Possível primeira ‘lua’ fora do Sistema Solar é encontrada por astrônomos; entenda
Uma ilustração representa o sistema CD-35 2722, com um novo objeto semelhante a uma lua orbitando uma anã marrom. Um grupo de astrônomos de diferentes países encontrou o que pode ser a primeira evidência concreta de uma lua fora do Sistema Solar. O objeto, que possui uma massa semelhante à de Júpiter, foi observado girando em torno de uma anã marrom — um corpo celeste maior que um planeta, mas menor que uma estrela — chamada CD-35 2722 B. Essa anã marrom, por sua vez, orbita uma estrela com massa equivalente à metade da do nosso Sol. O estudo foi divulgado nesta quarta-feira (22) na revista científica “Nature”. É a primeira vez que existem indícios tão robustos de um sistema desse tipo, onde um possível satélite orbita um corpo que, por sua vez, gira ao redor de uma estrela.
“Foi realmente emocionante detectar esse sinal pela primeira vez”, relata ao g1 Kevin Hoy, principal autor do estudo e doutorando da Universidad Diego Portales, no Chile. “Já tínhamos boas evidências no início, mas a parte mais gratificante foi confirmar nossa detecção inicial ao prever o comportamento que observaríamos no futuro e acompanhar os novos dados chegando e se encaixando perfeitamente em nosso modelo”.
A descoberta é notável porque, apesar de mais de 6 mil planetas já terem sido identificados fora do Sistema Solar, nenhuma exolua foi confirmada de maneira definitiva. Existem candidatos, mas as evidências ainda são debatidas. Neste caso, há uma dificuldade adicional: mesmo que a existência do novo objeto seja validada, ainda não está claro se ele pode ser considerado uma lua. Isso ocorre porque ele não orbita um planeta, como a Lua faz em relação à Terra. Seu “corpo principal” é a anã marrom, que possui cerca de 37 vezes a massa de Júpiter.
O possível satélite, no entanto, não foi fotografado diretamente: sua presença foi detectada pela influência gravitacional que exerce sobre a anã marrom. Para isso, a equipe monitorou a “estrela falhada” entre outubro de 2023 e fevereiro de 2026, utilizando o Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, no Chile. Assim, os pesquisadores conseguiram registrar pequenas variações no movimento da anã causadas pela gravidade do corpo que a orbita. Ao acompanhar essas mudanças ao longo do tempo, eles identificaram um padrão que se repetia a cada cerca de 170 dias, compatível com a presença de um objeto em órbita.
De acordo com a massa, o corpo pode se assemelhar a um planeta. Contudo, pela posição que ocupa no sistema, ele poderia ser considerado uma lua. Por isso, os pesquisadores preferem usar o termo mais abrangente exossatélite, que descreve um objeto que orbita outro fora do Sistema Solar, sem resolver imediatamente a discussão sobre se ele é um planeta ou uma lua. “O objeto que encontramos é complicado de definir porque estamos realmente desafiando os limites das palavras que criamos para descrever o Sistema Solar e tentando aplicá-las a um sistema que não se assemelha em nada ao nosso. E essa confusão não é apenas uma questão de nomenclatura. As classificações usadas na astronomia foram, em grande parte, elaboradas a partir do Sistema Solar, onde a distinção entre estrelas, planetas e luas é relativamente clara. No entanto, sistemas como CD-35 2722 demonstram que a natureza pode criar arranjos bastante diferentes, e que essas fronteiras nem sempre funcionam bem fora da nossa vizinhança cósmica”. “[Esse objeto] é semelhante a uma lua no sentido de que orbita um corpo subestelar que, por sua vez, orbita uma estrela, mas é realmente muito massivo em comparação com as luas do Sistema Solar, a ponto de as pessoas não terem certeza se é apropriado chamá-lo de lua”, observa Hoy.
O pesquisador enfatiza, no entanto, que novas observações serão fundamentais para consolidar a descoberta. Uma das possibilidades é tentar medir diretamente o pequeno deslocamento da anã marrom causado pelo objeto em sua órbita e combinar esse resultado com novos dados sobre seu movimento. Isso permitiria definir melhor a trajetória e, principalmente, estimar com mais precisão a massa real do possível satélite. A descoberta também pode abrir novas oportunidades para a busca de objetos menores e mais semelhantes às luas do Sistema Solar. Segundo os cientistas, à medida que os instrumentos astronômicos se tornarem mais precisos, a mesma técnica poderá ser aplicada para investigar outros sistemas e aumentar as chances de uma exolua ser confirmada de forma definitiva. “Acredito que isso certamente levará os astrônomos a buscar uma definição mais concreta de exolua, que atualmente não possui uma definição real. E isso também pode nos levar a reconsiderar a própria definição de exoplaneta, especialmente se orbitar uma anã marrom é suficiente para que um objeto seja classificado como tal”, pondera Hoy.
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