Produtores do agro buscam novos mercados após tarifas dos EUA

Com a nova sobretaxa dos EUA, produtores brasileiros estão mudando suas estratégias de exportação, buscando alternativas na Europa e na Argentina.

‘Mudamos a rota’

Produtores do agronegócio já estão em busca de novos mercados após o aumento das tarifas impostas por Trump.

Com a perda de competitividade nos Estados Unidos, os agricultores estão reorganizando suas exportações e apostando em regiões como Europa, Argentina e Ásia para compensar as perdas.

O novo aumento de tarifas de Trump deve ter um impacto de 36,5% no agronegócio brasileiro. O produtor Rodrigo Pamponet, que cultiva uvas no Vale do São Francisco, já colocou o mercado norte-americano em segundo plano. Sua fazenda passou a focar nas vendas para outros mercados, como a Europa e a Argentina, em função da perda de competitividade causada pelas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros.

“Antes, exportávamos bastante para os EUA. Em 2024, a fazenda enviou cerca de 50 paletes. No ano passado, esse número caiu para apenas seis, apenas para atender um pedido. Neste ano, espero que minhas exportações para lá praticamente cessem, a menos que os importadores americanos aceitem arcar com parte do custo das tarifas”, conta o produtor.

O movimento da fazenda no Vale do São Francisco demonstra a resposta de parte do agronegócio brasileiro a este novo cenário comercial. A partir da próxima terça-feira (22), será aplicada uma sobretaxa de 25% sobre os produtos brasileiros que não estão na lista de exceções divulgada por Washington.

Além da tarifa já confirmada, o setor está atento à possibilidade de uma nova cobrança de 12,5%, que está sendo analisada. Se implementada, a sobretaxa total poderá atingir 37,5% sobre os produtos brasileiros afetados. Os segmentos do agronegócio que estão sendo impactados incluem as cadeias de uva, ovos, madeira, arroz e açúcar. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), essa medida pressiona US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio nacional.

De acordo com a confederação, aproximadamente 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro para os EUA estarão sujeitas à nova tarifa de 25%, enquanto 63,5% foram preservadas com a ampliação da lista de exceções.

Redirecionar as exportações é uma das principais estratégias para os setores afetados pelas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. Com a abertura de novos mercados, as exportações brasileiras não apenas mantiveram sua força, mas também encerraram o último ano com um recorde histórico de US$ 348,7 bilhões. Segundo análise da XP Macro Research, esse resultado foi alcançado porque os produtores conseguiram redirecionar parte das exportações para a China e outros mercados, compensando a diminuição das vendas para os EUA.

A uva é a cadeia mais relevante entre as frutas que ficaram fora da lista de isenções dos EUA, segundo análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). As exportações brasileiras de uva para os EUA já estavam diminuindo após a rodada anterior de tarifas, enquanto a Europa continuava sendo o principal destino da fruta brasileira. Na prática, produtores como Rodrigo Pamponet já iniciaram esse redirecionamento. O produtor informou que, atualmente, cerca de 70% da produção exportada pela fazenda vai para a União Europeia e 28% para a Argentina. O mercado argentino ganhou destaque entre os produtores devido à proximidade geográfica e ao menor custo de transporte.

Os dados de comércio exterior refletem essa mudança: o volume de uvas brasileiras enviadas para a Argentina aumentou de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025. Em contrapartida, as importações dos EUA caíram. O país, que adquiriu 13,8 mil toneladas de uva brasileira em 2024, com faturamento de US$ 41,5 milhões, reduziu as compras para 4,1 mil toneladas em 2025, o que equivale a US$ 12,8 milhões.

