Mulher denuncia que motorista de aplicativo expulsou filha autista de carro durante corrida em João Pessoa
Uma mãe relatou que foi expulsa de um veículo por aplicativo junto com sua filha de 9 anos, que possui Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3, durante uma corrida em João Pessoa. Segundo o depoimento da mulher, o incidente ocorreu na quarta-feira (23), quando o motorista decidiu interromper a viagem após se incomodar com a música que a criança ouvia em seu celular enquanto se dirigiam para uma sessão de terapia.
O g1 tentou obter uma posição da Uber sobre o ocorrido, uma vez que a corrida foi solicitada pela plataforma e o motorista estava cadastrado na empresa. Até o fechamento desta reportagem, a Uber informou que está investigando a situação.
A mãe explicou que a corrida foi solicitada no bairro de Mangabeira, na Zona Sul de João Pessoa, com destino à Associação A-ima Mães de Autistas, localizada no Cuiá, também na Zona Sul. Durante o trajeto, o motorista assistia a um anime no celular enquanto dirigia e, de acordo com a mulher, ficou incomodado com o som da música que a criança escutava. Ela relatou que pediu à filha para diminuir o volume e explicou ao motorista que a menina é autista nível 3, condição que requer acompanhamento e estratégias para evitar crises.
Os níveis de suporte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) indicam o grau de assistência que uma pessoa pode necessitar no cotidiano, levando em conta aspectos como comunicação, interação social e adaptação a mudanças. O nível 1 é o que exige menor suporte; o nível 2, suporte moderado; e o nível 3, como no caso da criança mencionada, requer apoio intenso para atividades diárias. Essa classificação não está relacionada à inteligência ou capacidade da pessoa.
Segundo o relato, mesmo após a explicação, o motorista insistiu que mãe e filha deixassem o veículo, mesmo com a chuva. Ele estacionou próximo à calçada para facilitar a saída e afirmou: “No meu carro fica quem eu quero”. A mãe disse que o motorista comentou que “não era a primeira nem seria a última autista” que ele transportava e que bastava a mãe fazer a criança obedecer. Ao questionar o fato de o motorista estar assistindo a um desenho enquanto dirigia, o homem aumentou o volume do som do carro e perguntou se ela queria saber “o que era som alto”. A mulher acredita que essa atitude visou provocar uma desregulação na criança.
A mãe informou que avisou que acionaria a polícia e registraria uma denúncia à plataforma de transporte. O motorista respondeu: “Pode chamar quem você quiser”. Após serem forçadas a sair do veículo, mãe e filha ficaram na chuva, no bairro do Geisel. A mulher ligou para o 190 e, ao avistar uma viatura da Polícia Militar que passava, abordou-a e pediu ajuda, sendo levadas até a associação, onde a criança receberia atendimento. Na instituição, a mãe recebeu suporte da equipe, registrou um boletim de ocorrência e formalizou a denúncia junto à plataforma de transporte por aplicativo.
O neuropsicólogo Paulo de Paula, diretor-fundador da Associação A-ima, explicou que os níveis de suporte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) determinam a quantidade de apoio que a pessoa necessita para realizar as atividades diárias, sem relação com a inteligência ou capacidade cognitiva. Segundo ele, para muitas crianças com autismo, ouvir música durante deslocamentos é uma estratégia de autorregulação emocional que ajuda a diminuir a ansiedade e prevenir crises. Ele ressaltou que indivíduos com TEA podem usar música, objetos de interesse, estereotipias ou hiperfocos para manter o equilíbrio emocional em situações que podem ser estressantes. Para o especialista, qualquer desconforto com o som poderia ser resolvido por meio do diálogo. “O que nunca se justifica é interromper a corrida e deixar uma mãe e uma criança, especialmente uma com deficiência, na rua, debaixo de chuva. A empatia e o respeito devem sempre guiar esse tipo de situação”, afirmou. Paulo de Paula também defendeu que plataformas de transporte implementem mecanismos para identificar motoristas dispostos e capacitados a atender pessoas com deficiência, incluindo aquelas com autismo. Essa medida pode ajudar a proporcionar um atendimento mais acolhedor e diminuir a ocorrência de situações semelhantes.
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