Consumo todo dia e não sabia que era do Brasil: empresária diz que governo Trump desconhecia peso do mel nacional para os EUA
Em torno de 83% do mel orgânico importado pelos Estados Unidos tem origem brasileira. Quando se considera o mel convencional, esse número cai para 75%. Pixabay/Pexels “Eu consumo esse mel todos os dias e não sabia que vinha do Brasil”. Essa foi uma das declarações que a empresária Joelma Lambertucci de Brito escutou de um membro do governo americano neste ano, durante uma ação de lobby para garantir que o mel fosse incluído na lista de isenções das novas tarifas propostas pelo presidente Donald Trump.
No dia 1º de junho, Trump sugeriu tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, após investigações sobre diversos assuntos, como desmatamento ilegal, pirataria e o sistema de pagamentos PIX. No dia seguinte, ele anunciou taxas adicionais de 12,5% para 60 países devido a falhas no combate ao trabalho forçado, incluindo o Brasil. No próximo dia 6, a empresária participará de uma audiência pública em Washington para defender o mel nacional. Com 35 anos de experiência no mercado de mel e própolis, Brito dirige a Lambertucci Trade Solution, que se especializa em facilitar a exportação do mel brasileiro.
Trump aponta o Brasil por questões relacionadas ao trabalho forçado na pecuária, mas isenta a carne bovina das novas tarifas. Nos EUA, ela já se reuniu com o Departamento de Agricultura (USDA) e com o Escritório de Comércio dos EUA (USTR), que sugeriu as tarifas. Durante esses encontros, ficou evidente que o mel não foi incluído na lista de isenções devido à falta de conhecimento sobre a relevância do produto brasileiro no mercado americano. Para ilustrar, cerca de 83% do mel orgânico importado pelos EUA é brasileiro. Considerando apenas o mel convencional, 75% das importações têm origem no Brasil.
“Quando nos sentamos à mesa para negociar, eles não tinham ideia […]. Eles costumam olhar a marca do mel, mas não consideram o país de origem”, explica Brito, ressaltando que essas discussões fazem parte de uma iniciativa maior liderada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). A empresária acredita que esse desconhecimento ocorre porque o setor e o governo brasileiros não conseguiram comunicar a importância do mel nacional para o mercado americano. “Não adianta ser o maior fornecedor, é necessário realmente promover o produto”, comenta. “Todos [nos EUA] sabem que a carne vem do Brasil, que o café vem do Brasil. Isso se deve a um grupo que faz um lobby muito eficaz”, afirma a empresária.
Atualmente, o setor está em uma corrida contra o tempo para tentar reverter essa decisão. Na audiência, além de Brito, importadores de mel americanos também defenderão o produto brasileiro, assim como a própria Associação Brasileira de Exportadores de Mel (Abemel). Uma das estratégias de defesa será evidenciar a magnitude da importação de mel pelos EUA, além de outros aspectos, como:
- O fato de que não há competição com os produtores americanos no mel orgânico: enquanto a apicultura nos EUA é focada principalmente na polinização e no mel convencional, o Brasil possui condições ideais para a produção de mel orgânico. Um dos fatores é a presença de abelhas africanizadas, que são mais resistentes a doenças, eliminando a necessidade de antibióticos e acaricidas.
- O impacto direto para o consumidor: a imposição de tarifas pode levar ao aumento dos preços e até à escassez de mel orgânico nas prateleiras americanas. Como a produção interna não é suficiente para atender à demanda, os consumidores dos EUA seriam os mais afetados.
- A dificuldade de substituição: Brito explica que a transição de uma área de produção convencional para orgânica requer, no mínimo, um ano. Isso implica que os EUA não conseguiriam substituir o fornecimento brasileiro por outro país em um curto período.
- O risco de perdas e demissões nos EUA: esse ponto contará com o depoimento de importadores americanos, que têm maior influência política. Eles devem argumentar que as tarifas resultarão em perda de receita para as empresas e cortes de empregos.
Mais sobre a audiência: A maior associação de pescados dos EUA defenderá produtos brasileiros em audiência. O setor de café solúvel também irá aos EUA solicitar a revisão das novas tarifas: ‘Não faz sentido’. O setor busca evitar mais prejuízos. O mel é um dos segmentos mais afetados pelos sucessivos aumentos de tarifas de Trump desde o ano passado. Essa medida impactou especialmente os produtores do Piauí, que é o maior exportador brasileiro do produto e altamente dependente do mercado americano. Em 2024, 85% do mel exportado pelo estado foi destinado aos EUA. Em 2025, o setor enfrentou uma sobretaxa de 50% imposta por Trump, resultando no cancelamento de centenas de toneladas de vendas e causando perdas financeiras para milhares de famílias de apicultores. No estado, a apicultura é a fonte de renda de mais de 40 mil famílias. Agora, a expectativa é evitar um novo cenário de perdas. “Vamos acreditar que conseguiremos essa isenção”, afirma a empresária da Lambertucci. “Mas se não conseguirmos, continuaremos nosso trabalho de lobby com os formadores de opinião em Washington. Essa ação deve ser contínua para fortalecer a rede de apoio ao mel brasileiro”, conclui.
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