Ultra IP cobra R$ 4,5 milhões da ONG ICB
A empresária Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), está sendo processada pela empresa Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. A disputa judicial entre a Ultra IP e o ICB é marcada por acusações mútuas. A terceirizada reivindica R$ 4,5 milhões e alega que houve irregularidades na execução do contrato de R$ 108 milhões que foi firmado com a Prefeitura de São Paulo. Em contrapartida, o ICB alega que a empresa descumpriu o acordo, interrompeu parte do serviço e tentou extorquir R$ 2,5 milhões.
A Ultra IP afirma que é a única responsável pela instalação de 3.200 pontos de wi-fi do programa municipal, embora parte desses serviços tenha sido atribuída, nas prestações de contas do ICB apresentadas ao município, à empresa Favela Conectada Serviços e Tecnologia Ltda. A Ultra IP exige na Justiça mais de R$ 4,5 milhões do ICB e afirma que a Favela Conectada foi utilizada como uma empresa de fachada para justificar despesas do convênio firmado com a gestão de Ricardo Nunes (MDB). A empresa ainda sustenta que a Favela Conectada recebeu R$ 12 milhões para instalar 2 mil pontos de acesso sem, segundo a ação, ter realizado qualquer serviço.
Acusações de extorsão e interrupção de serviços
A ONG acusa a Ultra IP de ter interrompido cerca de 800 links de internet que haviam sido instalados. Karina Gama também afirma que o proprietário da Ultra IP tentou extorquir mais de R$ 2,5 milhões. Alex Leandro Bispo dos Santos, conhecido como “Escorpião do PCC”, era o ex-dono da Favela Conectada e está preso preventivamente desde fevereiro, acusado de feminicídio. Antes de ser preso, em janeiro, Alex saiu oficialmente do quadro societário da Favela Conectada, que passou a ser controlada por Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes. A Jucesp informa que Tatiane reside no mesmo endereço que Alex, na Rua Ernesto Paglia, no Butantã, Zona Oeste da capital. O g1 não conseguiu localizar a defesa de Tatiane.
Após assumir o controle da empresa, ela alterou a razão social da Favela Conectada para Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda. Documentos indicam um vínculo entre o PCC e a produtora do filme “Dark Horse”. A Ultra IP foi uma das quatro empresas contratadas pelo ICB para a instalação dos pontos de wi-fi na periferia da cidade de forma terceirizada. O contrato entre a Ultra IP e o ICB era de R$ 30,7 milhões para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi, mas foi rompido unilateralmente em setembro de 2025, sem que o pagamento total do acordo fosse realizado, conforme a empresa que processa Karina da Gama.
Notas fiscais e emendas parlamentares
A Prefeitura de São Paulo solicita que Karina Gama devolva pelo menos R$ 906 mil aos cofres públicos, referentes a notas fiscais canceladas, além de exigir a apresentação de documentos e justificativas para outros R$ 12 milhões em gastos apresentados nas notas fiscais de prestação de contas do contrato de R$ 108 milhões para a instalação de 3.200 pontos de wi-fi do programa municipal. A empresária também foi mencionada em um caso de emendas parlamentares que teriam sido utilizadas para financiar indiretamente o filme “Dark Horse”. A suspeita é que políticos do PL, como os ex-deputados Alexandre Ramagem e Carla Zambelli e os deputados Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS) tenham destinado emendas a entidades de Karina da Gama.
Defesa do ICB e alegações de má-fé
No mesmo processo, os advogados de Karina afirmam que o proprietário da Ultra IP, William Silva Ferreira, age de má-fé contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB). O contrato entre as duas partes foi encerrado em setembro do ano passado. Como parte da defesa, foi anexado um inquérito instaurado pela Polícia Civil de São Paulo em 5 de maio deste ano, onde Karina acusa o empresário de tentativa de extorsão. Segundo seu relato à polícia, William Ferreira teria exigido mais de R$ 2,5 milhões para não procurar a imprensa e divulgar informações sobre a relação contratual entre as empresas.
A empresária, que também é proprietária da produtora Go Up, responsável pelo filme “Dark Horse”, afirma que durante mais de um ano de vigência do contrato com a Ultra IP, foram registrados sucessivos descumprimentos contratuais, inconsistências técnicas e administrativas, além da apresentação de relatórios incompatíveis com a execução dos serviços. De acordo com a defesa, esses problemas resultaram, em 26 de setembro de 2025, na interrupção de cerca de 800 links de internet instalados em comunidades da periferia de São Paulo, comprometendo a continuidade do programa público e prejudicando a população atendida.
Posição da gestão Ricardo Nunes
A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) informou que “a relação jurídica do Município se dá somente com o ICB e, de acordo com a Lei nº 13.019/2014, a escolha e gestão dos fornecedores e terceirizados são de responsabilidade unicamente da entidade parceira”. A SMIT ressalta que fiscaliza ativamente o cumprimento da parceria por meio de prestações de contas realizadas semestralmente, um período mais rigoroso do que o mínimo legal. O rigor deste acompanhamento já resultou na determinação de devolução, em 2025, de aproximadamente R$ 2 milhões à conta do projeto, obrigação que foi integralmente cumprida pelo ICB. “Além disso, a parceria está sendo fiscalizada pelos órgãos de controle como o Ministério Público, Tribunal de Contas e a Controladoria Geral do Município. É importante destacar que o Programa Wi-fi Livre está funcionando normalmente e pode ser acompanhado em tempo real no link https://wifilivrecomunidades.org/sp“, declarou a pasta.
Novos personagens na disputa
Além da Ultra IP e da Favela Conectada — agora Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda —, outras duas empresas estão entre as terceirizadas contratadas pelo ICB: Complexsys Soluções Integradas Ltda. e Fastfuture Tecnologias Emergentes Ltda. Documentos apresentados pelo próprio ICB à Prefeitura de São Paulo mostram que ambas foram contratadas para realizar atividades de monitoramento e auditoria dos pontos de wi-fi instalados pelas outras empresas envolvidas no projeto. A Complexsys pertence ao empresário André Feldman, enquanto a Fastfuture está registrada em nome de sua esposa, Débora Feldman, que se apresenta nas redes sociais como terapeuta holística e não menciona atuação no setor de telecomunicações.
As notas fiscais anexadas às prestações de contas indicam que as duas empresas prestaram serviços semelhantes. Contudo, na ação movida pela Ultra IP, André Feldman é mencionado como diretor de fato do Instituto Conhecer Brasil. Segundo a empresa, ele teria participado da administração do projeto ao lado da presidente da ONG, Karina da Gama, incluindo nas decisões que levaram ao rompimento do contrato com a Ultra IP.
Declarações de André Feldman
André Feldman, proprietário da Complexsys Soluções Integradas Ltda, foi procurado e afirmou que nunca fez parte do quadro societário do Instituto Conhecer Brasil (ICB) ou de qualquer empresa vinculada à entidade, um fato que, segundo ele, pode ser comprovado por registros públicos. Feldman também declarou que a Complexsys foi contratada exclusivamente para monitorar a rede do programa Wi-Fi Comunidade e garantir o funcionamento do serviço. Ele considera que a narrativa de que teria dado ordens ou participado da gestão operacional do projeto é “distorcida e de má-fé”, o que poderia levar a responsabilizações civil e criminal. O empresário acrescentou que existe uma declaração registrada em cartório que afirma que a Ultra IP teria atuado deliberadamente para provocar a interrupção da rede pública de internet. A Complexsys foi uma das empresas alvo de busca e apreensão da Polícia Civil no último mês de junho.
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