O principal polo da fruticultura irrigada do Brasil, o Vale do São Francisco, concentra cerca de 75% da produção nacional de uvas e responde por aproximadamente 95% das exportações brasileiras da fruta. Essa cultura é estratégica para a economia regional e é uma das principais fontes de receita com exportações. Embora a Europa permaneça como o principal destino da uva brasileira, o mercado dos EUA é considerado estratégico pelos produtores devido à sua remuneração. Segundo o pesquisador João Ricardo Lima, da Embrapa Semiárido, os compradores americanos pagam mais por frutas de qualidade superior. “O mercado americano é importante em termos de preço. Essas uvas são muito bem pagas nos Estados Unidos, mais do que na Europa. Portanto, a perda desse mercado tem um impacto maior para o produtor”, afirma.

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), Jailson Lira, destaca que a abertura de novos mercados amenizou parte do impacto, mas não eliminou a preocupação do setor. Ele afirma que o momento ainda é de “muita tensão” entre os produtores. Uma das principais preocupações envolve emprego e renda na região. De acordo com o sindicato, a cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos no Vale do São Francisco, sendo que aproximadamente metade da mão de obra é composta por mulheres. Apesar das incertezas, o setor continua esperançoso por uma solução negociada antes de setembro, quando começa a principal janela de embarque de frutas do Vale do São Francisco para os EUA.

Embora a fruticultura esteja entre as cadeias afetadas, a lista de produtos impactados pela sobretaxa dos EUA inclui outros segmentos do agronegócio, como arroz, madeira e açúcar. Em nota enviada, a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) informou que participou de audiências públicas em Washington para argumentar que o arroz brasileiro tem um papel complementar no abastecimento dos EUA, já que a produção local não é suficiente para atender toda a demanda. Entretanto, a exposição ao mercado americano é menor do que em outras cadeias. Os EUA não estão entre os principais destinos do cereal brasileiro, que tem como mercados mais relevantes países da América Latina e da África, como Venezuela, México e Senegal. A entidade avalia que a medida pode elevar o custo do alimento para os consumidores americanos, caso a tarifa seja repassada aos preços finais.

O g1 também conversou com Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que expressou preocupação com a tarifa sobre ovos e carne suína, mas destacou que o impacto prático varia entre os produtos. No caso dos ovos, a nova tarifa tem efeito limitado porque o Brasil já havia reduzido significativamente as exportações para os EUA após a normalização da crise sanitária provocada pela gripe aviária. No ano passado, o Brasil alcançou recorde de vendas aos americanos justamente porque o país enfrentava uma diminuição da oferta interna. Em relação aos ovos, cerca de 1% da produção nacional é exportada, em média. No que se refere à carne suína, o mercado americano também tem uma participação reduzida. As exportações, que chegaram a cerca de 60 mil toneladas em um período anterior, caíram para uma média anual próxima de 3 mil toneladas devido a barreiras comerciais. Hoje, os EUA não estão entre os 10 principais destinos das exportações brasileiras desse produto. Por outro lado, a ABPA considerou positiva a decisão de manter a tilápia fora da lista de produtos com sobretaxa. “A decisão de manter a tilápia fora da medida demonstra que há espaço para o diálogo técnico e para a construção de soluções equilibradas nas relações comerciais entre os dois países”, afirmou a entidade.

Para apoiar as empresas afetadas pelo tarifaço dos EUA, o governo federal anunciou a retomada de medidas voltadas aos setores prejudicados pelas novas barreiras comerciais, mas ainda não detalhou como essas medidas funcionarão. A iniciativa prevê linhas de crédito para capital de giro, financiamento de investimentos e ações para auxiliar exportadores a redirecionar produtos para outros mercados. A ApexBrasil está preparando um plano de contingência para agosto, com investimento de R$ 130 milhões em ações de diversificação comercial. A estratégia inclui ampliar a presença de produtos brasileiros em mercados da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão, além de fortalecer as vendas para o Oriente Médio. O governo também planeja aproveitar as oportunidades criadas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia para diversificar os destinos das exportações brasileiras e diminuir a dependência do mercado americano. Para mais notícias acesse… Confira também outros conteúdos em…

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Em Foco Hoje Redação
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