Tarifaço de Trump: governo ainda estuda como reagir à taxação que começa nesta quarta
O governo federal segue em análise sobre quais ações tomar em resposta às novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos para produtos brasileiros, que começam a vigorar nesta quarta-feira (22). A confirmação da decisão foi feita pelo governo americano na semana passada.
A tarifa de 25% sobre produtos do Brasil é fruto de uma investigação comercial do Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), que é responsável pela política comercial dos Estados Unidos. Essa apuração durou um ano, fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao governo americano investigar e combater eventuais barreiras comerciais em outros países. Durante o processo, representantes do governo brasileiro e de diversos setores econômicos participaram de reuniões e audiências com autoridades norte-americanas, apresentando argumentos contrários à imposição das sobretaxas.
A investigação abordou questões como o sistema de pagamentos PIX, regulamentações para plataformas digitais e outras políticas brasileiras que os Estados Unidos consideraram como barreiras ao comércio.
Após o anúncio das tarifas, o governo brasileiro emitiu uma nota classificando a decisão como um “marco lastimável” nas relações entre Brasil e Estados Unidos, e declarou que iniciará os procedimentos para acionar a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).
A Lei de Reciprocidade é um instrumento que permite a um país aplicar a outra nação as mesmas medidas, restrições ou tarifas que sofreu. Na prática, se um governo estrangeiro impõe sanções ou barreiras unilaterais consideradas “injustas”, o Brasil pode usar essa norma para reagir com restrições equivalentes, buscando reequilibrar as relações e proteger sua economia. Essa medida é defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desde o anúncio das tarifas iniciais, no ano passado.
Na semana passada, um dia após a confirmação da tarifa pelos Estados Unidos, o vice-presidente Geraldo Alckmin declarou que o governo brasileiro está considerando a aplicação da Lei da Reciprocidade e que “no momento certo, saberá como implementá-la”. Ele ressaltou que existe uma lei que visa proteger os interesses nacionais e da economia brasileira, enfatizando que não se trata de uma retaliação.
Além disso, o vice-presidente mencionou que o governo desenvolverá um programa para auxiliar as empresas afetadas pela nova taxa, embora ainda não tenha anunciado oficialmente nenhuma medida. O governo brasileiro tem realizado reuniões com os setores impactados pela nova tarifa para identificar as necessidades de cada segmento e definir as ações de apoio. Após esses encontros, alguns setores manifestaram-se contrários à reciprocidade e defenderam a ampliação do plano Brasil Soberano, um programa de crédito para as empresas prejudicadas pelo tarifaço.
Em agosto de 2025, o Amazonas registrou uma movimentação de US$ 1,41 bilhão na Corrente de Comércio, sendo que as exportações totalizaram US$ 86,3 milhões e as importações chegaram a US$ 1,32 bilhão.
Ao confirmarem o novo tarifaço, os Estados Unidos alegaram que o governo Trump tentou negociar com o Brasil ao longo do último ano, mas não conseguiu derrubar as práticas que considera injustas. Um levantamento da diplomacia brasileira indica que foram feitos mais de 30 contatos desde o anúncio do tarifaço original, com conversas por telefone, videoconferência e reuniões presenciais em níveis presidencial, ministerial e técnico.
Além disso, representantes do governo brasileiro dialogaram com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e com o representante de Comércio americano, Jamieson Greer, em pelo menos 11 ocasiões. Integrantes do governo brasileiro afirmam que três temas foram os principais entraves nas negociações: o sistema PIX, a ampliação do acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e uma proposta de moratória de quatro anos para isentar plataformas digitais de tributos e multas. Interlocutores do governo Lula consideram que esses pontos apresentados pelos americanos são inegociáveis.
A avaliação de membros do governo é de que a imposição da nova tarifa é uma decisão política. As autoridades americanas, por outro lado, negam que a represália tenha esse objetivo e afirmam que buscam apenas reverter práticas comerciais que prejudicam a competitividade dos EUA. O governo americano defende que, em todos os casos, a iniciativa para abrir o diálogo partiu do Brasil, em uma tentativa de negociar uma solução para o impasse comercial. Essa informação é uma resposta às críticas de que o Brasil teria deixado de buscar uma negociação com os Estados Unidos antes da adoção das medidas tarifárias.
A percepção era de que o cenário estava favorável para as negociações após o encontro entre Lula e Trump na Malásia e ainda melhor após a reunião entre os dois em Washington. Contudo, essa situação mudou após a visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) aos EUA. Marco Rubio mantém relações próximas com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tendo iniciado essa aproximação em 2018, e no mês passado, Rubio recebeu os filhos de Bolsonaro nos EUA.
Confira também outros conteúdos em Central Nerdverse. Para mais notícias acesse Em Foco Hoje.



