Shakers: seita religiosa do século 17 revolucionou o design de móveis nos EUA
Um dos capítulos mais intrigantes da história do design remonta ao século 17, na Inglaterra, quando surgiu a comunidade religiosa United Society of Believers in Christ’s Second Appearing — em português, Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo. Os membros dessa comunidade ficaram conhecidos como Shakers, nome que faz referência às práticas espirituais que incluíam movimentos corporais e tremores durante os cultos. A partir de 1774, os Shakers migraram para os Estados Unidos e se tornaram verdadeiros “visionários do bom desenho”. O legado mais duradouro deles reside nos produtos que criavam para uso próprio e para a subsistência das comunidades — móveis, objetos e ferramentas que se tornaram referências essenciais da cultura material estadunidense.
Conforme a escadaria produzida em 1846 com pinho, bétula e cerejeira para uma casa em Mont Lebanon, Nova York, a produção shaker era fundamentada em princípios claros: funcionalidade em primeiro lugar, ausência de ornamentação, rigor nas proporções, equilíbrio formal, uso honesto dos materiais — especialmente da madeira — e modularidade. Para muitos historiadores, os Shakers foram os pioneiros do modernismo, um movimento que seria sistematizado décadas depois por escolas como a Bauhaus, já no século 20.
Entre suas criações mais icônicas estão as conhecidas caixas ovais, cadeiras, sistemas de trilhos com ganchos e armários embutidos. A comunidade também se destacou pela invenção ou aprimoramento de diversos utensílios do dia a dia, como a vassoura e os pregadores de roupa, sempre fabricados com processos padronizados e rigoroso controle de qualidade. Funcionalidade, ausência de ornamentação, rigor nas proporções, equilíbrio formal, uso honesto dos materiais e modularidade caracterizam o mobiliário produzido pelos Shakers.
A líder e fundadora do movimento foi Ann Lee, que defendia uma vida pautada pela pureza, pelo trabalho e pela comunhão. Os membros viviam em celibato absoluto, promoviam a igualdade entre homens e mulheres e compartilhavam bens e atividades cotidianas. Para eles, o trabalho era uma forma de devoção, resumida no lema: “Hands to work, hearts to God” — mãos ao trabalho, corações a Deus, em tradução livre. Entre 1840 e 1875, os Shakers desenvolveram um forno de ferro em que diferentes componentes formavam a peça.
Atualmente, a exposição The Shakers: A World in the Making, que ficará em cartaz até 9 de agosto no Institute of Contemporary Art Philadelphia, é uma visita imperdível. A mostra reúne mais de 150 móveis originais dos séculos 18 e 19, objetos domésticos, ferramentas, têxteis, documentos históricos, projetos arquitetônicos e registros do planejamento comunitário, além de obras contemporâneas que dialogam com o universo shaker. O intuito é mostrar como uma comunidade relativamente pequena exerceu uma influência duradoura sobre gerações de arquitetos, designers e artistas.
Diversos tipos de cadeiras, uma das marcas do trabalho desenvolvido pelo agrupamento religioso, estão expostas na mostra The Shakers: A World in the Making. As fotografias que acompanham esta reportagem mostram diferentes ambientes e perspectivas da exposição. O evento é co-organizado pelo ICA Philadelphia, Vitra Design Museum, Milwaukee Art Museum e pela Wüstenrot Foundation, em colaboração com o Shaker Museum, localizado em Nova York, com a participação de diferentes curadores. Objetos do cotidiano, como vassouras e ferramentas, foram inventados ou aprimorados pelos Shakers nos séculos 18 e 19.
O declínio dos Shakers ocorreu no final do século 19 devido a uma combinação de fatores, incluindo o celibato, que impediu o crescimento natural das comunidades, a diminuição da adesão de novos membros e as transformações socioeconômicas da época. A reprodução da obra The Tree of Life, de 1854, concebida por Hannah Cohoon, ilustra esse momento.
Muito antes de o minimalismo se tornar uma tendência global, os Shakers já convidavam as pessoas a refletir sobre a verdadeira necessidade da ornamentação, tão em alta na época, e sobre o valor da simplicidade funcional. Uma lição que foi seguida por muitos. A instalação 2nd Meetinghouse, 2025, de Amie Cunat, é uma das obras contemporâneas presentes na mostra The Shakers: A World in the Making, que dialogam com a produção das comunidades.



