o Brasil. Em 2021, essa diferença era de US$ 56 bilhões.

O artigo revela que as exportações brasileiras no setor agro cresceram 6% no primeiro semestre de 2026, atingindo um recorde de US$ 87 bilhões, resultado não apenas do papel do Brasil como maior produtor global de soja e carnes bovina e avícola, mas também do êxito de cultivos como o algodão, que anteriormente era liderado pelos EUA, mas agora é superado pelo Brasil.

Para os analistas consultados pela reportagem, que visitaram Iowa, nos EUA, e Mato Grosso, no Brasil, a principal razão para essa mudança está nas “perturbações comerciais provocadas pelas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump”. A China, um dos maiores compradores globais, diminuiu consideravelmente suas importações dos EUA após a imposição de tarifas em 2018, durante o primeiro mandato de Trump.

Um gráfico que acompanha a reportagem ilustra que, em 2016, a China importava volumes semelhantes de soja tanto do Brasil quanto dos EUA. As exportações brasileiras já mostravam crescimento, mas em ritmo mais lento. Após a retaliação de Pequim às tarifas americanas em 2018, esse crescimento acelerou. Em 2025, o Brasil enviou mais de 80 milhões de toneladas de soja para a China, enquanto as exportações americanas não atingiram a casa das dezenas de milhões de toneladas. Os dados são do UN Comtrade, o maior repositório público de estatísticas de comércio internacional.

O Financial Times destaca que, embora os EUA ainda consigam produzir “safras extraordinárias”, “as margens de lucro estão se esvaindo à medida que as tensões comerciais e os preços baixos impactam o Meio-Oeste”. Segundo a reportagem, a American Farm Bureau Federation, a principal organização de lobby de agricultores e pecuaristas dos EUA, estima que o setor enfrentará no próximo ano perdas de US$ 138 por acre para a soja, US$ 167 para o milho, US$ 145 para o trigo e US$ 406 para o algodão.

A ascensão de Mato Grosso é notável. O Financial Times observa que “a força do setor agrícola brasileiro não é apenas uma consequência da política comercial americana”, mas é algo que vem sendo construído ao longo das últimas décadas. O Brasil, que ainda é líder na exportação de café, cana-de-açúcar e suco de laranja, dependia de importações para alimentar sua população até os anos 1970. A situação mudou quando o país começou a explorar seu território, capaz de produzir duas ou até três safras anualmente. Isso se deve, em parte, à disponibilidade e ao baixo custo da terra, especialmente nas regiões de fronteira, e à expansão da produção para áreas antes consideradas inférteis ou difíceis de cultivar, que ganharam vida com “o tratamento de solos pobres em nutrientes e o desenvolvimento genético de culturas adaptadas ao clima”.

“Esse modelo de produção contínua ajuda a diluir os custos fixos e, normalmente, melhora as margens das propriedades rurais”, explicou Raphael Bulascoschi, analista da corretora de commodities StoneX, ao periódico britânico. No entanto, os especialistas consultados pelo Financial Times alertam que o Brasil também se prepara para cenários adversos, devido às altas taxas de juros internas, à queda nos preços das commodities e, após a guerra entre Irã e Israel, ao aumento nos preços dos fertilizantes, que na sua maioria são importados.

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Em Foco Hoje Redação
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